09
dez

13

Volta da Pampulha

Pra quem viu meu post no ig, sabe que tive problemas com a Yescom na hora da largada…Então vim aqui contar, em detalhes, como eu consegui correr essa prova deliciosa em BH!

Já comecei a encasquetar com a Yescom no ato da inscrição. Todas as organizações de corrida pedem laudo médico. E quando eu envio o laudo do Sarah, ninguém questiona nada. Mas, a Yescom questionou! Questionou a data! Queriam um laudo com a data desse ano. E também queriam um atestado médico, com os dizeres específicos de que eu estava apta a participar da Volta da Pampulha. É…não pediram dizendo que estou apta a praticar atividades físicas (porque eu enviei e eles também recusaram), mas um pra essa corrida especificamente. Acabou que troquei uns 285 emails com eles e, faltando 10 dias pra prova, finalmente consegui validar a minha inscrição.

Clipboard01A véspera da prova foi uma delícia deliciosa! Eu encontrei um monte de gente da minha equipe Fun Sports no mesmo voo que o meu e fizemos uma festa no aeroporto! Chegando em BH, tive toda a assistência do mundo do prof Adauto, da equipe Ultra Esportes. Ele me buscou no aeroporto e eu, pensando que ele ia me deixar no hotel, fui surpreendida com “Vamos buscar seu kit! Como você vai buscar depois?” . Chegando na retirada do kit, fui parada por uma repórter e, pra quem não viu, o link ta aqui :p (http://globotv.globo.com/rede-globo/mgtv-2a-edicao/t/edicoes/v/a-16a-volta-internacional-da-pampulha-sera-realizada-neste-domingo/3815128/ ). Depois o Adauto me deixou no hotel e levou a hand com ele, pra eu não ter aquele trabalhão de “como vou levar a hand pra corrida?” e correr os riscos que sempre acontecem (depois viram piada, mas na hora, dá desespero)!

À noite, pude rever amigos queridos e também trazer amigos do virtual do real. E comer um moooontão de macarrão com tempero mineiro, e com aquela desculpa linda de que é véspera de prova, então pode!

Tudo parecia perfeito, porque eu incrivelmente não perdi a hora. O hotel que a Fer pesquisou, pesquisou e achou pra mim, era MUITO perto da largada, mas pra chegar na área das tendas das assessorias, eu tinha que subir a ladeira do Pelourinho. Então, o Adauto de dispôs a ir até la e me empurrar na subida até a tenda, porque ele não iria correr (sim, eu sempre encontro anjos nas corridas. Esse, foi minha Paty que colocou na minha vida. Ela é minha amiga e atleta dele). Como o tempo tava meio fechado, e eu tive a experiência da calça molhada em Rio das Ostras, optei por ir de shorts na prova. Realmente, quando a gente saiu do hotel, antes das 7h da manhã, tava pingando. Minha hand já estava super a postos na tenda da equipe e eu fui super bem recebida por todos ali. Aí, o Adauto colocou a mão nos meus pneus e viu que estavam meio murchos. Enquanto ele caçava uma bomba pra enchê-los (acreditem, ele fez isso! E eu nem sou aluna dele!), o pessoal da equipe foi levando a hand pra mim, e descendo comigo até a largada. Apenas um comentário: como tem ladeira em BH! Gente, só sobe e desce! A única parte sem ladeira deve ser a Pampulha mesmo!rsrs

10850274_741023242658707_3511180155232444952_nNo caminho, encontramos a Paty e ela também foi comigo até a largada. O pessoal do staff foi super prestativo, abrindo caminho, abrindo as grades, pra gente chegar à largada com tranquilidade. Eu nem acreditava naquela maravilha, o Adauto enchendo meus pneus nos 45 do segundo tempo e eu chegando, com tudo pronto, já na hand, com 10 minutos de antecedência! Mas, como alegria de podre dura pouco, e de pobre aleijado dura menos ainda, quando eu encostei ao lado do Jaciel e do Carlos, toda feliz, alegre e contente, veio um senhor gordo, com uma roupa preta da Yescom e gritou, a plenos pulmões, pra quem quisesse ouvir: “Você está proibida de fazer essa prova”. Assim, na cara, sem nem perguntar o meu nome, sem nem dar bom dia. Ele começou  a gritar, me mandando sair dali, dizendo que eu não iria  correr.

