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jan

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4 anos de lesão e Retrospectiva 2016

Esse deveria ter sido o último post de 2016, mas virou o primeiro de 2017.

Quem me acompanha faz tempo sabe que, todo ano, no meu aniversário de lesão, eu faço um post grandão falando sobre o acidente e sobre os aprendizados e conquistas do ano, relacionados especificamente à fisioterapia e ao lado emocional.

Aí, esse ano, todo mundo esperou, mas não teve post. Muita gente perguntou o motivo e dei aquela escorregada, feito bagre ensaboado, e não respondia. Mas hoje, decidi contar tudim procêis.

Todo ano, no meu aniversário de lesão, eu sempre foco no que eu ganhei. Seja algum movimento quase invisível da mão, seja alguma coisa que melhorou no tronco, seja no campo da amizade, da família, do esporte. Mas eu sempre vejo o copo cheio, e foco no que eu ganhei ou no que eu mantive. Porém, esse ano, com aquela maravilhosa novidade do facebook  “Suas lembranças”, eu fiquei o mês de outubro inteirinho sendo lembrada do que eu perdi. Só recebia foto de corrida, de treino de corrida, de mais corrida e mais e mais… até a última delas, dois dias antes do acidente.

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75 Bertioga-Maresias. 2 dias antes do acidente.

Aí, não teve jeito. Toda a minha fortaleza desabou! Muito se engana quem pensa que eu sou feliz 100% , que não tenho problemas, dores ou tristezas. Mas, eu sempre tentei focar nas coisas boas e não me permitia chorar ou sofrer  mais do que um ou dois dias. Esse ano, eu já comecei a chorar no fim de setembro, quando começaram a aparecer as fotos das reuniões pra Bertioga-Maresias, minha última prova em pé. Por sorte, eu estava na casa do boy e ele me ajudou a não pensar muito.

Todo ano, no meu aniversário de lesão, eu viajo pra comemorar. E geralmente eu faço alguma prova, de corrida com a handbike ou de triathlon. Esse ano, eu não tinha nenhuma. Nem dinheiro pra viajar muito longe. Pedi ao boy pra ir pra Ribeirão ficar comigo. E ele teve que me aguentar chorando do dia 20 ao dia 22. Mas eu não quis ficar sozinha. E ainda bem que não fiquei!

Chegada dos 75km Bertioga-Maresias, com as duas amigas com quem eu formei o trio de revezamento.
Chegada dos 75km Bertioga-Maresias, com as duas amigas com quem eu formei o trio de revezamento.

O que eu aprendi com tudo isso? Aquilo que eu já falo sempre, desde os primeiros dias de acidente. Falo inclusive nas minhas palestras. Tristeza e depressão não resolvem problema. Só pioram! Eu me permito chorar e sofrer, tanto pelo acidente, pelo fato de não andar mais, ou pelas minhas dores. Faz parte da vida nos sentirmos tristes. E segurar a lágrima, não botar sua tristeza pra fora, vai fazer mal pra você! Mas não deixo isso se arrastar por muitos dias. Nem fico o dia inteiro me descabelando. Chorava, conversava com ele, e a gente ia fazer outra coisa pra distrair minha cabeça. Sim, mantenha-se ocupado! Não tem aquele ditado “cabeça vazia oficina do diabo”? É exatamente isso! Se você ficar ocupado, fazendo e falando sobre outras coisas, a razão do seu problema não vai ficar incomodando o dia inteiro. E pensamentos negativos causam doenças físicas! Outra coisa é: peça ajuda. Eu falei pro boy que não ia dar conta de ficar em casa sozinha na data. E lá foi ele ficar comigo. Não é feio assumir alguma fraqueza sua e pedir ajuda. É melhor pra você, que terá alguém pra dividir sua carga. E a pessoa que te ajudar (mas tem que ser alguém que se importe com você de verdade) vai se sentir feliz por poder te ajudar a aliviar a tristeza, nem que seja segurando sua mão e te ouvindo.

“Aaaah, Dani, então seu ano de 2016 foi terrível. Você só chorou”. Té parece, meu bem! Esse ano, o aniversário de lesão foi mais pesado do que eu esperava, mas teve um tantão de coisa boa pra compensar.

Em março, eu realizei um grande sonho, que era conhecer os Estados Unidos. Eu dei aula de inglês 10 anos e nunca tinha ido pra lá. Como em março eu tinha o Panamericano de Paratriathlon, fui de mala e cuia. Pude ver a neve no Central Park, em New York, antes da prova, e pude ver o Mickey, na Disney, depois da prova. E também experimentar aquelas comidas que a gente vê os americanos comendo de café da manhã nos filmes. Coisa de gordinha…

Central Park - NY
Central Park – NY

 

Disney Magic Kingdom
Disney Magic Kingdom

 

 

Fui a primeira brasileira cadeirante a participar de uma prova de triathlon internacionall. E por que eu não fiz post sobre ela? Porque eu passei vergonha na água, meu bem! Eu nunca tinha usado uma roupa de borracha. Como meus pulmões foram comprimidos no acidente, eu tenho uma certa dificuldade pra respirar. Aí aquele trem me apertou dum tanto, que eu apavorei e deixei todo mundo apavorado. Inclusive o boy, que foi comigo em uma prova pela primeira vez. Mas, eu consegui me acalmar na metade do percurso, tirei o atraso na água, mas já tava esbaforida! Ainda não sabia mexer na hand nova, nem na cadeira, pois tinha pego as duas apenas 4 dias antes. Aí, fiz uma cagada atrás da outra.  E a verdade é que eu fiquei me punindo por isso. Fiquei meses ensaiando posts na minha cabeça, pra contar pra vocês, mas eu me punia muito pelo meu medo. E não tive coragem de compartilhar aqui. Bobeira da minha parte? Talvez. Mas eu levei bastante tempo pra aceitar meus erros na prova, que me levaram a ficar em 4º lugar na prova, 6 minutos atrás da terceira. Vendo o copo cheio? Escrevi meu nome na história do triathlon brasileiro. Fui a primeira no Panamericano e a primeira numa prova internacional. Isso ninguém me tira, né?!

Na área de transição, minutos antes da largada do Panamericano de Paratriathlon
Na área de transição, minutos antes da largada do Panamericano de Paratriathlon
Panamericano de Paratriahtlon - Flórida
Panamericano de Paratriahtlon – Flórida

Aaaahh, e teve o boy! Ficamos amigos por 6 meses, nos falando por telefone todo santo dia. Não foi amor à primeira vista da parte de nenhum dos dois. Mas na viagem, com a convivência, nos apaixonamos. Sou muito grata por ter alguém do meu lado que soube respeitar minha escolha no esporte e quis fazer parte disso. Ele é meu handler em todas as provas, me apoia, me acalma. E enfia todas as minhas tralhas, aquele mundaréu de roda no carro, e me leva pra treinar na rua. Sem ele eu não teria melhorado tantos meus tempos nesse ano. Fora que encontrei um companheiro pra todos os momentos da vida. Menos pra dieta! Aquele ali nasceu virado pra lua! Come, come e não engorda nunca. Mas, terei que aprender a conviver com isso pro resto da vida. Em 2017 diremos o SIM e trocaremos as alianças de mão!

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21k Golden Run RJ
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Wings For Life World Run – Brasília
Campeonato Brasileiro de Paratriathlon - Caraguatatuba
Campeonato Brasileiro de Paratriathlon – Caraguatatuba

 

 

 

 

 

 

 

 

Dia do pedido de noivado
Dia do pedido de noivado

 

 

 

 

 

 

 

 

Quanto ao esporte, só posso reclamar de não ter conseguido mais patrocínios pra participar de mais provas. Foi um ano muito gostoso! Eu fiz minha primeira maratona. Depois de tantos anos esperando, finalmente pude gritar que sou maratonista. Foi igual? Não! Foi de handbike? Sim. Mas o importante é que eu consegui tirar isso da minha cabeça. E não satisfeita, eu fiz duas! Fiz a Maratona de Porto Alegre, em junho, e a Asics City Marathon, em julho. E deu pódio nas duas!

Feliz da vida na chegada da minha segunda maratona.
Feliz da vida na chegada da minha segunda maratona.

Também fui a primeira a participar do Challenge Florianópolis e fomos super bem recebidos pelo pessoal da organização. Ali, pude enfrentar meu medo do mar agitado, e consegui sair da água na frente de muita gente que anda! E fui Bicampeã Brasileira de Paratriathlon.

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Outra coisa incrível foi o UB515. Formamos a equipe TriFeliz, onde o atleta Reinaldo Tubarão carregou deficientes na prova. Ele puxou Mara Gabrilli na natação, por 10km. Depois carregou a mim  na bicicleta, durante 2 dias de percurso. E no último dia,  Lipe Magela e Jonatan Silva e eu nos revezamos ao sermos empurrados na distância de 2 maratonas. Escrevemos nossos nomes também na história do Ultraman, junto com toda a equipe de apoio.

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Junto com outras mulheres maravilhosas, fui homenageada por Gabi Manssur em sua palestra no TEDx, sobre o empoderamento da mulher através da corrida.

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E teve palestra! Eita que eu gosto pouco de falar, né?! E quando pego no microfone, não quero soltar mais. Gosto mais de ficar ali batendo papo do que de cantar no karaokê! rsrs  Conheci pessoas maravilhosas, tantos entre os que me assistiram, como entre os que me contrataram. É sempre enriquecedor. Eu adoro quando as pessoas vem me cumprimentar no final da palestra e dividem um pouquinho da história delas comigo. Sempre aprendo. E esse ano teve até fila pra me abraçar, em Franca! Como retribuir esse carinho?

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Dei entrevista pro rádio, pra tv. Fui capa de revista. Posei pras fotos de modelete…

“E a fisio, dona Danielle? Não teve fisio?”  Teve sim! Além dos profissionais de Ribeirão que já me atendiam, como o boy é de Porto Alegre e eu vivo no ir e vir, pude conhecer a Mel e sua equipe maravilhosa. Foi desafiador! Esses dias estávamos lembrando como eu chorei no primeiro dia, de medo de ir de cara no chão com os exercícios propostos. E hoje eu faço os mesmos exercícios com menos dificuldade (e menos medo). Aprendi a conhecer meus limites. Nem sempre é fácil encararmos nossos limites de frente e assumirmos que isso a gente não consegue fazer. Pior ainda é quando você acha que consegue e descobre que não consegue. E eu me deparei com isso várias vezes durante esse ano. Não foi fácil. Eu voltei de lá várias vezes frustrada, por ver como meu corpo está e como às vezes ele não responde. Mas, eu tento não ficar pensando só nisso. Tento não ficar pensando só no que eu não consigo fazer ainda. Tento sempre pensar que “isso eu não conseguia e agora já consigo um pouquinho”.

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Verdade seja dita, há 4 anos (e 2 meses) atrás, eu pensava que em 1 ano estaria andando e em 1 ano e meio já estaria correndo. E ainda to aqui, 4 anos depois, tendo a cadeira de rodas como minha fiel escudeira. Todo mundo ri quando eu to sentada no chão e peço pra alguém trazer minhas pernas. É isso que a cadeira é, uma substituição das minhas pernas pra me locomover. Amo? Não. Odeio? Também não. Encaro como algo necessário, mas que me permitiu sair da cama e continuar vivendo e sendo feliz. Já imaginou se não tivessem inventado a cadeira de rodas e eu precisasse passar o resto da vida na cama? Socorro! Um beijo pra quem inventou a cadeira! (falando nisso, não sei quem foi. Preciso dar um google).

4 anos depois, minha ideia de vida continua a mesma. Quem me lê desde sempre deve lembrar, porque eu bato sempre na mesma tecla. O plano A é e sempre será voltar a andar. Ta levando muito mais tempo do que eu imaginava. Há uns 2 anos atrás eu escrevi que tentar voltar a andar tinha deixado de ser a maratona da minha vida, e virado uma ultra. Esse ano percebo que fazer o plano A tornar-se realidade vai ser a maior Ultra já corrida na história! Dói. Cansa. Eu paro pra pegar água. O tênis desamarra. Eu paro pra desamarrar. Diminuo o ritmo na subida. Tento aproveitar o embalo da descida, mas sem descabelar, pra não sobrecarregar o joelho. Descanso quando to cansada. Diminuo e aumento meu pace, de acordo com o sol, a chuva, o vento. Troco a música. Tomo mais um gel. Jogo água na cabeça. Às vezes luto pra não quebrar. Eu só não paro. Não vou parar nunca. Tenho certeza de que vai ser a linha de chegada mais linda da minha vida! Enquanto isso, eu aproveito todas as outras linhas de chegada do meu plano B, que é ser uma grande atleta. Mas em qualquer um dos planos, eu foco em ser feliz. Em aproveitar todos os momentos de felicidade. E sorrir. Sorrir sempre! É isso que importa.

 

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12
ago

27

Sobre Laís, a tocha e voltar a andar

Confesso que deixei passar uns bons dias, porque  achei melhor deixar o assunto esfriar. Aí, pensei em nem falar nada e deixar pra lá. Mas, ainda continuo ouvindo e lendo várias coisas sobre isso. Assim, decidi não me calar.

Durante a passagem da tocha olímpica pelo nosso país, alguns poucos atletas tiveram a honra de carregá-la. Entre esses está nossa querida Laís Souza, atleta olímpica que ficou tetraplégica em um treinamento.

Ao carregar a tocha, Laís optou pelo uso de um equipamento, uma cadeira de rodas que a deixava em pé.

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Quando eu vi a foto, pensei :”Ela foi genial! Assim, quem a ajudaria a segurar a tocha, não precisaria ficar curvado, com perigo de cair no chão ou ter uma baita dor nas costas”.

Muitos brasileiros ficaram extremamente felizes e emocionados ao ver Laís de pé, mesmo que com ajuda da tecnologia.

No entanto, essa pareceu não ser a opinião de todos! Em alguns artigos escritos, e em algumas postagens nas redes, Laís foi acusada de “negar a classe”, rejeitando sua condição de cadeirante, não querendo fica sentada.

Eu respeito todas as opiniões, mas deixo claro aqui, que não concordo!

Eu não conversei com a Laís pra saber porque ela tomou essa decisão. Conversei apenas com Will, o cuidador dela, e deixei uma mensagem pra ela, apenas dando força e falando pra ela deixar pra la.

Ora, convenhamos, desde quando as pessoas não podem tomar suas próprias decisões? Desde quando Laís, eu ou você temos que pedir opiniões alheias ou justificar todas as nossas escolhas?

Algo que me intrigou profundamente foi o fato de que muitos cadeirantes estavam acusando Laís de desvalorizar a identidade do cadeirante e de não aceitar sua nova condição.

Porém, toda essa fomentação começou por parte de um jornalista (que gosto muito e respeito) que também é cadeirante, MAS (e mas com letras garrafais) não tem lesão medular! Pois é! Já expliquei aqui no blog que cadeirante não é tudo igual! O fato de a pessoa estar numa cadeira de rodas não indica que ela tenha a mesma patologia que seu amigo que também é cadeirante, ou o vizinho da sua prima ou até sua avó.  O fato de sermos cadeirantes não nos torna todos iguais!

Quem nasce cadeirante tem a “sorte” de crescer assim e não ter que se acostumar com uma mudança repentina de vida e universo. Eles já aprendem, desde pequenos, a tocar a cadeira (e isso os faz mais corajosos nas manobras) e desenvolver, desde cedo, habilidades que os ajudarão na vida sobre rodas.

Quem não nasce cadeirante tem sua vida tomada por uma nova realidade e tem que reaprender a viver.

Além disso, na grande maioria dos casos, quem nasce cadeirante não tem mais 800mil demandas que um lesado medular tem!

Acredito que, assim como eu, e milhares de pessoas ao redor do mundo, o maior sonho de Laís seja voltar a andar. Porém, voltar a andar não nos cura da lesão medular! Não!

Se algum dia eu voltar a andar, ainda terei que viver com meu maior pesadelo: a dor neuropática. Ela é causada pela lesão medular e, voltar a andar, não vai fazer eu me livrar dela! Ainda terei que tomar remédios, fazer tratamentos, levar injeções, viver encapotada, na esperança de passar algum dia sem dor. E ainda passarei dias na cama (como ontem), porque a dor não passa e não me deixa fazer mais nada.

Se algum dia eu voltar a andar, ainda sofrerei com os espasmos. Ainda terei que tomar mil remédios, na esperança de controlá-los e não ter uma contração muscular involuntária a cada 13 segundos (sim, eu tenho isso!).

Se algum dia eu voltar a andar, ainda terei problemas de bexiga e intestino, já que a lesão medular nos deixa com bexiga neurogênica e intestino sem controle. Então, eu ainda terei que tomar remédios pra isso e ainda irei de 2 a 6 vezes ao banheiro durante a noite, enquanto você está dormindo.

Se algum dia eu voltar a andar, ainda terei problemas de temperatura com calor. Como tenho lesão alta (C7 – tetraplegia incompleta), eu tive meu sensor de temperatura corporal alterado. Eu não transpiro mais! Então, meu corpo esquenta, esquenta e eu fervo! Pareço uma panela  de pressão, prestes a explodir. Corro o risco de desmaiar. Se você assistiu “Como eu era antes de você”  e prestou atenção na cena em que Clark enche Will de cobertas e, quando o cuidador chega, ele está quase desmaiado, tiram os edredons de cima dele, colocam ventilador pra ele resfriar…então, é exatamente isso!

Se algum dia eu voltar a andar, ainda terei problemas de temperatura com frio. Pois é, a coisa é feia pros dois lados. Da cintura pra baixo, eu gelo muito fácil! Chego a usar polainas em casa durante o verão! E, as vezes, eu nem sinto o frio, mas estou uma pedra de gelo! E meu corpo não aquece rápido igual ao de uma pessoa “normal” (sem lesão medular). Não é só sair do vento que ta tudo bem. Não! Uma vez gelada, eu continuo gelada por horas. E esse frio me causa….dor neuropática! Então, mesmo que eu volte a andar, se a lesão medular não for curada, eu ainda terei que usar meia calça no verão, sair com 300 meias, usar polaina no verão e só pegar avião de calça e botas (mesmo que lá fora esteja 40graus).

Se algum dia eu voltar a andar, minhas mãos comprometidas ainda estarão comprometidas. Eu ainda não consegui a coordenação motora fina de volta. A caneta vai continuar caindo da mão, eu ainda não conseguirei abrir embalagens sem usar a boca ou pedir ajuda, eu ainda não conseguirei segurar uma jarra pesada de suco pra me servir no almoço, nem vou conseguir costurar o botão da minha calça que caiu.

Quem nasceu cadeirante não tem nada disso! Quem ficou cadeirante, tem tudo isso e muito mais.

To falando que é melhor ser cadeirante assim ou assado? Melhor desse ou daquele jeito? Não! To falando que é diferente! O melhor é que ninguém fosse cadeirante! O melhor é que ninguém tivesse que passar por nada disso, nem questionar nada, nem ser questionador, nem implorar por uma rampa pra atravessar a rua, nem ter que mudar a opinião das pessoas sobre a deficiência! O melhor é que não precisássemos lutar pra conquistar nosso lugar no mundo e não tivéssemos que provar pra ninguém que somos tão capazes quanto, ou mais capazes do que quem não tem deficiência.

Porém, as diferenças existem e, se eu voltar a andar, não estarei “curada” da lesão medular. Se Laís voltar  a andar ela não estará “curada”.

Eu sei disso. Laís sabe disso. Sabrina sabe disso. Douglas sabe disso. Felipe sabe. Marcelo sabe. Greyce sabe. Carla sabe. Fabiula sabe…

Agora você também sabe.

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22
out

2

3 anos de vida!!!

Eu queria achar outra música pra começar esse post, mas vou ter que usar a mesma do post de um ano atrás:

“É hooojeee o diiiiaaaaaaa, daaaa aaaaleegriiiaaaaaa”

Sim, hoje completo 3 anos de vida, de vida nova, da minha chance de recomeçar, de me reinventar!

Pra quem é novo por aqui:

Eu era assim
Eu era assim
UTI -  Outubro/2012
Aí eu fiquei assim
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Agora eu sou assim!

Se eu disser pra vocês que foi tudo lindo, maravilhoso, perfeito, estarei mentindo! O começo, a adaptação à nova realidade, é muito difícil pra todo mundo. Tanto pra quem vai pra cadeira, quanto pra família.

No entanto, como eu sempre digo desde o início, eu escolhi viver e não só sobreviver. Eu simplesmente não quis ver a minha vida passar pela janela. Eu quis vivê-la!

Hoje, farei aqui confissões que nunca fiz a ninguém, além de Deus.

De quando sofri o acidente, e até hoje, meu m12036890_1085906698086682_5735296305632359685_naior sonho é voltar a andar, pra poder voltar a correr. Foi isso que me moveu e é isso que me move a cada dia. Estar ali nas provas, enquanto todo mundo corre, enquanto eu ouço as passadas dos outros corredores no asfalto, e eu me movo com os braços, não é fácil. Mas eu prefiro isso, do que não estar mais ali!

Quando mexi meu pé direito pela primeira vez, não escondi de ninguém. Eu estava com apenas 13 dias de acidente Foi uma mexida mínima, quase invisível, mas que me encheu de ânimo! E ali, naquela hora, pensei “Daqui um ano já estarei correndo de novo”.  Quando eu fiquei em pé pela primeira vez, sem precisar da órtese, mesmo que apoiada e apenas por 5 segundos, pensei “Daqui uns 6 meses eu estarei correndo de novo”. 3 anos se passaram e eu ainda estou aqui, na cadeira de rodas e sem correr. A perna direita responde a alguns movimentos, sem muita amplitude. Mas uma perna, um pouco fraca, não é suficiente pra andar. Eu preciso das duas. E a esquerda tá com preguiça de trabalhar hoje. Ela entrega atestado médico diariamente, já faz 3 anos! Tenho tentado fortalecer meu tronco. Pra frente e pra trás ta melhor. Mas pros lados, eu ainda pareço o João do Posto. E eu preciso do core todinho, pra poder andar. 12122410_1091699610840724_6946487073752616231_n

Então, há um tempo atrás, eu pensava que hoje, já estaria andando e correndo de novo. Mas não estou! Isso mostra que a paciência que eu tive que aprender a desenvolver nesse tempo, ainda não é suficiente. Eu tenho que ser ainda mais paciente!

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Também me ensinou que não dá pra ter tudo na vida e nós temos que ser felizes com o que temos. Se eu sou feliz? Muito! E que convive comigo sabe disso! Eu entrei no liquidificar e saí, viva, inteira e pronta pra curtir a vida adoidado. Sabe aquele ditado besta “Deus disse: desce e arrasa”? Então, no meu caso, Deus disse “Sai desse monte de lata retorcida e vai ser feliz, minha filha!” Me considero feliz e vivo muito mais intensamente agora do que antes. Viajo mais, passeio mais, dou menos valor ao dinheiro e mais às experiências vividas, dou menos valor à aparência física (apesar de odiar minha barriga de tetra e minhas pernas moles, e uma mais grossa que a outra) e mais à saúde. Conheci muito mais gente, muitas pessoas legais que me ensinaram muito.

Eu enxergo muito mais os meus defeitos, e também levo alguns puxões de orelhas às vezes, sobre coisas que eu preciso melhorar. Mas eu tento sorrir mais pra vida! Mais do que eu já sorria! Meu apelido na época de corrida era Dani Sorriso. Engraçado é ver algumas pessoas hoje, novas na minha vida, me chamando da mesma forma, sem saber de nada do que aconteceu antes (vida pré-cadeira fica esquisito, né?!).

Eu costumo dizer que tristeza e depressão não resolvem problemas. Então, eu me permito ficar triste sim! Faz parte da vida. Mas não deixo que isso tome muito meu tempo, ou pior, que roube o meu tempo de outras coisas!