Gente, pra quem me conhece das antigas, sabe que minha paciência aumentou e melhorou uns 900%. Porém, nessa hora, meu subiu um sangue! O sangue italiano subiu junto com o sangue espanhol! E eu gritei, sem nem pensar: “Vou sim!” E ele gritou de volta “Você está proibida de largar” e eu disse “Ah, é? E quem vai me impedir? O senhor?” . Gente, eu não vou transcrever o diálogo aqui, porque foi gritaria. O homem gritava comigo e nem ao menos me ouvia. Um grosso! E não é porque eu saí na tv, e blablabla, que eu tenho que ficar mentindo pra vocês e defendendo a Yescom, não! O argumento dele é que eu estava numa bicicleta e que no regulamento, bicicletas não eram permitidas. E também não gostei quando o cadeirante ao meu lado, reinterou que aquilo era uma bicicleta. Ao invés de ficar quieto, parece que me queria fora da prova..mas eu não quis brigar com ele. Afinal, todo mundo era malacabado… O homem gritava que eu omiti, no ato da inscrição, que correria de handbike. Mas lá não tava perguntando! Graças a Deus e a bons amigos que eu tenho, que me alertaram sobre isso no sábado à noite, eu dei um print no regulamento. A regra era clara: São permitidas cadeiras esportivas de 3 rodas. Não são permitidas cadeiras de uso cotidiano.  Lá não estava escrito “não são permitidas handbikes”, como no regulamento da Wings for Life. O homem gritava e dizia que aquilo era uma bicicleta e que eu não iria correr com ela, pra eu me retirar dali . Eu disse à ele que o regulamento não explicitava a proibição, e quem é que iria me impedir de correr (fui meio tupetuda, admito). E disse que se ele não me deixasse largar ali na frente, sem problemas, eu iria lá pra trás, largar com a geral! Mas que eu iria completar a prova. Ele disse que não, eu teimei que iria pra geral e pedi pra alguém me dar ré.

Então, veio um senhor careca, também da Yescom. Ele parecia menos escandaloso. Eu disse à ele que eu só queria correr a prova. Que nem tinha categoria de cadeirante, com premiação, pra ter aquele escândalo todo. Eu disse à ele que eu só queria correr e ver o meu tempo. Aí ele disse “ok, vou deixar você correr, mas você não vai saber o seu tempo. Você vai ser desclassificada”. Fiquei bem triste! De verdade! Poxa, a gente gasta com avião, com hotel, sai da nossa casa, vai pra lá, acorda cedo, pra fazerem isso, na linha de largada? Mas eu queria correr de qualquer jeito. O outro homem gritou “você assume a responsabilidade?”. Minha vontade era dizer “se eu cair dura na prova, manda a ambulância não me ajudar. Alguém que estiver passando me acode”. Mas eu só disse que sim. Aí ele disse que eu não largaria com os meninos. Largaria depois, pra trás da elite. Como se isso fosse me deixar mais chateada do que eu já estava! Poxa, ao invés de incentivar o esporte, incentivar mais cadeirantes a participar (porque só tinha nós 3), eles ficam criando caso. Aí, pra ajudar, veio o locutor, me perguntar a diferença da minha hand pra cadeira dos meninos. Eu apenas disse que ela é mais barata e de manuseio mais fácil, por isso mais cadeirantes a utilizam e, também por isso, todas as outras organizações de corrida aceitam a handbike nas provas. E respirei! O senhor careca veio, e disse que, apesar de desclassificada, eu poderia largar com os meninos. Falou pra eu tentar ficar perto deles nos primeiros km, porque ainda tinha muita gente na rua, tentando chegar na largada. Eram 7:35.

10846219_913764915300862_4027381057968716665_nE sem nem respirar, largamos. Claro que eu não consegui acompanhar os meninos. O Jaciel voou (meu amigo arrasa!). O Carlos também distanciou bastante de mim. E eu, pra falar a verdade, só chorei por 3km, sem parar. E nessa hora, eu tenho que agradecer ao povo mineiro! Foi esse povo tão maravilhoso e receptivo que me acalmou. Porque eles gritavam e me aplaudiam na rua. Parecia que sabiam que eu estava precisando de apoio. Nos 3 primeiros km, eu nem respondia. Eu só procurava as plaquinhas dos km, querendo que o pesadelo acabasse, e me arrependendo amargamente de ter ido. Mas conforme as pessoas aplaudiam, gritavam, os ciclistas passavam no sentido contrário gritando, eu fui acalmando. E lá pelo km5, eu comecei a curtir a prova. Comecei a conseguir agradecer as pessoas pelo apoio. E comecei a curtir o visual. Já fazia tempo, enquanto eu fazia uma curva, que eu tinha visto o Jaciel, acompanhado pela moto, láááááá do outro, mais de 1km na minha frente. Sabia que nunca iria alcança-los, então eu ia era curtir a paisagem mesmo. E lembrei do que o Guto, técnico de Taubaté, tinha me dito na véspera da prova “quero ver essa média de velocidade aumentar”. E meu treinador, Rodrigo, da Fun Sports, quando me deixou  no aero, dizendo “vai com tudo”. Siga o mestre! Vamos arrebentar, então, dona Danielle. E eu comecei a dar o máximo de mim.

10822468_921628561195722_2136851959_nEntre os km 7 e 8, uma moto encostou em mim. Na garupa, uma moça com colete amarelão. Eu não tenho Garmin. Queria aumentar a média da minha velocidade, mas não tinha nem ideia se eu estava indo bem ou não. Aí perguntei pro moço da moto, qual era a velocidade deles. Pronto, fiz amizade. E a moça me explicou o que eles estavam fazendo ali (o cinegrafista acaba levando a elite pra onde ele quer. E a moça estava sinalizando as curvas, pra que eles corressem na tangente) e eles também me deram várias dicas do percurso! E logo, vem uma moto com uma câmera. Olhei pro lado e entendi: a elite feminina me alcançou. Estavam logo atrás de mim. Aí, até o km 14, eu fui “revezando” com elas. Na subida elas me passavam (óbvio!) e na retinha, eu alcançava, e às vezes até passava elas. E tinha um monte de carro e moto em volta. E eu ficava olhando elas correrem, e tentando passá-las na reta e na descida, e eu fui me distraindo! O povo na rua, sempre gritando e aplaudindo, e tirando várias fotos quando eu passava. Tomara que alguns fiquem animados em também fazer esporte!

IMG-20141207-WA0007

E lá pelo km 14, os homens da elite também me alcançaram. E todo mundo passou de mim na subida. Eu os via, bem ali, na minha frente. Mas quem disse que eu conseguia alcançar? Ai meus braços!! e quando eu tava a poucos metros, teve mais uma subida! aaafff… Mentiu quem disse que não tem subida nessa prova! Tem umas ridículas de tão pequenas, mas que quebram o ritmo de frangotas como eu. E foi assim, assistindo as ultrapassagens e a briga pelo pódio, ali, de camarote, que eu me aproximei do último km. Foi quando o público começou a aplaudir e eu vi a Fer fotografando (a maioria das fotos do post são dela). E logo após a curva, as pessoas formam um enorme corredor, dos dois lados da rua. E a chegada, foi emocionante, porque as pessoas me viam e

IMG-20141207-WA0011gritavam muito e batiam palmas. E por causa da elite, que estava minutos e segundos na minha frente, estava tocando a música do Ayrton Senna. E eu, manteiga derretida, chorei muito! Sinalizaram pra eu ir pra esquerda, porque a elite ainda estava chegando. E quando faltava uns 50metros pra chegada, e eu estava a toda velocidade, um homem fez sinal pra eu virar abruptamente à esquerda! Queria me fazer não passar pelo pórtico. Mas parece que não sabem que handbike não faz curva fechada, 90 graus, muito menos rápido. E eu tentei frear, mas passei direto. E o senhor careca, tava me esperando. E fez sinal pra eu ir em frente. Eu passei no cantinho do pórtico, e parei do lado dele. Só consegui agradecê-lo por me deixar correr, às lagrimas. E veio um monte de gente me tirando dali. Sorte que um fotógrafo, dos 255 que estavam tirando foto dos campeões (eu cheguei logo atrás do terceiro colocado geral), tirou uma foto da minha chegada! Obrigada!

PAMPULHA3

 

 

Atrás da grade de proteção, avistei  a Fabiana, minha amiga cadeirante que tinha ido ver minha chegada. Mas não a deixaram ficar na frente da grade (mais uma falta de consideração da Yescom) e nem ela, nem a família dela, viram nada. Então, o staff, super prestativo, foi me manobrando e abrindo a grade pra eu passar. Logo vieram o Adauto e a Paty, trazendo minha cadeira. Passei pra ela e convidei a Fabiana pra ir pra tenda da Ultra, pra fazer um teste drive na hand (to querendo levá-la pro Paraciclismo). Fomos todos lá pra cima (mais uma ladeira), onde pude pegar a medalha, encontrar os meninos cadeirantes e mais um monte de amigos, tirar fotos, comer (dragãozinho mode on no pós prova), a Fá testar a hand e darmos muita risada.

IMG-20141207-WA0003

Clipboard02No meio disso tudo, apareceram duas moças do staff. Vieram dizer que estavam na largada, que sentiam muito, que todos ficaram horrorizados com o que me disseram e com a forma com que fui tratada, e que estava muito felizes por eu ter ficado firme e feito a prova. Manteiga derretida, chorei de novo, quando fui agradecer.

Gente, o que posso dizer? Essa prova é linda! Muito linda mesmo! O percurso é fácil, o visual é maravilhoso, o clima estava ótimo. Apesar de até abrir sol depois, não estava calor. Pra quem anda, vale muito a pena correr essa prova. É deliciosa! Mas, pra Yescom, só posso dizer que entrem em contato com a Latin, a Ativo e, principalmente, com a Iguana Sports, e aprendam como tratar um deficiente! Seja qual for a deficiência e seja qual for o equipamento usado. A Iguana guardou minha cadeira quando corri a Golden Four, tratam a gente com o maior amor e carinho, querem mais deficientes nas provas e, no Dia Internacional da Pessoa com Deficiência ainda nos homenageou, com foto no face e no instagram.

1654184_913594368651250_1719102324246167372_nÀ toda equipe Ultra Sports, meu muitíssimo obrigada (to esperando as fotos, gente)! Também obrigada aos meus patrocinadores para essa prova (HVex, Pando e Clínica Vita), a todos os amigos que participaram da vaquinha on line e aos meus parceiros de sempre, que sempre confiam em mim como atleta.

Meu tempo? Não sei! No site da Yescom nem tem categoria cadeirante feminina. Mas, aos trancos e barrancos, fui lá e fiz! Isso que importa!

IMG-20141207-WA0010

 

03
dez

0

Copa Brasil de Paraciclismo e Campanha #saidosofa

Gente, demorei pra escrever porque minha viagem de volta foi muito desgastante fisicamente. Mas cá estou, pra contar tudo de maravilhoso que ocorreu durante esse final de semana.