11902326_1095673897126547_3336178662199218584_nO fato de não andar não impediu que eu corresse atrás de alguns sonhos. Um deles foi, finalmente, entrar pro triathlon. E como triathlon é esporte de louco, eu entrei e fiquei e ninguém mais me tira de lá!hahahaha Foi a mesma coisa completar a prova de triathlon do que seria quando eu planejava completar andando? Não, não foi! Mas eu quis fazer, mesmo que fosse tudo diferente. E talvez tenha sido melhor, porque eu fiquei muito tempo esperando e pude curtir cada minutinho. E também, tinha muito mais gente torcendo pra eu conseguir, pelo menos, completar!hahaha

Foto para a Campanha Outubro Rosa desse ano
Foto para a Campanha Outubro Rosa desse ano

Uma das grandes frustrações da minha vida é não ter completado uma maratona com as pernas. Planejo fazer uma com a handbike? Mas é claro! Ia fazer esse ano, mas não tenho mais onde enfiar prova! A não ser que alguém saiba de alguma Maratona de Natal (se alguém souber, me avisa!). Num dos meus grupos de whatsapp, estamos eu e mais dois disputando pra ver quem chega vivo no final do ano, de tanta prova! Então, acho que a maratona com a hand vai ficar pro ano que vem. Mas, vai ser igual, fazer com a handbike do que seria com as pernas? Claro que não! Óbvio que não! O triathlon não foi e a maratona vai ser menos parecida ainda! Isso não quer dizer que não vou fazê-la. E também não quer dizer que eu viva sem esperanças. No dia do IronMan, postaram uma velhinha, de 89 anos que completou uma maratona. Eu olhei a foto e pensei “Nem que eu tiver 89 anos, eu vou completar uma maratona ‘andando’ “(pq eu quero é completar correndo, né?!).

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E eu não desisti de buscar, caçar e perseguir meus outros sonhos.  Um deles é a handbike nova (se Deus quiser, vamos conseguir. Se você quer me ajudar, clica aqui http://www.kickante.com.br/campanhas/vem-com-dani-0 ) .  Outro é ter um carro, pra não depender de mais ninguém pra levar handbike, cadeira de atletismo, cadeira de rodas e eu, pras provas! Mas, tive que aprender que é uma coisa de cada vez. E como eu disse pra uma amiga hoje, nem tudo é nada hora que a gente quer! Tudo tem a hora certo, o tempo certo. Não o nosso tempo, mas o de Deus!

Eu ainda continuo com o mesmo pensamento sobre o tipo de vida que eu quero ter. Porque tem gente que não cria lembranças pra si mesmo. Eu quero uma vida cheinha de lembranças, de risadas, de bons momentos, eu quero uma vida colcha de retalhos, que a gente constrói aos poucos, vai costurando os pedacinhos, fura o dedo, a linha acaba, a gente pega outra de outra cor, para pra cortar mais retalhos, vai fazendo um pouquinho por dia, um pedacinho de cada vez. E nesses 3 anos, eu comecei a costurar a minha. Furei o dedo várias vezes, tive que trocar a linha várias vezes. Coloquei uns retalhos lá na barra, porque não quero olhar pra eles todos os dias. Mas não posso esquecer que eles existiram e olhar pra eles me faz lembrar o que aprendi. Mas o meinho da minha colcha, aquela parte que a gente olha todo dia quando vai deitar…aahh, esse ta coloridinho, cheeeeeio de pedacinhos vibrantes, bem vivos e alegres, do jeito que eu gosto! Do jeito que tem que ser!

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set

2

Finalmente triatleta!

Essa história começa há alguns anos. Pra ser mais exata, há 3 anos atrás! Pois é, antes do acidente eu já estava treinado pro triathlon. Eu nadei a vida toda. E quando comecei a correr, tinha parado de nadar há poucos meses. Nos últimos treinos de corrida, alguns amigos conseguiam bikes emprestadas pra eu poder treinar depois de correr. E a prova dos sonhos (uma das, porque eu sonho e não tenho miséria com isso) estava se aproximando… Mas eu sofri o acidente um mês antes, e o sonho foi por água abaixo.

Quando eu estava com 6 meses de acidente, já tinha voltado do Sarah e tudo, reunimos alguns amigos e, um deles, o mega triatleta Rafael Falsarella, sentou do meu lado e disse uma única frase que impregnou na minha mente até hoje.

Mais um ano se passou e, já nadando bastante, eu ganhei a handbike dos meus amigos de corrida. E pensei “o sonho não morreu!”. Já em contato com a equipe de Paratriathlon, no ano passado descobri que seria um pouco mais difícil do que eu imaginava, pois não tenho a cadeira de atletismo, necessária para a etapa de corrida. Desanimar? Jamais! Continuei treinando, né?!

Quando o paraciclismo entrou na minha, e eu fui pra equipe de Taubaté, sentei na cadeira de atletismo pela primeira vez na vida (o post da saga da Dani Horácio ta aqui http://daninobile.com.br/123-testando-cadeira-de-atletismo/ ). Aíííí, olha eu sonhando com o triathlon de novo!

Mas, como a minha paciência ta sendo testada, aprimorada, lapidada eeeee trollada depois da cadeira, a primeira prova de 2015 caiu no mesmo dia da Copa Brasil de Paraciclismo. E eu…não pude ir!! Como eu sempre digo, “tem pobrema, não”. Na hora, eu fiquei chateada, mas não era pra ser! Eu não ia dar conta dessa cadeira do mal no fim de um triathlon.20150823_072101

 

Mas, como quem espera sempre alcança, chegou o grande dia! Aaaaaaaaaeeeeeeeeeeeeee!!!!!!! Eu treinei por meses e meses pra nadar e pedalar no mesmo dia, e alguns dias ainda ia no parque tocar a cadeira. Mas nunca era um treino de transição, eram atividades separadas, com descanso, banho, comida (muita! a monstra aqui é boa de boca) no meio. Mas, eu fui com a cara e com a coragem. E começou a saga de “como buscar a cadeira de atletismo em Taubaté e ir, de busão, pra Caraguatatuba, com cadeira de rodas, cadeira de atletismo, handbike e mala..sozinha! Todo mundo sabe que eu sou meio doida e eu resolvi até que ia fazer duas viagens. Mas resolvi pedir ajuda no nosso grupo (santo whatsapp). A galera não mediu esforços e, graças aos contatos do nosso técnico, um triatleta top (que inclusive foi campeão geral da prova), o Guilherme Gil, se prontificou a levar a cadeira pra mim lá pra Caraguá. Graças a Deus e a ele, eu tinha 3 rodas a menos pra carregar!

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Booooooom, chega de enrolar! Vamos pra prova!

Parte 1 – natação: Que gelo aquele marzão! Mas eu estava tão nervosa que 5minutos depois nem lembrava mais. O pessoal do staff leva a gente em cadeiras anfíbias até metade do caminho pra largada. Depois já vamos nadando e ficamos lá esperando. Claaaro que eu sobrei sem cadeira, então um moço me carregou no colo (que chato). Assim que ele me colocou na água (fingindo que eu era levinha), o Tiago, paratleta de Caragua, ja me deu a mão e foi me carregando. Começaram a vir as primeiras ondas e eu lembrei que já estava de óculos (uso lente de pessoa mega míope) e enfiei a cabeça na água. Mew, que medo de só enxergar tudo marrom! Já faz mais de um ano da travessia que eu fiz. Eu sabia, mas nada como enfiar a cabeça na água e ter certeza que você vai enxergar só a sua mão ou nem isso. Vontade de fazer xixi e péééééé….deram a largada.  Deixei a galera top das galáxias ir na frente. Eu faria com calma.

Nadei meio metro e o óculos já embaçou. Eu nem conseguia ver a primeira bóia. Decidi grudar no caiaque, dar aquela lambida básica no óculos e vambora. Ainda perguntei pro moço do caiaque “eu sou a última?” (eu tinha certeza do “sim”) e, pra minha surpresa, ele disse “vocês dois”. Quem me conhece, sabe o que passou na minha cabeça nessa hora. E eu comecei a nadar enlouquecidamente. Mas só até colocar a cabeça pra fora pra respirar e toda a água do oceano Atlântico me entrar guela abaixo. Pára, né! Nada direito, mulher!  Apesar de o mar estar sujo e mexido, era mais raso do que esperava! Então, toda hora que eu perdia a  bóia de vista, era só me erguer ereta que eu não morria afogada. Na verdade, apesar de estarmos uns 500m mar adentro, dava pé!

Nessas horas, já tinham soltado mais uma bateria de atletas. O mar ficou lotado, mas quando fui da segunda pra terceira bóia, ficamos eu e mais duas pessoas. Essa parte foi a mais difícil, porque tínhamos que nadar na diagonal e a correnteza me levava pro outro lado. Mas eu estava tão feliz de estar conseguindo e só ter bebido água uma vez, que eu não sentia nenhum cansaço. Foi tão maravilhoso. E quando eu avistei a chegada da natação, só conseguia pensar “jura mesmo que eu estou aqui, na minha primeira e tão sonhada prova de triathlon?” . E foi com esse pensamento que eu saí  da água, sorrindo e feliz. E eu não fui a última a sair, como eu achava que aconteceria. Na verdade, já deixei minha casa com esse pensamento, pra não me frustrar. Mas fui surpreendida por mim mesma.

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Transição 1: Como era a primeira prova e eu não estava desesperada, demorei. Eu quis colocar tênis. Ainda bem, pois salvou meu pé na parte da bike. E quis prender bem o cabelo, pra não pegar na roda da hand e eu ficar careca na prova. Nisso, todos os meninos saíram da transição da bike. Como eu não tinha handler, apareceu um árbitro pra colocar meu pé no suporte da bike. Mas logo o Rodrigo (técnico de Caragua, que me ajudou muito na prova) veio correndo pra ajudar também. Partiu!

Parte 2 – ciclismo.Eu pensava em fazer os 20km em 1h. A primeira volta não foi fácil, confesso. Eu achei que essa seria a parte mais fácil, porque eu to mais acostumada. Como diria Chaves: ” que burra! Dá zero pra ela”.
Eram 3 voltas. Na primeira, minha perna esquerda deu muito trabalho! Batia no parafuso (igual a Golden Four). Eu não queria ficar roxa de novo, tentava arrumar e ela caía pro lado, pra fora. A faixa da perna chegou a sair 2 vezes.  Eu passei boa parte do tempo pedalando mal, tentando arrumar essa teimosa.

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A segunda volta foi bem melhor que a primeira. Nessa hora, alguns dos meninos cadeirantes  e alguns outros paratletas já estavam na corrida. Fiquei um pouco tensa com meu tempo, mas eu estava ali  pra terminar.

Nessa volta, também já havia algumas bikes convencionais na pista. Eu tentava ficar bem no cantinho pra não atrapalhar o pessoal que buscava pódios no geral. Como a segunda volta foi melhor, achei que a terceira seria molezinha.  Mas, como diz aquele ditado “fui surpreendida novamente”. Na curva do último retorno, não sei porque atá agora, mas eu caí. A curva era pra esquerda e eu caí pra direita, tamanho excesso de coordenação motora que eu tenho! Bati o braço direito no chão, a perna também. A perna esquerda bateu na hand e os pés, se não fossem os tênis, teria raspado no asfalto quente. Veio uma moça pra me levantar e eu ri e falei “calma, moça, sozinha você não consegue me desvirar”  e ri! Veio mais alguém, eles me desviraram, aquele monta de bike passando por mim e ela perguntou “sua perna já estava assim?” Eu olhei e tava tudo sangrando e ralado. Confesso que pensava que minha sensibilidade era melhor. Mas agradeci por não ter sentido dor naquela hora. A moça perguntou “Quer parar e limpar?” Ta doida, é? Ta louca, é? hahahaha  Eu não cantei isso pra ela, mas pensei. Só disse que não, que depois a gente via isso. Eu já tinha perdido tempo demais.

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Tentei terminar essa volta, mas já não estava mais concentrada. Tentava ir mais rápido, por causa do tempo que eu tinha programado. Mas eu fiquei meio mole depois da queda. Fechei o ciclismo 2minutos acima do que eu tinha me programado.

Transição 2: Aqui começou a burrice da criatura= eu. Assim que eu cheguei na transição, o Rodrigo e mais um professor de Caragua estavam lá pra me ajudar a transferir da hand pra cadeira de atletismo. Eu já tinha deixado um gel em cima da cadeira, pra tomar. Mas eu estava tão passada com a queda, que nem água eu beberia (apesar de ter deixado a garrafinha ali) se o Rodrigo não tivesse falado. Pensei em levar a garrafinha pra tomar um gel no percurso, mas ela caiu no chão quando eu fui sair da transição. Nessa hora, a cadeira também não saiu do lugar! O freio ficou preso. Pra minha sorte, o Mais Bonito Fernando Aranha veio, com ferramentas. Ele e o Rodrigo soltaram um pouco o freio e eu falei que iria daquele jeito mesmo. E fui, com freio enganchando, sem água e sem tomar gel.