Tudo começou quando eu ganhei a handbike, em junho (se você quer saber como foi, leia aqui http://daninobile.wordpress.com/2014/06/02/1-fim-de-semana-1-monte-de-presentes/), os cadeirantes do paraciclismo começaram a me mandar mensagens, me convidando para conhecer esse esporte. Mas, eu amo a corrida de rua, principalmente as meias maratonas (novidaaaaaaaade!!! dessa ninguém sabia) e eu só pensava nisso. Não queria saber de outro esporte. Em outubro, quando fiz minha inscrição pra Adidas Boost Endless, no RJ, meu amigo paraciclista Dado Camara, disse que ao invés de ir pra essa prova, eu devia ir pra Curitiba, na Copa Brasil de Paraciclismo, pois isso seria melhor pro meu futuro no esporte. Mas eu já estava com tudo pronto e a caminho do Rio.

Na volta, um colega de Taubaté começou a fazer a lavagem cerebral em mim!hahahaha  O Eduardo fez que fez, me convencendo a todo custo, com uma ajudinha do Fred Carvalho e do Dado, pra que eu fosse pra Rio das Ostras. Mas, eu tinha acabado de chegar da Golden Four Brasília. Eu não tinha um centavo de peso (que vale 5x menos que o real)  pra fazer essa viagem. Então, resolvi postar no facebook, perguntando se alguém sabia de algum empresário que gostaria de me patrocinar nessa prova. Na mesma hora, duas amigas me enviaram a mesma mensagem: faça uma vaquinha on line! Pensei, repensei e montei a vaquinha. Ao ver o link, alguns amigos começaram a compartilhar e outros a contribuir com o que podiam, pra me ajudar a ir. A união faz a força e eu já estava achando que iria conseguir ir mesmo! Então, o Eduardo me deu as instruções pra me Federar e me inscreveu pela Equipe de Ciclismo de Taubaté.

Ao ver a vaquinha on line, um empresário resolveu me patrocinar nessa prova. E entrou em contato com outro. Essas empresas são a HVex e Pando. E eu não tenho como agradecer por isso!! Uma amiga, a Mônica Santiago, também resolveu me ajudar com as passagens. Minha gratidão a eles é infinita, pois me possibilitaram ir pra la, arcando com alguns custos que não seriam cobertos pela Federação e pelo Comitê. Aí, vi uma luz no fim do túnel. Vi que, além de participar da minha primeira prova de Paraciclismo, ainda iria sobrar dinheiro pra comprar as passagens pra ir pra Volta da Pampulha, em BH, no dia 7 de dezembro (e agora, também vou pra Taubaté, em outra prova de Paraciclismo, dia 14 de dezembro, com  o mesmo dinheiro. Sim, gente, eu sou econômica! Segurei as pontas e o dinheiro vai dar!!! Obrigada a todos!!)

Totalmente sem ideia do que iria acontecer e de quantos km eu teria que correr em 2 dias de provas, pois ainda não tinha minha classificação funcional, meus treinadores da Fun Sports mudaram totalmente meu treino, pra que eu pudesse rodar um pouco mais na hand, em 2 semanas.  Sofrimento foi fazer 1h30 de rolo, na quarta, véspera da minha viagem. (O rolo é necessário e imprescindível na minha vida. Mas ainda não aprendi a amá-lo! Vocês já sabem disso também). Meus pais vieram embalar a hand pra mim. E na quinta, na cara e na coragem, sem saber o que me esperava, parti pro RJ.

Clipboard01

Chegando no aeroporto, o João, da Federação de Ciclismo do Estado do RJ, já estava me esperando. Ele me levaria pra Niterói, onde eu ficaria no alojamento da Federação, gentilmente cedido aos atletas de outros estados, esperando ir pra Rio das Ostras na sexta bem cedo. Como o carro não tinha som, eu e o João passamos um bom tempo rindo, falando do Rio, das provas, do esporte. Chegando lá, fui recebida com muito carinho pelo Claudio e pela Sarita.

Pensei que ia dormir cedo, mas… no no no (cantem no ritmo da Amy). Meia noite chegaram mais atletas. E minha noite de sono virou uma noite de muito papo alegre até 3h da manhã, quando eu, delicadamente, com meu jeito Fiona de ser, falei pra todo mundo dormir. 5h da manhã chegou o caminhão pra levar as hands e nossas cadeiras de rodas. 7h da manhã foi o fim do semi-sono. Café da manhã e partimos pra Rio das Ostras. Eu brinquei de bater a cabeça no vidro a viagem inteira, dormindo e acordando. Espero não ter dormido de boca aberta, nem babado.

Não tenho a menor ideia de quanto tempo levamos. Acho que umas 2h30 a 3h. Eu acordei já na entrada de Rio das Ostras. Vou resumir essa parte da minha chegada, senão vou levar uns 3 parágrafos contando até o momento que eu, finalmente, entrei no quarto. Válido é dizer que, enquanto eu esperava “me acharem”, porque a Equipe de Taubaté estava num hotel e eu no outro, eu encontrei a Jady (que desde que nos conhecemos em 2013, me chama pro Paraciclismo) e o Ulisses. E, em uns 30 minutos de conversa, pude aprender muita coisa sobre handbike, com essas duas feras.