Parte 3 – Corrida:
Eu sabia que aqui o bicho ia pegar. Mas não imaginei que fosse tanto.
Minha habilidade com essa cadeira é -5. Eu nao consigo respirar direito nessa posição. Eu sabia que já estaria cansada e o sol iria fritar meus miolos.
A primeira volta foi melhor do que eu esperava. Eu conseguia tocar a cadeira, os atletas convencionais e os poucos paratletas que ainda estavam na prova, me gritavam, me animando. As pessoas que assistiam também me gritavam.

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Porém, fui muito mirim e cometi o erro ridículo de não tomar nenhum gel na corrida. Isso quase me custou a prova! Eu pensava “quando tiver água eu tomo”. A água chegava e eu não tinha tempo de colocar o gel na boca, pegar água e tocar a cadeira. Nessas horas eu queria ser um polvo, mas só tinhas duas mãos. E uma já não é aquelas coisas. Eu pegava a água, bebia metade e jogava metade na cabeça. Eu não transpiro, por causa da lesão, e eu estava fervendo.

Nos últimos 500m eu via tudo preto. Fechei o olho e fui tocando a cadeira. Eu chorava e pensava “Eu vou mesmo terminar minha prova de triathlon?” “Meu sonho está tão perto. Eu vou mesmo conseguir”. Eu estava muito emocionada e isso não deve ter ajudado. Faltando 100m, e depois de novo nos 50m, eu quase desmaiei! Mas eu só pensava: “eu desmaio depois da linha de chegada! Eu vou terminar esse negócio!” Aquelas duas curvas, pelo amor de Deus! Nessa altura, o Hilton já estava do meu lado, ciente do meu estado, me animando. Quando eu avistei a linha de chegada, bem ali na minha frente, eu comecei a chorar de novo e tirei forças sabe deus de onde, pra tocar a cadeira com toda a força que eu ainda tinha e cruzar a linha de chegada!

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Sim, eu consegui! Realizei meu sonho! Não no tempo que eu gostaria, mas eu fiz! E ao cruzar a linha de chegada, eu senti a mesma coisa do dia que terminei a minha primeira prova de corrida: Eu quero fazer isso pro resto da minha vida!! Posso ter passado mal, por burrice minha, cansei, quase desmaiei, mas só  conseguia pensar o que penso agora: quando é a próxima?

Depois de cruzar a linha de chegada, o Hilton já me levou direto pra tenda, onde eu quase desmaiei de verdade. Já bebi um monte de água gelada, jogaram água na minha cabeça, tomei os 2 sachês de gel que estavam no bolso, colocaram gelo na minha nuca e nos pulsos. Além de ter comido e hidratado, o corpo esfriou na sombra e com o gelo em mim. Em poucos minutos eu estava melhor. Eu só conseguia abraçar o Hilton, o Frango e o Clehomens. Logo a Andrea trouxe minha cadeira e duas bananas. Graças a Deus eu tive ajuda dela e do Wagner pra levar minhas coisas de volta pra pousada (apesar de terem roubado minha touca, deixada na transição. Pelo menos não levaram os óculos de natação).

Logo, já chamaram meu nome pra premiação. E nesse dia, eu me tornei a primeira mulher cadeirante triatleta do Brasil!

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Não vou mentir pra vocês que eu estava uma pilha de nervos. E tenho que agradecer imensamente a TODOS  os paratletas que estavam ali e à equipe do Paratri. Ficamos todos na mesma pousada. Sumiu a braçadeira que segura a roda da minha hand (nunca tenho uma prova sem tensão com a minha filha), e o Frango foi caçar bicicletaria na cidade. Os meninos me ajudaram a montar as coisas. Dantas me dando várias dicas de mar. Motorzinho e um outro atleta ficaram até mega tarde, depois do congresso, montando a cadeira de atletismo comigo (que veio desmontada), a linda da Tamiris fez 800 viagens pra levar meus equipamentos pra transição, o mais bonito Aranha parou de almoçar pra buscar chaves pro Gil desmontar a cadeira. Fora o tanto de encorajamento, força, risada que rechearam meu final de semana. Todos da equipe do Paratri foram muito incríveis! Agradeço ao Rodrigo e aos meninos pela ajuda imprescindível nas transições. E a Andrea por me socorrer no final.

Nessa prova, também conheci muita gente legal, fiz várias amizades (até no banheiro do congresso, né Sophia!!), reatei amizades que estavam perdidas e recebi apoio de muita gente! Pessoas que eu conhecia, como  a Márcia, que tirou várias fotos minhas, mas de muitas pessoas que eu não conhecia, mas viam meu nome no número de peito e gritavam, aplaudiam, como que me empurrando no final. Esse apoio todo foi incrível, inesquecível e fundamental pra eu conseguir terminar a prova.

Tenho muito que melhorar, muito que treinar pra baixar meu tempo e muito que batalhar pra conseguir equipamentos melhores. Mas, apesar de todos os perrengues, eu realizei o meu sonho! Curti cada minuto de alegria e de dor. E vou te contar? Se fosse fácil, não teria tanta graça 🙂

 

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13
jan

7

Campanha Yescom + Cadeirantes, não mais Yescom x Cadeirantes

Aaaaaaaaaaaaoouuu! Sim, vou dar um grito pra criar coragem de escrever esse post polêmico. To ensaiando há exatos 13 dias pra falar sobre isso!  Sei que poderei ser banida das provas da Yescom, mas meu objetivo é bem diferente. É fazer com que eles abram os olhos e o coração para as diferenças!

Pra quem me acompanha, sabe que tive problemas com a Yescom na Volta da Pampulha e a represália veio na São Silvestre. Mas, pra quem é novo por aqui, vou fazer um resumão da minha ópera “Odisséia à Yescom”.

Eu sempre quis fazer a Volta da Pampulha. E lá no regulamento para inscrição de cadeirantes está escrito: não são permitidas cadeiras de uso diário (até aí, beleza!). São permitidas cadeiras esportivas de 3 rodas.

O que a Yescom talvez não saiba é que, para nós, reles lesados medulares, uma handbike não deixa de ser uma cadeira (já que estamos sentados) esportiva (já que usamos para praticar esporte) de 3 rodas (vem assim de fábrica).

Aí, beleza, fiz minha inscrição e fui toda feliz, contente E pimpona para a linha de largada, com minha hand. E lá, na hora de largar, vem um senhor aos berros dizendo que eu estava proibida de fazer aquela prova. E a proibição era devido ao uso de handbike. (Gente, não vou contar todos os detalhes de novo. Mas pra quem tiver interesse de ler, o link é esse aqui  https://daninobile.wordpress.com/2014/12/09/volta-da-pampulha/ ).

Pois bem, não bati meu pé por motivos óbvios, mas eu simplesmente disse que ia fazer sim, e que ele não iria me impedir. Falei também que, em lugar nenhum do regulamente estava escrito que handbikes não são permitidas. E depois de muito bate boca, um dos organizadores me deixou fazer a prova, com a condição de que eu seria desclassificada (isso porque nem premiação pra categoria cadeirante tem!). Eu fiz a prova, não faço a menor ideia em quanto tempo, peguei minha medalha e vim pra casa muito chateada com a falta de consideração e de incentivo ao esporte, no caso paradesporto, por parte da Yescom. Senti até um tiquinho de preconceito.

Como se não bastasse, eu queria fazer a São Silvestre (corrida de 15km, que não é maratona). Uma das provas mais tradicionais do país, se não a mais, eu fiz a São Silvestre em 2010, quando ainda andava. Pela festa com os amigos, pelo amor à corrida, por saúde e por sempre assistir a prova pela TV e me prometer que um dia eu a faria. E programava fazê-la novamente em 2012. Mas eu acidentei 1 mês e meio antes e não fui. Então, essa também virou uma prova-alvo pra fazer depois da cadeira. Meus amigos corredores de Sampa queriam me levar, mas eu ainda tava com 2 meses de acidente e nem tinha cadeira de rodas própria (tava com uma alugada). Em 2013 eu nao tinha equipamento nenhum de esporte. E em 2014, ano que esses mesmos e outros amigos de corrida me deram a handbike, eu não pude estar la com eles.

Pois é! Depois da minha teimosia na Pampulha (tive que ouvir piada de uns 2 ou 3 “‘mudaram o regulamento por sua causa”), a Yescom escreveu beeeem grande no regulamento da SS, e ficou lindo: “não é permitido o uso de handbikes”. Aliás, no regulamento eles falam das handbikes de forma muito pejorativa!! (estou tentando ter esse trecho do regulamento, que não está mais disponível no site)

Então, ne! Na Maratona de Nova York (!!) e de Boston (!!) há a categoria handbike. Mas a Yescom não nos aceita. Assim, eu peço encarecidamente à Yescom que abra a categoria “handbike” em suas provas.

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Caso a Yescom não saiba, a maioria dos cadeirantes que usam cadeira de atletismo tem polio ou mielo, ou são amputados. É muuuuito difícil pra quem tem lesão medular se equilibrar naquela cadeira (eu estou tentando aprender. Mas é muito difícil). Além disso, a handbike básica custa mais barato que a cadeira de atletismo básica. Por esses motivos, há mais cadeirantes que utilizam a handbike.

Além de tudo,  o Prof. MSc Frederico Ribeiro, especialista em paradesporto, acrescenta “Outro ponto importante de ser ressaltado é que os atlletas com lesão medular possuem características específicas que dificultam a utilização da CR de atletismo como, por exemplo, espasticidades ou alterações articulares estruturadas.”

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Então, lanço aqui a Campanha Yescom + Cadeirantes, e não mais Yescom x Cadeirantes, que é o que tem acontecido. Por favor, pedirei novamente aos diretores da Yescom: Abram a categoria Handbike!  Sim, nós amamos as corridas! Sim, queremos participar! Por favor, sejam incentivadores do paradesporto ao invés de colocar empecilhos pra quem quer sair do sofá e praticar uma atividade física, e estar ali, com outros tantos atletas que tem o mesmo objetivo que o nosso: saúde e qualidade de vida!!!

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03
dez

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Copa Brasil de Paraciclismo e Campanha #saidosofa

Gente, demorei pra escrever porque minha viagem de volta foi muito desgastante fisicamente. Mas cá estou, pra contar tudo de maravilhoso que ocorreu durante esse final de semana.

Tudo começou quando eu ganhei a handbike, em junho (se você quer saber como foi, leia aqui http://daninobile.wordpress.com/2014/06/02/1-fim-de-semana-1-monte-de-presentes/), os cadeirantes do paraciclismo começaram a me mandar mensagens, me convidando para conhecer esse esporte. Mas, eu amo a corrida de rua, principalmente as meias maratonas (novidaaaaaaaade!!! dessa ninguém sabia) e eu só pensava nisso. Não queria saber de outro esporte. Em outubro, quando fiz minha inscrição pra Adidas Boost Endless, no RJ, meu amigo paraciclista Dado Camara, disse que ao invés de ir pra essa prova, eu devia ir pra Curitiba, na Copa Brasil de Paraciclismo, pois isso seria melhor pro meu futuro no esporte. Mas eu já estava com tudo pronto e a caminho do Rio.

Na volta, um colega de Taubaté começou a fazer a lavagem cerebral em mim!hahahaha  O Eduardo fez que fez, me convencendo a todo custo, com uma ajudinha do Fred Carvalho e do Dado, pra que eu fosse pra Rio das Ostras. Mas, eu tinha acabado de chegar da Golden Four Brasília. Eu não tinha um centavo de peso (que vale 5x menos que o real)  pra fazer essa viagem. Então, resolvi postar no facebook, perguntando se alguém sabia de algum empresário que gostaria de me patrocinar nessa prova. Na mesma hora, duas amigas me enviaram a mesma mensagem: faça uma vaquinha on line! Pensei, repensei e montei a vaquinha. Ao ver o link, alguns amigos começaram a compartilhar e outros a contribuir com o que podiam, pra me ajudar a ir. A união faz a força e eu já estava achando que iria conseguir ir mesmo! Então, o Eduardo me deu as instruções pra me Federar e me inscreveu pela Equipe de Ciclismo de Taubaté.

Ao ver a vaquinha on line, um empresário resolveu me patrocinar nessa prova. E entrou em contato com outro. Essas empresas são a HVex e Pando. E eu não tenho como agradecer por isso!! Uma amiga, a Mônica Santiago, também resolveu me ajudar com as passagens. Minha gratidão a eles é infinita, pois me possibilitaram ir pra la, arcando com alguns custos que não seriam cobertos pela Federação e pelo Comitê. Aí, vi uma luz no fim do túnel. Vi que, além de participar da minha primeira prova de Paraciclismo, ainda iria sobrar dinheiro pra comprar as passagens pra ir pra Volta da Pampulha, em BH, no dia 7 de dezembro (e agora, também vou pra Taubaté, em outra prova de Paraciclismo, dia 14 de dezembro, com  o mesmo dinheiro. Sim, gente, eu sou econômica! Segurei as pontas e o dinheiro vai dar!!! Obrigada a todos!!)

Totalmente sem ideia do que iria acontecer e de quantos km eu teria que correr em 2 dias de provas, pois ainda não tinha minha classificação funcional, meus treinadores da Fun Sports mudaram totalmente meu treino, pra que eu pudesse rodar um pouco mais na hand, em 2 semanas.  Sofrimento foi fazer 1h30 de rolo, na quarta, véspera da minha viagem. (O rolo é necessário e imprescindível na minha vida. Mas ainda não aprendi a amá-lo! Vocês já sabem disso também). Meus pais vieram embalar a hand pra mim. E na quinta, na cara e na coragem, sem saber o que me esperava, parti pro RJ.

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Chegando no aeroporto, o João, da Federação de Ciclismo do Estado do RJ, já estava me esperando. Ele me levaria pra Niterói, onde eu ficaria no alojamento da Federação, gentilmente cedido aos atletas de outros estados, esperando ir pra Rio das Ostras na sexta bem cedo. Como o carro não tinha som, eu e o João passamos um bom tempo rindo, falando do Rio, das provas, do esporte. Chegando lá, fui recebida com muito carinho pelo Claudio e pela Sarita.

Pensei que ia dormir cedo, mas… no no no (cantem no ritmo da Amy). Meia noite chegaram mais atletas. E minha noite de sono virou uma noite de muito papo alegre até 3h da manhã, quando eu, delicadamente, com meu jeito Fiona de ser, falei pra todo mundo dormir. 5h da manhã chegou o caminhão pra levar as hands e nossas cadeiras de rodas. 7h da manhã foi o fim do semi-sono. Café da manhã e partimos pra Rio das Ostras. Eu brinquei de bater a cabeça no vidro a viagem inteira, dormindo e acordando. Espero não ter dormido de boca aberta, nem babado.

Não tenho a menor ideia de quanto tempo levamos. Acho que umas 2h30 a 3h. Eu acordei já na entrada de Rio das Ostras. Vou resumir essa parte da minha chegada, senão vou levar uns 3 parágrafos contando até o momento que eu, finalmente, entrei no quarto. Válido é dizer que, enquanto eu esperava “me acharem”, porque a Equipe de Taubaté estava num hotel e eu no outro, eu encontrei a Jady (que desde que nos conhecemos em 2013, me chama pro Paraciclismo) e o Ulisses. E, em uns 30 minutos de conversa, pude aprender muita coisa sobre handbike, com essas duas feras.

No caminho do almoço, fui parada por um moço. Era o Guto, técnico da equipe de Taubaté. Ainda não tínhamos feito contato, pois ele estava viajando com atletas de Taubaté de outras modalidades paradesportivas. Após o almoço, ele ficou comigo, esperando minha vez de passar pela classificação funcional.  Enquanto aguardávamos, o Guto me explicou muitas coisas importantes sobre o esporte profissional, como funciona a distribuição de vagas das modalidades e classes, dentro de Campeonatos Mundiais, Paralimpíadas e Parapan. Nada disso eu sabia. A conversa foi super esclarecedora.

Entrei pra ser avaliada e fui classificada como H2. (Se você quiser entender melhor como isso funciona, entre nesse link http://www.cbc.esp.br/default/admin/arquivos/Para-ciclismo%20-%20Artigo%20Classifica%C3%A7%C3%A3o%20Funcional.pdf ). Na saída, encontrei o Mauro, meu amigo de SP, que também estava estreando no Paraciclismo e ia fazer sua classificação. Ele, o Leandro,  amigo do Mauro, A Jady e o Erick, irmão dela, foram grandes parceiros nessa viagem.

Após confraternizar com todos os atletas e técnicos no jantar, fui milagrosamente deixar tudo pronto para o dia seguinte.

1512307_10205565924967186_3153541964552178363_nNo sábado, foi a prova de estrada. Na classe H2, eu teria que dar 9 voltas no percurso, totalizando 19km. Porém, a regra é clara! Quando o primeiro atleta passa pela linha de chegada, os demais atletas daquela classe, sejam homens ou mulheres, ja param de correr. E eu, essa franga com whey, toda atrapalhada com a novidade, vendo a galera das classes H3, H4 e H5 pegando vácuo, olhando pra tentar aprender, toda destrambelhada com o câmbio desregulado e toda tartaruga…não consegui ser rápida o  bastante pra acompanhar os meninos e completar as 9 voltas. Fiquei devendo umas voltinhas.Tenho que treinar mais!

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Durante a prova, aprendi muito! Observava os outros atletas e seu posicionamento na hand (tudo bem que a deles é mais leve que a minha…), a Jady emparelhou comigo e me deu várias dicas. Ela até tentou me ensinar a pegar vácuo, mas eu não consegui acompanhá-la nas duas primeiras pedaladas!! (eu = franga!). Os meninos, até seus técnicos, me gritavam na primeira volta, pra eu mudar as marchas. E o Guto, posicionado estrategicamente em uma das curvas, também me gritava cada vez que eu passava, pra fazer isso ou aquilo, dessa ou daquela maneira. Na curva oposta à que ele estava, eu quase capotei uma hora (igualzinho aconteceu em Brasília) e também eu e Fred quase trombamos, nessa mesma curva, voltas depois. É muita adrenalina! uhuuuu E eu saí linda, maravilhosa, com a marca de sol da blusa no braço hahahaha

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Eu vi que não entendo nada de ciclismo e de bicicleta! Mas nunca é tarde pra aprender! IMG-20141130-WA0009Eu acabei aquela prova extremamente feliz! Claro, com toda a endorfina liberada pelo exercício, não poderia ser diferente. E ainda saí com minha primeira medalha de ouro no Paraciclismo! Não fiz na frente de ninguém, mas chorei sozinha depois, enquanto tomava banho. O treino é de menininho, mas o coração é de menininha mole com TPM. Passou um filme na minha cabeça. De tudo que aconteceu do acidente até agora e tudo que eu já conquistei, sempre apoiada e amparada pela família, pelos amigos, e até por gente que nunca me viu, mas colaborou pra eu ter chegado até ali.

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Depois da premiação, do banho, do almoço, e de um pouco de descanso, o Guto foi regular a minha bike. Eu observei, sei onde mexe, mas obviamente, não sei fazer! E no dia seguinte, descobri que depois que eu fui dormir, ele ainda regulou outras coisas, como o freio!rs  O resultado disso eu conto depois.

IMG-20141201-WA0024Domingo! Eu nunca tinha feito duas provas em dias consecutivos. Na minha concepção de olhar o céu, ia fazer sol! Mas como meteorologista, eu sou uma ótima cozinheira. Choveu! Ainda bem que eu fui de calça! Nesse dia, era a prova de contra relógio. A cada 1 minuto, larga um atleta. A gente só sabe o resultado depois que todo mundo terminar e e a organização revela quem deu a volta mais rápida em cada classe. Na minha, seriam 3 voltas. A todo vapor, o mais rápido que meu cansaço do dia anterior e da TPM no pico do Everest permitissem. E nesse dia, eu estava cheia de espasmos nas pernas.

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Fazemos uma fila, na ordem que a Federação determina, e esperamos nossa vez de largar. Já começou a chuviscar aí. Mas na hora que eu comecei a correr, a chuva apertou! E eu uso lente de contato. Apesar de estar de óculos de sol e ele proteger um pouco os olhos da chuva, a água entrava por todos os lados e minhas lentes começaram a boiar nos olhos. Eu tinha medo de piscar e elas saírem. Cheguei a dar umas pedaladas de olhos fechados. Eu não sabia o que era pior. Eu só sentia aquele monte de água na roupa e no rosto. As únicas coisas que eu queria eram: a lente não pular pra dar uma nadadinha no asfalto e não sentir dor neuropática por causa do frio.

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Como o Guto regulou a minha handbike, a minha velocidade média aumentou tanto do sábado pro domingo, que quase dobrou! Maaaas, comparada à Jady, que é H3, ou aos meninos H2, ainda continuo uma franga com whey! Eu não tinha muitos parâmetros, pois como a largada é individual, você realmente não sabe quem é o mais rápido. Eu mirava alguns meninos da H1, que largaram antes de mim, e tentava ultrapassá-los, ou pelo menos alcança-los.

Continuou chovendo muito depois que eu terminei a prova. Só parou um tempão depois. Mas ainda tinha atletas na pista. E depois que terminasse a prova de Handcycle, ainda tinha o pessoal da Tandem (deficientes visuais e seus guias) e o pessoal da classe C, que pedalam bikes convencionais, mas que tem algum tipo de deficiência. No começo, eu estava bem. Tirei a blusinha de ciclismo que estava 1425506_909842549026432_5598528202990616210_nensopada, e coloquei um casaquinho. Mas a calça e o tênis continuaram ensopados… E eu fui gelando, gelando…1hora depois eu não estava aguentando de dor. Voamos pro hotel onde parte dos atletas estava hospedada (não o que eu estava), tomei um banho quente num quarto emprestado, peguei roupas emprestadas (dos meninos! Imaginem como eu estava Diva) e voltamos correndo pra tentar pegar minha medalha e ainda ver os outros atletas serem premiados. Cheguei nos 47 do segundo tempo. Mas peguei minha segunda medalha de ouro no Paraciclismo.

Esse final de semana foi de muito aprendizado e muito esclarecedor pra mim! Resolvi que representarei Taubaté em 2015, não só no paraciclismo, mas em outras modalidades esportivas. Não vou parar com as meias maratonas, porque corrida é minha maior paixão! Mas vou ter que conciliar umas 5 ou 6 que quero fazer, com as outras modalidades esportivas mais específicas para cadeirantes, inclusive o Paraciclismo.

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Depois da prova, eu e a Jady decidimos iniciar uma Campanha pra trazer mais meninas pra esse esporte tão gostoso! Chamamos a Campanha de #saidosofa . Temos vagas pra meninas tetras (por favor, venham!!) e paras, em todas as classes. Não vou dizer que vamos encher o paraciclismo de rosa, porque eu gosto é de azul! Mas vamos dar um colorido especial pra esse esporte predominantemente masculino. Gatinhas de rodas, seja qual for a sua lesão, você pode pedalar com a gente. Se você procura um esporte, encontrou! Eu e a Jady fizemos posts nos nossos facebooks e fan pages, nos colocando a disposição para quaisquer informações. Nossos técnicos, Guto e Thiago, também estão à disposição.  Também queremos incentivar os meninos, claro! Mas o nosso foco agora, é trazer meninas pro ciclismo. Se você nunca experimentou uma handbike, fale com a gente, pra dar uma voltinha e ver se você gosta! E se você, cadeirudo, tem uma amiga cadeiruda que ta meio paradinha em casa, manda ela conversar com a gente! Estamos esperando vocês pra correr em 2015, meninas!! bjss

Ah..se você quer ver um pouqinho em vídeo, tem reportagem no G1 do RJ!!  http://globotv.globo.com/inter-tv-rj/rj-inter-tv-1a-edicao/v/rio-das-ostras-rj-recebe-copa-brasil-de-paraciclismo/3802421/

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Tenho 2 anos! Parabéns para mim!! o/

É hoje o diaaaaa, da alegriiii-i-aaaaaa! E a tristezaaaa, nem pode pensar em chegaaaar. Diga espelho meu, se há na avenida alguém mais feeeeliizz que eu! Diz aí! Diz aí!!!