No caminho do almoço, fui parada por um moço. Era o Guto, técnico da equipe de Taubaté. Ainda não tínhamos feito contato, pois ele estava viajando com atletas de Taubaté de outras modalidades paradesportivas. Após o almoço, ele ficou comigo, esperando minha vez de passar pela classificação funcional.  Enquanto aguardávamos, o Guto me explicou muitas coisas importantes sobre o esporte profissional, como funciona a distribuição de vagas das modalidades e classes, dentro de Campeonatos Mundiais, Paralimpíadas e Parapan. Nada disso eu sabia. A conversa foi super esclarecedora.

Entrei pra ser avaliada e fui classificada como H2. (Se você quiser entender melhor como isso funciona, entre nesse link http://www.cbc.esp.br/default/admin/arquivos/Para-ciclismo%20-%20Artigo%20Classifica%C3%A7%C3%A3o%20Funcional.pdf ). Na saída, encontrei o Mauro, meu amigo de SP, que também estava estreando no Paraciclismo e ia fazer sua classificação. Ele, o Leandro,  amigo do Mauro, A Jady e o Erick, irmão dela, foram grandes parceiros nessa viagem.

Após confraternizar com todos os atletas e técnicos no jantar, fui milagrosamente deixar tudo pronto para o dia seguinte.

1512307_10205565924967186_3153541964552178363_nNo sábado, foi a prova de estrada. Na classe H2, eu teria que dar 9 voltas no percurso, totalizando 19km. Porém, a regra é clara! Quando o primeiro atleta passa pela linha de chegada, os demais atletas daquela classe, sejam homens ou mulheres, ja param de correr. E eu, essa franga com whey, toda atrapalhada com a novidade, vendo a galera das classes H3, H4 e H5 pegando vácuo, olhando pra tentar aprender, toda destrambelhada com o câmbio desregulado e toda tartaruga…não consegui ser rápida o  bastante pra acompanhar os meninos e completar as 9 voltas. Fiquei devendo umas voltinhas.Tenho que treinar mais!

IMG-20141129-WA0005

Durante a prova, aprendi muito! Observava os outros atletas e seu posicionamento na hand (tudo bem que a deles é mais leve que a minha…), a Jady emparelhou comigo e me deu várias dicas. Ela até tentou me ensinar a pegar vácuo, mas eu não consegui acompanhá-la nas duas primeiras pedaladas!! (eu = franga!). Os meninos, até seus técnicos, me gritavam na primeira volta, pra eu mudar as marchas. E o Guto, posicionado estrategicamente em uma das curvas, também me gritava cada vez que eu passava, pra fazer isso ou aquilo, dessa ou daquela maneira. Na curva oposta à que ele estava, eu quase capotei uma hora (igualzinho aconteceu em Brasília) e também eu e Fred quase trombamos, nessa mesma curva, voltas depois. É muita adrenalina! uhuuuu E eu saí linda, maravilhosa, com a marca de sol da blusa no braço hahahaha

IMG-20141130-WA0001

Eu vi que não entendo nada de ciclismo e de bicicleta! Mas nunca é tarde pra aprender! IMG-20141130-WA0009Eu acabei aquela prova extremamente feliz! Claro, com toda a endorfina liberada pelo exercício, não poderia ser diferente. E ainda saí com minha primeira medalha de ouro no Paraciclismo! Não fiz na frente de ninguém, mas chorei sozinha depois, enquanto tomava banho. O treino é de menininho, mas o coração é de menininha mole com TPM. Passou um filme na minha cabeça. De tudo que aconteceu do acidente até agora e tudo que eu já conquistei, sempre apoiada e amparada pela família, pelos amigos, e até por gente que nunca me viu, mas colaborou pra eu ter chegado até ali.

10678691_909318685745485_6221187043972394709_n

Depois da premiação, do banho, do almoço, e de um pouco de descanso, o Guto foi regular a minha bike. Eu observei, sei onde mexe, mas obviamente, não sei fazer! E no dia seguinte, descobri que depois que eu fui dormir, ele ainda regulou outras coisas, como o freio!rs  O resultado disso eu conto depois.

IMG-20141201-WA0024Domingo! Eu nunca tinha feito duas provas em dias consecutivos. Na minha concepção de olhar o céu, ia fazer sol! Mas como meteorologista, eu sou uma ótima cozinheira. Choveu! Ainda bem que eu fui de calça! Nesse dia, era a prova de contra relógio. A cada 1 minuto, larga um atleta. A gente só sabe o resultado depois que todo mundo terminar e e a organização revela quem deu a volta mais rápida em cada classe. Na minha, seriam 3 voltas. A todo vapor, o mais rápido que meu cansaço do dia anterior e da TPM no pico do Everest permitissem. E nesse dia, eu estava cheia de espasmos nas pernas.

IMG-20141201-WA0025

Fazemos uma fila, na ordem que a Federação determina, e esperamos nossa vez de largar. Já começou a chuviscar aí. Mas na hora que eu comecei a correr, a chuva apertou! E eu uso lente de contato. Apesar de estar de óculos de sol e ele proteger um pouco os olhos da chuva, a água entrava por todos os lados e minhas lentes começaram a boiar nos olhos. Eu tinha medo de piscar e elas saírem. Cheguei a dar umas pedaladas de olhos fechados. Eu não sabia o que era pior. Eu só sentia aquele monte de água na roupa e no rosto. As únicas coisas que eu queria eram: a lente não pular pra dar uma nadadinha no asfalto e não sentir dor neuropática por causa do frio.

IMG-20141201-WA0020

Como o Guto regulou a minha handbike, a minha velocidade média aumentou tanto do sábado pro domingo, que quase dobrou! Maaaas, comparada à Jady, que é H3, ou aos meninos H2, ainda continuo uma franga com whey! Eu não tinha muitos parâmetros, pois como a largada é individual, você realmente não sabe quem é o mais rápido. Eu mirava alguns meninos da H1, que largaram antes de mim, e tentava ultrapassá-los, ou pelo menos alcança-los.

Continuou chovendo muito depois que eu terminei a prova. Só parou um tempão depois. Mas ainda tinha atletas na pista. E depois que terminasse a prova de Handcycle, ainda tinha o pessoal da Tandem (deficientes visuais e seus guias) e o pessoal da classe C, que pedalam bikes convencionais, mas que tem algum tipo de deficiência. No começo, eu estava bem. Tirei a blusinha de ciclismo que estava 1425506_909842549026432_5598528202990616210_nensopada, e coloquei um casaquinho. Mas a calça e o tênis continuaram ensopados… E eu fui gelando, gelando…1hora depois eu não estava aguentando de dor. Voamos pro hotel onde parte dos atletas estava hospedada (não o que eu estava), tomei um banho quente num quarto emprestado, peguei roupas emprestadas (dos meninos! Imaginem como eu estava Diva) e voltamos correndo pra tentar pegar minha medalha e ainda ver os outros atletas serem premiados. Cheguei nos 47 do segundo tempo. Mas peguei minha segunda medalha de ouro no Paraciclismo.

Esse final de semana foi de muito aprendizado e muito esclarecedor pra mim! Resolvi que representarei Taubaté em 2015, não só no paraciclismo, mas em outras modalidades esportivas. Não vou parar com as meias maratonas, porque corrida é minha maior paixão! Mas vou ter que conciliar umas 5 ou 6 que quero fazer, com as outras modalidades esportivas mais específicas para cadeirantes, inclusive o Paraciclismo.

IMG-20141201-WA0018

Depois da prova, eu e a Jady decidimos iniciar uma Campanha pra trazer mais meninas pra esse esporte tão gostoso! Chamamos a Campanha de #saidosofa . Temos vagas pra meninas tetras (por favor, venham!!) e paras, em todas as classes. Não vou dizer que vamos encher o paraciclismo de rosa, porque eu gosto é de azul! Mas vamos dar um colorido especial pra esse esporte predominantemente masculino. Gatinhas de rodas, seja qual for a sua lesão, você pode pedalar com a gente. Se você procura um esporte, encontrou! Eu e a Jady fizemos posts nos nossos facebooks e fan pages, nos colocando a disposição para quaisquer informações. Nossos técnicos, Guto e Thiago, também estão à disposição.  Também queremos incentivar os meninos, claro! Mas o nosso foco agora, é trazer meninas pro ciclismo. Se você nunca experimentou uma handbike, fale com a gente, pra dar uma voltinha e ver se você gosta! E se você, cadeirudo, tem uma amiga cadeiruda que ta meio paradinha em casa, manda ela conversar com a gente! Estamos esperando vocês pra correr em 2015, meninas!! bjss

Ah..se você quer ver um pouqinho em vídeo, tem reportagem no G1 do RJ!!  http://globotv.globo.com/inter-tv-rj/rj-inter-tv-1a-edicao/v/rio-das-ostras-rj-recebe-copa-brasil-de-paraciclismo/3802421/

1512439_910715048939182_8310193419195248385_n

22
out

0

Tenho 2 anos! Parabéns para mim!! o/

É hoje o diaaaaa, da alegriiii-i-aaaaaa! E a tristezaaaa, nem pode pensar em chegaaaar. Diga espelho meu, se há na avenida alguém mais feeeeliizz que eu! Diz aí! Diz aí!!!

dani2

Sim, siiimmm, siiiiiiiiiiiiiiiimmmmm!!!! Hoje eu completei 2 anos de vida! 2 anos de lesão, 2 anos de acidente, de vida nova, de cadeira de rodas. Sim, eu comemoro! Eu entrei no liquidificar e saí, viva, inteira e pronta pra curtir a vida adoidado. Sabe aquele ditado besta “Deus disse: desce e arrasa”? Então, no meu caso, Deus disse “Sai desse monte de lata retorcida e vai ser feliz, minha filha!”

10325410_791961860814502_2073472362398210166_nEu comemoro sim! E fico muito brava e indignada quando vejo cadeirantes todas/todos tristes, cheios de  lamúrias e lamentos “ai, que droga, hoje completo tanto tempo de lesão”.  Tá louca minha filha? Preferia ter morrido? Preferia causar mais dor à sua família? Preferia estar pior do que você está? Eu não preferia! Eu to bem, obrigada!! É…não to ótima. Estarei ótima quando puder voltar a correr e dançar. Por enquanto, eu to bem, obrigada!