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Sim, siiimmm, siiiiiiiiiiiiiiiimmmmm!!!! Hoje eu completei 2 anos de vida! 2 anos de lesão, 2 anos de acidente, de vida nova, de cadeira de rodas. Sim, eu comemoro! Eu entrei no liquidificar e saí, viva, inteira e pronta pra curtir a vida adoidado. Sabe aquele ditado besta “Deus disse: desce e arrasa”? Então, no meu caso, Deus disse “Sai desse monte de lata retorcida e vai ser feliz, minha filha!”

10325410_791961860814502_2073472362398210166_nEu comemoro sim! E fico muito brava e indignada quando vejo cadeirantes todas/todos tristes, cheios de  lamúrias e lamentos “ai, que droga, hoje completo tanto tempo de lesão”.  Tá louca minha filha? Preferia ter morrido? Preferia causar mais dor à sua família? Preferia estar pior do que você está? Eu não preferia! Eu to bem, obrigada!! É…não to ótima. Estarei ótima quando puder voltar a correr e dançar. Por enquanto, eu to bem, obrigada!

Pra quem não me acompanha desde o começo, o que mudou na minha vida do dia 22 de outubro de 2012 pro dia 22 de outubro de 2014? Tudo! E nada!

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Em 2012, eu era professora. Apesar de morrer de saudade dos meus alunos, hoje não sou mais.  Apesar de ter lesão alta e ser considerada tetraplégica (não é só a questão de movimentação. A tetraplegia envolve também outras demandas, como dores agudas, perda da sensação de frio e calor, ausência permanente da capacidade de transpiração, espasmos, queda de pressão e tudo isso eu tenho de sobra. Minhas pernas esfriam e não esquentam mais, a ponto de eu sentir dor neuropática, outro demanda da tetraplegia) eu recuperei um pouco dos movimentos das mãos. Mas, mesmo com letra feia, não consigo escrever mais que duas linhas. Tenho espasmos nos dedos e a caneta cai da minha mão. No final da primeira linha já estou tremendo.

Acabei me apegando fortemente a esporte, tanto pra me reabilitar quanto pra buscar uma nova profissão. Ainda não sou profissional. Mas, como em qualquer profissão, que você precisa estudar, se empenhar,  se especializar, tentar e tentar, procurar um emprego, começar de baixo e ir devagarzinho subindo os degraus, eu estou tentando. Comecei do zero. Do nada! Estou tentando, estudando, começando de baixo, devagarzinho, tentando subir os degraus.

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Passei muitos percalços no esporte, tentei daqui, tentei dali…Mas agora, graças ao presente dos meus amigos – a handbike – eu to fazendo o que eu queria e mais amo: correr. E estou tentando trilhar um caminho novo. Sozinha está difícil, de vez em quando eu levo uns sustos, mas prefiro esses sustos do que não fazer esporte nenhum!

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Meu equilíbrio de tronco não é aquelas belezas, mas já melhorou muito, com relação ao que era no começo! Ainda tenho o corpo todo bagunçado de temperaturas. Tem dias que coloco  a mão em mim e canto a “Dança da manivela”, dizendo que aqui ta quente, aqui ta frio, muito quente, ta frio. Tem dias que to com calor no tronco e pescoço e dor neuropática porque as pernas estão geladas (como por exemplo, agora!).

Mas por dentro sou a mesma pessoa de antes, que ri sempre, que faz piadas idiotas, que gosta de estar rodeada de amigos, que adora ouvir música e berrar a letra a plenos pulIMG-20140915-WA0077mões, que ama esportes, que ama viajar,  que ama a vida!

Me considero feliz e vivo muito mais intensamente agora do que antes. Viajo mais, passeio mais, dou menos valor ao dinheiro e mais às experiências vividas, dou menos valor à aparência física e mais à saúde. Conheci muito mais gente, muitas pessoas legais que me ensinaram muito.

dani1Ah, eu não deixei a vaidade de lado nem no hospital! E preciso agradecer minhas amigas que me supriam com maquiagem, shampoos…rsrs Eu sempre me maquiava, até pra ficar em casa. Hoje continuo com uma das minhas marcas registradas: lápis preto nos olhos.

No começo manter a vaidade foi bem difícil. Devido à anestesia da cirurgia e muitas medicações, perdi quase 80% do cabelo e minha pele ficou lotada de espinhas.
Agora, meu cabelo está crescendo. Os fios novos estão quase nos ombros. Mas misturados com os fios antigos, meu cabelo ainda tá estranho rsrs Mas nem por isso eu deixo de arrumá-lo pra sair. Passei milhões de cremes nas espinhas, fiz algumas sessões com uma amiga especialista em laser e Led, e agora meu rosto está mais limpo.

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Meu corpo é outro. Minhas pernas grossas e musculosas já não são as mesmas faz tempo. E agora, além de finas, uma é mais fina que a outra.Minha barriga sarada foi trocada pela famosa “barriga de tetra (tetraplégica)”, flácida devido à falta de contração muscular, principalmente no abd inferior. Tive que aceitar meu corpo novo. Claro que sinto falta do corpo antigo, mas não adianta viver de passado. Tento me arrumar e ficar bonita o máximo que eu posso.
Gosto de estar sempre cheirosa. Continuo usando anti rugas, porque to com os pés e as rodinhas nos 30 (acabei de fazer 29). Não é porque estou na cadeira de rodas que vou ficar por aí desleixada.

Mas a vida quis reforçar, através da cadeira, que há coisas muito mais importantes que a aparência. Dou valor a estar bonita e arrumada. Mas claro que isso não é tudo!
Ser respeitada pelas minhas ideias, pelos meus ideais, ser vista como mulher antes de ser vista como cadeirante, alguém parar pra ouvir o que eu penso antes de me olhar e me prejulgar, é muito mais importante!

IMG-20140216-WA0002Depois que vc vê a morte de perto, passa a encarar a vida de uma outra forma. Dá mais valor à certas coisas e menos à outras. Pensei em tudo que queria ter dito e não disse, em tudo que teria ter feito e não fiz. E agora, eu tento me empenhar mais em viver.

485462_886413038036050_5727372151154729224_nCom certeza meus valores mudaram. Eu simplesmente vejo a vida de uma outra forma. Vi a morte de perto e Deus me deu outra chance. Dou mais valor aos meus pais (mesmo que eu não demonstre tanto pra eles). Dou mais valor aos meus amigos. E tento estar com eles sempre que posso. Dou mais valor ao amor e não tenho vergonha de demonstrar. Dou mais valor às pequenas coisas, aos momentos. A gente nunca sabe se aquela vai ser a última vez que vc ta fazendo aquilo, que vc ta naquele lugar, ou que vc ta com aquela pessoa. Então, eu procuro viver intensamente cada momento da minha vida.Eu viajo mais, passeio mais e faço menos contas hahahaha  Posso ficar dura. Mas dinheiro nenhum vale mais que uma boa lembrança. E eu to cheia de lembranças boas.

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Não sou uma pessoa perfeita! Ainda tô há mil anos luz disso! Mas tento ser uma pessoa melhor do que eu era na época do acidente.20140907_111440

Tirei um milhão de lições. Mas acho que as principais são que a vida é curta demais pra gente ter uma vida chata. Que sobreviver é muito chato.

Que vc trabalhar e voltar pra casa e ter uma vida vazia só por dinheiro não vale a pena.
Tem gente que tem um relacionamento e só ta com a pessoa de corpo presente. Chega do trabalho, deita na cama e dorme. Não faz nada junto, não passa tempo de qualidade, não para pra beber uma taça de vinho e conversar, ou pra dividir uma panela de brigadeiro sentados na cama enquanto assistem um filme.

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Tem gente que só dá valor pros avós depois que os perdem.
Tem gente que tem filho, mas não cria o filho, não brinca junto, não se diverte junto, não sai pra andar de bicicleta, não lê uma história pra criança, não cria lembranças com a criança.

10678686_879401312070556_2912020854838005937_nTem gente que não cria lembranças pra si mesmo. Eu quero uma vida cheinha de lembranças, de risadas, de bons momentos, eu quero uma vida colcha de retalhos, que a gente constrói aos poucos, vai costurando os pedacinhos, fura o dedo, a linha acaba, a gente pega outra de outra cor, para pra cortar mais retalhos, vai fazendo um pouquinho por dia, um pedacinho de cada vez.

 

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22
maio

2

Kettlebell

Você já viveu uma paixão platônica? Olhava de longe, queria muito…E quando se concretizou, virou amor?

10308070_797548020255886_4346001554342410403_nPois é, foi assim comigo e com o Kettlebell. O vi primeiro na internet, em fotos de amigos e reportagens sobre esporte. Então chegou a modalidade na academia e eu, sonhando com aquelas alças nos pesos coloridos. Passava a maior vontade de fazer. Mas seria impossível fazer a aula, que envolve muitos agachamentos. Agachamentos que, obviamente, estão fora de questão no momento! E eu ficava assim, nessa paixão platônica.

Pra quem não conhece, o Kettlebell é uma peça de ferro fundido com uma alça de mesmo material , hoje, utilizado especificamente como um acessório de treinamento. Com exercícios balísticos e de alta complexidade, deve ter seu uso orientado por profissional capacitado. Seu treinamento progressivo possibilita gasto calórico elevado, estabilidade articular, melhora da coordenação, postura, flexibilidade, simetria e resistência a lesões, entre outros. O Kettlebell também é um esporte, com praticantes em vários países e competições mundiais.

No final de semana, fui convidada por um grande amigo a participar da Convenção Brasil de saúde, esportes e fitness, em Porto Alegre. Lá tenho outros 2 grandes amigos, a Virna Canova e o Ricardo Pavani, que são especialistas em kettlebell. Marcamos um treino entre os cursos da Convenção, e minha esperança era conhecer a modalidade. Mas, melhor que isso, eles me levaram ao curso que ministrariam, pra ensinar os profissionais da Educação Física. Fui como convidada  deles, doidinha pra colocar a mão na massa, ou melhor, nos pesos!

10325326_797872733556748_6122424073360696080_nE quando eu toquei neles, surgiu o amor!rs   Ricardo e Virna já trabalham com cadeirantes, na preparação física da equipe de esgrima de POA. Eles sabiam o que estavam fazendo! Primeiro, os professores ensinaram um exercício bem fácil, até pra nós, cadeirantes, e que auxilia no nosso controle de tronco. Segurando o peso com as duas mãos (como eu estou na foto), giramos o peso pra baixo e pra depois pra cima, num movimento de semi-círculo. (de ombro a ombro) É bem tranquilo de fazer e eu senti pegar muuuito as laterais do tronco. Depois, pra quem já treinou isso bastante ou já tem um pouco de controle, dá pra segurar o peso com as duas  mãos e girar em torno da cabeça. (eu usei um peso de 6kg nessas primeiras tentativas).

10169411_797870763556945_8073822024035743190_nDepois disso, começou a parte mais legal e desafiadora.E eu nem gosto de coisa difícil, né?!rs Eu estava tentando fazer o snatch, mas a cadeira de rodas estava me limitando demais. Eu precisava de espaço. Sentei numa cadeira e normal e comecei. Todos os alunos do curso fazendo e eu também.

 

 

 

Então, partiríamos para o Jerk. Esse exigiu muita força. Do lado direito, depois de tentar e tentar sem parar, eu consegui! Do lado esquerdo, eu não tive equilíbrio suficiente. Fiquei no meio do caminho. Preciso tentar mais e fortalecer meu core.

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Eu estava super contente e satisfeita, com tanta endorfina correndo pelo corpo e saindo pelos poros, que até senti calor (numa noite fria de Porto Alegre). Fui tirando vários casacos que eu estava usando. Mas, eu ainda queria muito uma coisa: fazer o swing! Era sonho, que precisava ser realizado. Então, com o aval da Virna, eu fui tentando, tentando…até conseguir! Vibração total! Aquela sensação maravilhosa de, finalmente, ter feito algo que eu queria muito!

O vídeo dos 3 movimentos em sequência está aqui nesse link do youtube. (oremos pra funcionar dessa vez! é só copiar o link e colar no navegador)

https://www.youtube.com/watch?v=q1ncMY86ay0&feature=youtu.be

Acabei fazendo amizade com um monte de gente do curso, que gostou muito dos meus resultados (foi a Ana, uma amiga que fiz lá, quem filmou e tirou as fotos pra mim). Fiquei amiga do pessoal do staff e até provei chimarrão (aprovadíssimo!).

Eu amei o kettlebell de paixão apaixonada e pretendo continuar praticando aqui em Ribeirão. Na academia só tem de 8kg pra cima. Ou eu fico mais forte e com mais equilíbrio, ou eu compro um de 6kg pra mim. Porque, sabem aquela coisa que você sente, que te faz bem, com aquela sensação de dever cumprido, de “sim, eu posso”? Foi o que o Kettle me proporcionou. Eu gosto de ser desafiada, de sair da mesmice. E esse é um grande desafio pro meu corpinho tortinho pra esquerda.

No início do curso, Ricardo me apresentou aos alunos como convidada. No final, após agradecerem aos alunos, perguntaram se eu queria dizer algo. Eu estava manteigona e não quis. Fiquei com os zóim cheinhos d’água e preferi agradecer lá fora, aos dois, por me convidarem a participar do curso, por acreditarem no meu potencial e por me ajudarem a realizar um sonho. Sonho bobo. Sonho de atleta. Mas sonho. E sonho realizado é melhor ainda!

 

08
maio

6

Wings for Life World Run

Gente, imagino que vocês estivessem loucos pra saber os detalhes da corrida e eu fiquei enrolando pra escrever! Na verdade, é tão difícil sintetizar tudo, mas eu vou tentar!

Primeiro, vou explicar o que é a Wings For Life World Run. Essa é uma corrida mundial, quando atletas de 34 países correm simultaneamente ao redor do mundo. Ela não tem linha de chegada. Na verdade, a linha de chegada persegue você (através de um carro que é o “tapete” que bem conhecemos). O percurso tem 100km, e você corre até esse carro ( que saiu 30min após a largada e anda a 30km/h)  te alcançar. Depois disso, a organização te leva até a arena, onde há as tendas de assessorias, banheiros, lanche, massagem. 100% de tudo o que foi gerado no evento vai ser revertido para a Fundação Wings for Life, que financia a pesquisa para a cura das lesões de medula. Esse foi o primeiro ano da corrida no Brasil e aconteceu em Florianópolis.

No sábado, como é de costume em qualquer corrida, fomos retirar os kits. O local da arena era lindo e quando chegamos, não havia fila.

20140503_145856Nessa viagem, fomos em 3 amigos: Fernanda Balster, Paulo Cesar e eu. Depois de pegarmos nossas sacolinhas e tiramos algumas fotos, um cadeirante veio nos chamar pra  “trocarmos uma ideia sobre a prova”. Quem era? Jaciel Paulino, tetracampeão da Sao Silvestre. Ele precisava trocar ideia conosco, reles cadeirantes mortais? Não! Ele é o melhor! Mas em toda sua humildade, veio nos convidar. Fizemos um grupinho, conversamos sobre a prova, demos risada.Depois, o trio parada dura (Fer, Paulo e eu) fomos almojantar, porque ainda não tinha dado tempo de fazer isso.

20140504_065953Nem preciso falar que eu não dormi, né?! Adrenalina pura, doida pra amanhecer o dia! Amanheceu e…Vento! E todo mundo sabe que vento e Danielle são duas coisas inversamente proporcionais. Antes de começar a prova eu parecia um urubuzão, toda de preto, cheia de blusas e casacos. Foi dada a largada do pessoal que anda e nós tínhamos que esperar 1hora pela largada dos cadeirudos. Aí, foi só festa! Fotos, risadas, zoeira, quem não se conhecia foi virando amigo…foi uma delícia! E eu já estava sem blusa de frio, no vento, arrepiando os pelos dos braços e com o meu bichinho do “ham ham”.

Explicaram que, no nosso caso, o carro não nos perseguiria. Nós iríamos atrás dele. Assim que o primeiro cadeirudo alcançasse o carro, esse parava, todos nós daríamos a volta nele e voltaríamos pra largada (nossa linha de chegada). Todo mundo gritando “corre Jaciel”, pra ele parar o carro e nós não precisarmos morrer em 20km ou mais!

10170957_619183888173207_3797536220335781796_nPediram pra nos posicionarmos em frente à largada! Que sensação maravilhosa! Veio a busina e todos nós saímos juntos! Depois de passarmos pelos fotógrafos, já era. Jaciel distanciou de todo mundo, na caça ao carro. Logo, Fernando Fernandes, que também usava uma cadeira esportiva de alto rendimento, abriu. Paulo e mais um moço também abriram. O resto da galera foi indo num ritmo meio parecido.

20140504_091617Vou confessar uma coisa feia! Mas engraçada. As meninas que me perdoem, por favor! Mas dei uma olhada nos braços delas e disse pra Fer : “Não sei se elas treinam. Elas que não vão chegar na minha frente.” Se a Aline Rocha tivesse ido, eu nem iria me esforçar tanto. Mas já que ela não foi…rs

O percurso não foi muito fácil, pois o asfalto era bem em U e não tínhamos onde andar direito pra cadeira não bater no meio fio. Era aquele sufoco de tocar a cadeira com uma mão e segurá-la com a outra. Nem no meio da rua dava pra acelerar muito. A maioria da galera passou a prova inteira costurando a rua, procurando os locais com menos desnível.

O mais legal era, quando eu passava pelos meninos, ouvir: “Ta forte, hein menina” ou “me espera”.  Sinal de que os treinos dão mesmo resultado! Musculação, tocar a cadeira na rua, tudo isso é essencial. Fui mesmo passando por alguns meninos. As meninas, eu nem via mais…

Quando eu estava feliz e contente, adivinhem! Lá vem o Jaciel voltando! Mas já??

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Um pouco atrás dele veio o Fernando. E mais atrás um pouco, o Paulo, que era o terceiro colocado na prova e o primeiro que estava correndo com a cadeira do dia a dia.

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Eu passei um pouco de frio na ida. E dei uma fervida na volta, porque não transpiro. E essa de “toca a cadeira com uma mão e segura com a outra” destrói os braços. Lembrei que depois da Meia Maratona da Corpore, eu não conseguia levantar os braços nem pra lavar os cabelos.

A Fer foi comigo a prova inteira, conversando, tirando fotos, pegando água…

Aí, quando eu menos esperava, lá estava a linha de chegada. Mesmo com o desnível do asfalto, tentei dar um sprint final. Só tentei! Aí, passei pela faixa, todo mundo gritou e a moça falou no microfone que eu tinha ficado em primeiro lugar. Desci do salto, gritei, coloquei a mãozinha no joelho e fiz um passinho de funk (não me julguem).

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Cada um que chegava era a maior festa! Depois veio a premiação e as fotos finais. E aquela sensação de dever cumprido! De ter ido, de ter participado dessa causa tão importante pra nós, de ter dado meu máximo, de ficar feliz em ver cada um, uns que nunca tinham corrido, ali se superando.

Fomos pra arena e eu segurando meu troféuzinho como se fosse ouro. Na verdade, pra todos nós, lesados medulares, aqueles troféus (o meu, o do Jaciel, do César Miguel e da Ana Lídia) valem ouro mesmo. São o primeiro passo que o Brasil deu, no apoio à luta pela cura da lesão medular.(Brasil não é o governo, viu gente! São as empresas que ajudaram, os atletas envolvidos na organização e participação, etc)

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Meu troféu não é só meu. É de todos nós, cadeirantes, que todo dia nos esforçamos pra melhorar, nem que seja um pouquinho, em todos os aspectos da nossa vida e que buscamos, incansavelmente, a cura. Trazer essa prova pro Brasil é trazer essas pesquisas pra mais perto de nós.

Meu apelo, pra variar, é que todos os cadeirantes pratiquem uma atividade física e agreguem  saúde e qualidade de vida nos seus dias. E peço que, ano que vem, estejam correndo conosco (vocês tem um ano pra se preparar). Peço também pra que mais atletas andantes participem dessa prova tão importante pra nós.

Porque não vamos parar de correr, até encontrar a cura!

 

PS -Todas as fotos do evento vocês encontrarão já já na fan page do Blog, no Facebook. É só digitar “Blog Dani Nobile” na busca.

14
abr

50

Minha Primeira e Sétima Meia Maratona

Essa semana eu to cheia de coisas pra contar pra vocês! Mas a primeira tinha que ser essa!

Todo mundo sabe que eu amo correr, que ta no meu sangue, que ta no meu cérebro, que ta no meu coração, que eu respiro (e gostaria de transpirar também) isso. Mas, não posso correr mais do jeito que eu sempre gostei e gosto! Porém, nem tudo está perdido!

Fui pra São Paulo essa semana, pra participar da Reatech. Eis que sexta à noite, minha mãe japa, Marina Kuriki, me manda um whatsapp assim: “Vai ter a Meia da Corpore domingo. Você não quer ir ver o pessoal? Dá pra fazer os 5km de cadeira.”  A minha cadeira não passa nas portas do apt da Má. Ela acionou outro amigo nosso, o Michel Honda (que me ajuda e me apoia tanto!) e ele imediatamente disse que me hospedaria. Nossa! Que vontade de estar lá na corrida! Porém, no mesmo instante, lembrei que não podia ir com a minha cadeira. Depois de alguns acidentes, as organizações das provas não permitem mais cadeiras do dia a dia em provas. Apenas cadeiras de atletismo e handbikes são permitidas. Além, disso, eu não tinha nem roupa! Só tinha trazido uma legging preta (uniforme oficial das cadeirantes). Mas a Marina disse que ia me emprestar tudo! Camiseta, top, tênis, meia, tudo!

Caramba! Eu tinha 24horas pra conseguir uma handbike! Mandei um post desesperado no sábado de manhã, no facebook, tentando conseguir uma hand emprestada. Alguns amigos indicaram amigos, mas nada de eu conseguir uma. E eu estava na Reatech o dia todinho, caçando gente que poderia ter e que não usaria no domingo. A feira encerrava 19h e nada! Mas, eu tenho um amigo porreta, o Sidney Mayeda, que tem uma hand de passeio. É uma adaptação que ele prende na cadeira de rodas normal, mas ele usa uma esportiva (daquelas de basquete), que é mais leve. Tudo junto, pesa 21kg! Ele usa essa bike pra se exercitar no parque  e estava com ela na Reatech, incentivando a galera a se exercitar também. No mesmo momento que eu pedi, ele disse : “Claro Dani, pode levar.” Meus olhos encheram de lágrimas. Eu nem acreditava que eu ia conseguir! Bom, se eu consegui a hand, eu não ia correr os 5km. Eu ia pros 21km!

A Marina foi me buscar, colocou a hand do Sidão no carro, a minha cadeira, mala e cuia no carro dela, e partimos pra casa do Michel. Aí começou o problema número 1 – começou a cair o maior pé d’água do Brasil. Eu achei que a chuva fosse arrastar o carro na rua. Respira, chegamos no Michel. Jantamos (ele fez um yakissoba caseiro maraviwonderful e pediu pizza), rimos, conversamos. E a chuva não parava nunca mais. A Má foi embora e eu fui pra cama. Mas não conseguia dormir. Problema número 2 – eu estava mortinha de cansada e nada de pregar “uzói”! Mas fiquei orando, pedindo pra Deus (e pra todo mundo que me chamava no whatsapp eu também pedia pra orar) praquela chuva toda parar de chover até de manhã. Fiquei monitorando a chuva até 2h da madruga, agitada. Eu não dormia de jeito nenhum! Estava ansiosa pela prova! Dormi. O despertador tocou 4:40. Ou seja, não dormi nadica de nadéx! Mas, parou de chover! Problema 1 resolvido. Problema 2…deixa pra lá!

Com um olho aberto e outro fechando, abri a bolsa com as roupas da Marina. Coincidentemente, ela me emprestou a camiseta da Maratona de Revezamento Pão de Açucar de 2012. A última prova que eu tinha corrido em SP! E me trouxe um tênis Asics. Eu sempre quis testar um Asics pra ver se era mais confortável que o Mizuno (que eu usava pra correr). Agora estava com um Asics no pé, mas não sabia se era melhor pra correr. Nem saberia, por motivos óbvios! Me troquei, juntei as tralhas. Michel já tinha feito meu café e a Marina já estava lá me esperando. Partimos pra USP. Quando chegamos, meu coração já acelerou, de ver tanta gente ali, pra correr. Lembrei da última vez que estive ali pra uma largada, na Fila Night Run de 2009. E na última vez que passei por ali correndo, quando fiz os 25km na Maratona de SP em 2011.