Pra quem não me acompanha desde o começo, o que mudou na minha vida do dia 22 de outubro de 2012 pro dia 22 de outubro de 2014? Tudo! E nada!

IMG_20121106_130125IMG_20121111_160309

Em 2012, eu era professora. Apesar de morrer de saudade dos meus alunos, hoje não sou mais.  Apesar de ter lesão alta e ser considerada tetraplégica (não é só a questão de movimentação. A tetraplegia envolve também outras demandas, como dores agudas, perda da sensação de frio e calor, ausência permanente da capacidade de transpiração, espasmos, queda de pressão e tudo isso eu tenho de sobra. Minhas pernas esfriam e não esquentam mais, a ponto de eu sentir dor neuropática, outro demanda da tetraplegia) eu recuperei um pouco dos movimentos das mãos. Mas, mesmo com letra feia, não consigo escrever mais que duas linhas. Tenho espasmos nos dedos e a caneta cai da minha mão. No final da primeira linha já estou tremendo.

Acabei me apegando fortemente a esporte, tanto pra me reabilitar quanto pra buscar uma nova profissão. Ainda não sou profissional. Mas, como em qualquer profissão, que você precisa estudar, se empenhar,  se especializar, tentar e tentar, procurar um emprego, começar de baixo e ir devagarzinho subindo os degraus, eu estou tentando. Comecei do zero. Do nada! Estou tentando, estudando, começando de baixo, devagarzinho, tentando subir os degraus.

324_marlonabreu_0419_1568-91_g

Passei muitos percalços no esporte, tentei daqui, tentei dali…Mas agora, graças ao presente dos meus amigos – a handbike – eu to fazendo o que eu queria e mais amo: correr. E estou tentando trilhar um caminho novo. Sozinha está difícil, de vez em quando eu levo uns sustos, mas prefiro esses sustos do que não fazer esporte nenhum!

10698512_874565732554114_2799467894685843768_n

Meu equilíbrio de tronco não é aquelas belezas, mas já melhorou muito, com relação ao que era no começo! Ainda tenho o corpo todo bagunçado de temperaturas. Tem dias que coloco  a mão em mim e canto a “Dança da manivela”, dizendo que aqui ta quente, aqui ta frio, muito quente, ta frio. Tem dias que to com calor no tronco e pescoço e dor neuropática porque as pernas estão geladas (como por exemplo, agora!).

Mas por dentro sou a mesma pessoa de antes, que ri sempre, que faz piadas idiotas, que gosta de estar rodeada de amigos, que adora ouvir música e berrar a letra a plenos pulIMG-20140915-WA0077mões, que ama esportes, que ama viajar,  que ama a vida!

Me considero feliz e vivo muito mais intensamente agora do que antes. Viajo mais, passeio mais, dou menos valor ao dinheiro e mais às experiências vividas, dou menos valor à aparência física e mais à saúde. Conheci muito mais gente, muitas pessoas legais que me ensinaram muito.

dani1Ah, eu não deixei a vaidade de lado nem no hospital! E preciso agradecer minhas amigas que me supriam com maquiagem, shampoos…rsrs Eu sempre me maquiava, até pra ficar em casa. Hoje continuo com uma das minhas marcas registradas: lápis preto nos olhos.

No começo manter a vaidade foi bem difícil. Devido à anestesia da cirurgia e muitas medicações, perdi quase 80% do cabelo e minha pele ficou lotada de espinhas.
Agora, meu cabelo está crescendo. Os fios novos estão quase nos ombros. Mas misturados com os fios antigos, meu cabelo ainda tá estranho rsrs Mas nem por isso eu deixo de arrumá-lo pra sair. Passei milhões de cremes nas espinhas, fiz algumas sessões com uma amiga especialista em laser e Led, e agora meu rosto está mais limpo.

natação

Meu corpo é outro. Minhas pernas grossas e musculosas já não são as mesmas faz tempo. E agora, além de finas, uma é mais fina que a outra.Minha barriga sarada foi trocada pela famosa “barriga de tetra (tetraplégica)”, flácida devido à falta de contração muscular, principalmente no abd inferior. Tive que aceitar meu corpo novo. Claro que sinto falta do corpo antigo, mas não adianta viver de passado. Tento me arrumar e ficar bonita o máximo que eu posso.
Gosto de estar sempre cheirosa. Continuo usando anti rugas, porque to com os pés e as rodinhas nos 30 (acabei de fazer 29). Não é porque estou na cadeira de rodas que vou ficar por aí desleixada.

Mas a vida quis reforçar, através da cadeira, que há coisas muito mais importantes que a aparência. Dou valor a estar bonita e arrumada. Mas claro que isso não é tudo!
Ser respeitada pelas minhas ideias, pelos meus ideais, ser vista como mulher antes de ser vista como cadeirante, alguém parar pra ouvir o que eu penso antes de me olhar e me prejulgar, é muito mais importante!

IMG-20140216-WA0002Depois que vc vê a morte de perto, passa a encarar a vida de uma outra forma. Dá mais valor à certas coisas e menos à outras. Pensei em tudo que queria ter dito e não disse, em tudo que teria ter feito e não fiz. E agora, eu tento me empenhar mais em viver.