O moço nos guiou para o local dos cadeirantes estacionarem. Só handbikes top de competição. Descemos do carro, a Má montou a hand do Sidão. Quando desci do carro, um senhor de aproximou, perguntando quantos km eu iria fazer. A Má disse que eram 21. Ele respondeu “Se é a primeira vez dela, e com essa bike, melhor ir pros 5km.” Mas ele não me conhece! Perguntei o nome dele, pois estava com a camiseta da Achilles. Era o senhor Rollo, com quem eu tento falar desde que a Dri, minha amiga corredora aqui de Ribeirão, me falou da Achilles. Ele lamentou não termos conseguido falar antes, me deu um cartão e ofereceu suporte durante a prova. Também me deu um número de peito, pois eu não tinha (ia usar o da Marina e ela ia correr de pipoca).

Partimos pra tenda e, começamos a ver os amigos. Que delícia estar ali, no meio dos amigos. Vi a Drika (cabeça), a Claudinha ( a “papa-pódios” rs), que eu só tinha visto em Maresias, na minha última prova “andando”.E vi mais um monte de gente legal, que eu só conhecia pelo face.

Fomos pra largada, pois a dos cadeirantes seria 15minutos antes. Notei que no km 13, passaríamos por ali. Pensei “Se eu estiver morrendo, eu paro no 13.” Mas isso não estava muito nos planos.  Seria só no caso de eu estar desmaiando, tendo um colapso, tendo disreflexia, ou morrendo mesmo.

1011796_780081265335895_6683714393625711_nLá estava eu, na largada com a galera da handbike. Eu estava morrendo de vergonha, pois eu era uma estranha no ninho. E também era a única com uma handbike de passeio.  E sem nenhum equipamento também! Mas tudo bem. Eu sabia que iria demorar muito mais pra completar a prova (estava com uma bike que pesava 21kg e eles com bikes que pesam menos de 14kg). Comentei com a Marina sobre isso e ela disse algo que me fez chorar: “O que importa é que você está aqui, no seu lugar! Aqui é seu lugar! E do nosso lado.” Sim, ali era meu lugar: numa corrida! E eu não estava ali pra competir, mas pra completar a prova.  A Claudia, mãe da Bia, uma querida,  se ofereceu pra me ajudar e disse que a turma dela, da Klabhia Running, me ajudaria também! Apareceram também voluntários da Corpore.

Largamos! A turma da handbike sumiu em 2 minutos! A Marina do meu lado, a Claudia e a Bia também, além da Laila e da família dela. Primeiro, a Má e o Roberto Itimura começaram a me ajudar, porque a hand era muito pesada! No segundo km, o pai da Laila engatou um guarda-chuvas atrás da minha cadeira, pra facilitar pra galera me dar uma força e não acabarem com as costas. Mas…ai meu bumbum! Tive que ficar a prova inteira indo um pouquinho pra cá e um pouquinho pra lá, com medo de que o guarda-chuvas fizesse pressão e abrisse uma escara.

No primeiro km, algumas pessoas começaram a gritar “vai” , “isso mesmo”. E eu toda distraída, conversando. Até que a Má e meus amigos começaram a responder. Aí eu saquei que aquilo era pra mim! Que bestinha! O povo deve ter achado que eu sou grossa, porque não respondi.

Bom, se eu contar tudo que aconteceu, km por km, vocês vão enjoar. Então, vou tentar resumir, gente! Lá pelo km 3 ou 4, eu acho, a Má foi descansar um pouco! Afinal, semana passada ela fez 42km de montanha, na Maratona do Fim do Mundo.

No km 5, eu pensei “bom, sem ajuda da galera, eu teria que parar aqui. Mas vambora! Não to sozinha. ”

No km 10, assim que passamos a placa, eu dei uma chorada. Mas ninguém viu! Ainda bem…10252114_540776776040302_1872685984668690283_nrs  Foi aqui também que começou meu maior problema na prova! Eu sabia que eu não conseguiria parar durante a prova pra ir ao banheiro. Então, eu estava regulando a água ao máximo, pra não sentir vontade de fazer xixi. Estava bebendo pouco mesmo! Tinha pontos de água que eu nem dava um golinho. Mas, todo km 10 numa meia maratona, vira meu km do mal! Quando eu corria, era aqui que meu joelho acordava e começava a doer. Mas, aqui, minha bexiga começou a dar sinais de que precisaria ser esvaziada. Além disso, eu não forço o joelho. Mas o trapézio! Corpo, você não me dá uma folga, hein?! Fala sério! Ta querendo me boicotar?

Fui controlando a água durante a prova. As pessoas que passavam, me davam muita força! Teve um moço (lindo maravilhoso), correndo com um amigo, que passou por mim lá pelo km 16 e disse “Quando estamos cansados e pensamos em desistir, a gente vê uma menina dessa e sente vergonha”. Não moço! Não sinta vergonha! Corra mais rápido, já que eu não consigo. As pessoas davam bom dia, batiam palma, elogiavam, conversavam um pouquinho. Foi muito legal! O staff de prova também sempre gritava! Isso dava um ânimo pros meus bíceps não desistirem!

Tomei meu gel (presente da Má, ja que eu caí de paraquedas na prova e não levei nada) no km11, com pouca água. A Má apareceu bem nessa hora. Tirou foto e revezou um pouquinho com o Pestana, na ajuda à minha pessoa. Parou no 13km pra descansar de novo, quando chegamos nas tendas. Nessa hora, o pessoal dos 5km e das tendas, gritava muito pra me incentivar. E meus dedos, não aguentavam mais segurar o guidão da bike! Eu tenho lesão alta e meus dedos são fracos. Eles começaram a tremer aqui, enquanto eu passava pela galera da handbike que já tinha terminado a prova. Perguntei pro Pestana quanto tempo tínhamos de prova. Fiz as contas. Se continuássemos nessa média de velocidade, eu acabaria minha primeira Meia na cadeira com o mesmo tempo da minha primeira Meia andando. Vai bracinho, vai bracinho!

No km 15, dei mais uma choradinha. Lembrei da minha primeira Meia, no Rio, quando eu passei debaixo dessa placa. Aliás, todas as minhas outras 6 meias maratonas, foram passando como um filme. E vários treinos também. E as dores nos joelhos, os sacos de gelo, os amigos, as medalhas, as tentativas de baixar o tempo. E agora, eu tinha é que terminar essa meia. Esse desafio. Aqui meus trapézios já estavam adormecidos. Meus bíceps também. Eu nem sentia mais dor. Só nos dedos (agora está difícil pra digitar).

10178001_431206043690481_7887651010500666323_nNas subidas da prova eu sofria. E o Pestana também, pra me empurrar. Nas descidas, eu tinha que frear muito, ou capotava. E capotamentos não me trazem muita sorte!rsrs  Melhor não!

No km 18, meu xixi do mal queria sair. Até pensei em fazer ali mesmo. Tantos corredores fazem no meio da prova. Mas eu iria molhar o forro da almofada. E da corrida, eu iria pra Reatech. Daria tempo de lavar o forro, mas ele não iria secar. Ainda mais num dia sem sol! Eu teria que segurar. Comecei a ter disreflexia, muitos espasmos por estar segurando o xixi. Queria tomar mais água, mas isso me daria mais vontade de fazer xixi. E as pontas dos meus dedos já estavam adormecidas de segurar o guidão. Mas se eu soltasse, seria tombo na certa!

Eu fui a prova inteira com o pessoal da Klabhia (às vezes eu dava uma adiantadinha, às vezes elas me passavam, às vezes íamos juntas) a prova inteira! E eu tenho muito a agradecer a esse time e grupo de amigos! Especialmente depois do km 18, quando eu já estava no pau da goiaba e eles ali do meu lado. – agora tem foto!!! – Klabhia

 

O Marcos Pestana foi meu anjo durante a prova inteira. Eu pedalei os 21km na bike de 21kg, mas ele me empurrou 90% do percurso! Sem ele, eu não teria conseguido! Ele é voluntário da Corpore. Algumas pessoas, também me empurraram, pra revezar com ele. Gente que eu nem conheço! E que sem eles eu não teria conseguido!

No km 19 apareceu a Má! Eu disse que estava com dor e passando mal por causa do xixi, mas que iria terminar, e ela comigo ali, me dando força. Vi a placa do km 20 e com ela, vários amigos que passaram por mim durante a prova e eu disse “Me espera na chegada”, mas como disse a Eliane Lilika “Viemos te buscar”. Ela levou o filho, a Ilzinha…Como é bom ter amigos, que foram aparecendo nesse final. E a placa do km 20 me deu uma força fora do normal! Só faltava 1!

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O Pestana falou “Vamos dar um sprint”. Nem sei de onde ele e eu tiramos forças! E meus amigos juntos com a gente. Foi quando a Lilika disse “Dani, olha o pórtico de chegada”. Eu vi! E eu fui! Quando faltavam alguns metros, já comecei a chorar!

10264933_640129632725966_6523103347251352394_nAs fotos da chegada não tem glamour, só umas caretas de choro sem fim. Eu nem acreditava que isso estava acontecendo! Eu só conseguia chorar e abraçar a Marina. Eu chorava muito! A ideia de participar da corrida foi dela! E quando eu falei de fazer os 21km, ela não tentou me dissuadir em nenhum momento. Pelo contrário. Cansada da maratona da montanha, ela só tentava encontrar alguém pra me ajudar. E apareceu o Pestana, que eu só abraçava e agradecia, porque eu chorava tanto que não conseguia falar.

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Quem falou foi minha bexiga! Atrás dos enfermeiros da chegada, a Má viu um banheiro. Desmontaram a hand.  A galera me carregou pra porta do banheiro químico, a Ma limpou e forrou o banheiro e eu…desabei! Pouca água, pouca reposição durante a prova, poucas horas de sono à noite e muita emoção = minha pressão caiu! Eu não desmaiei, mas foi por pouco! Eu parei na hora que percebi o trem feder. Aí eu bebi 200litros de água e isotônico.  E comia feito um dragão. O Pestana me deu mel, a marina uma barrinha de frutas. Eu disse que queria o torrone e alguém (foi uma amiga, eu tava bem pra lá de Bagdá. Não lembro quem foi) me deu um pequenininho. Um enfermeiro veio com uns aparelhos e disse que os batimentos e a saturação estavam boas, mas depois do banheiro, era pra me levar até ele. Sim gente, eu sou tão glamurosa, que tudo aconteceu na porta do banheiro químico, com o vaso todo forrado de papel! Um arraso! Melhorei e, ao contrário do que eu pensava (que de segurar tanto o xixi, eu ia demorar mil anos pra uretra e a bexiga pararem de contrair de espasmos), eu não demorei nem 5segundos.

Ali fora, já tinha vários amigos pra me cumprimentar. Saí do banheiro, o enfermeiro veio e eu disse que já estava bem. Todo mundo perguntou se eu precisava de algo e eu disse “Sim! Eu quero a minha medalha.” Todo mundo riu do ser quase tendo um treco e só pensar na medalha.

Mas, eu não tinha chip! Quando a moça da medalha perguntou, eu disse que perdi. O Pestana disse que dava a dele pra mim, mas a moça disse “de jeito nenhum!! Pode levar!” Moça gracinha! <3  Perguntei pro Pestana o tempo: fizemos 2 minutos abaixo na minha primeira Meia.

Lá fomos nós, tirar mil fotos com tantos amigos que apareceram, o José Munhoz, a Fernanda Balster, tanta gente! E com meus anjos Marina e Pestana! obrigada ao Sidão que m10171661_607948799296716_6976369982651109352_ne emprestou a bike e me permitiu realizar esse sonho! E aos poucos que contei que ia fazer essa maluquice, e que me apoiaram incondicionalmente! Obrigada a todos que me empurraram, quem gritou e me incentivou durante a prova!

 

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Quando as pessoas me perguntam do acidente e eu digo que corria, eu sempre falei que era Meia Maratonista. Agora não! Agora eu SOU, de novo, Meia Maratonista!

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