485462_886413038036050_5727372151154729224_nCom certeza meus valores mudaram. Eu simplesmente vejo a vida de uma outra forma. Vi a morte de perto e Deus me deu outra chance. Dou mais valor aos meus pais (mesmo que eu não demonstre tanto pra eles). Dou mais valor aos meus amigos. E tento estar com eles sempre que posso. Dou mais valor ao amor e não tenho vergonha de demonstrar. Dou mais valor às pequenas coisas, aos momentos. A gente nunca sabe se aquela vai ser a última vez que vc ta fazendo aquilo, que vc ta naquele lugar, ou que vc ta com aquela pessoa. Então, eu procuro viver intensamente cada momento da minha vida.Eu viajo mais, passeio mais e faço menos contas hahahaha  Posso ficar dura. Mas dinheiro nenhum vale mais que uma boa lembrança. E eu to cheia de lembranças boas.

10420372_886473898029964_6610495089821130571_n

Não sou uma pessoa perfeita! Ainda tô há mil anos luz disso! Mas tento ser uma pessoa melhor do que eu era na época do acidente.20140907_111440

Tirei um milhão de lições. Mas acho que as principais são que a vida é curta demais pra gente ter uma vida chata. Que sobreviver é muito chato.

Que vc trabalhar e voltar pra casa e ter uma vida vazia só por dinheiro não vale a pena.
Tem gente que tem um relacionamento e só ta com a pessoa de corpo presente. Chega do trabalho, deita na cama e dorme. Não faz nada junto, não passa tempo de qualidade, não para pra beber uma taça de vinho e conversar, ou pra dividir uma panela de brigadeiro sentados na cama enquanto assistem um filme.

costas

Tem gente que só dá valor pros avós depois que os perdem.
Tem gente que tem filho, mas não cria o filho, não brinca junto, não se diverte junto, não sai pra andar de bicicleta, não lê uma história pra criança, não cria lembranças com a criança.

10678686_879401312070556_2912020854838005937_nTem gente que não cria lembranças pra si mesmo. Eu quero uma vida cheinha de lembranças, de risadas, de bons momentos, eu quero uma vida colcha de retalhos, que a gente constrói aos poucos, vai costurando os pedacinhos, fura o dedo, a linha acaba, a gente pega outra de outra cor, para pra cortar mais retalhos, vai fazendo um pouquinho por dia, um pedacinho de cada vez.

 

buenos aires

24
fev

32

Minha primeira travessia

Dia 22 de fevereiro eu completei 1 ano e 4 meses de lesão. Pra comemorar, eu resolvi dar um tchibum e fazer minha primeira travessia.

A decisão foi tomada em cima da hora. Estava esperando um voo e vi uma notícia sobre a travessia, na quarta-feira. Na quinta, cheguei em casa e resolvi dar uma olhada melhor. Era o último dia pra inscrição, pra prova que seria em 9 dias. Eu estava precisando de algo que me fizesse sair da areia movediça e que também me levasse de volta às piscinas. Apesar de estar há 4 meses sem treinar, fiz a inscrição. E seja o que Deus quiser!

Treinei 5 dias e descansei na véspera. Na noite da prova, fui deitar cedo. Acordei de madrugada pra ir ao banheiro e…meu celular desligou e não ligava mais! Ai jisuisis! Fiquei uma hora tentando religá-lo e “o resto das horas que me restavam” de sono, vigiando o celular pra ver se não ia desligar e me fazer perder a hora. Saí da cama 4h! Esperei a turma passar aqui pra me buscar e lá fomos nós. No caminho, de Ribeirão à Campinas, tentei descansar, mas não rolou. Chegamos lá, tudo é festa. Adrenalina a mil.

1969319_10203440773126280_1251823860_n 1002650_10203440775966351_59321459_nA Ju foi “pintar”  meu braço (ela usou outro termo. Acho que foi tatuar..Mas como boa iniciante, eu não me lembro!).Eu e a Amanda, minha amigona, também iniciante em travessia, bem animadinhas, posando com nossos números. E eu tava doidinha pra entrar na água. No meio daquela galera toda, vi alguns malacabados. Tinha cadeirante, amputado, deficiente visual, gente como a gente, de todo tipo.

1622260_10203440777446388_447690483_nMinutos antes da largada, alguns de nós nos reunimos no píer, pra esperar ajuda. Sim, pois a largada era no meio do barranco de terra. Depois da chegada, tinha uma escada. Como nossas cadeiras e muletas precisavam ficar na chegada, eles nos desciam pelas escadas e, depois, nos subiam. Mas o pessoal da organização estava preparado pra isso. Na hora de descer, o moço perguntou meu peso. Quando eu disse, ele riu “Levinha, tipo um saco de cimento.” Fiquei esperando ele me jogar no ombro, mas ufa! Não aconteceu!

Minha prova era às 8:30. A do Rodrigo e da Ju era 10:30. Eu ria e pensava “Tenho 2horas pra completar. Beleza.” Bóra, entrar na água!1970612_10203440780846473_279375328_n

Nadávamos até a largada e esperávamos por ali. A largada da nossa turma era junto com o juvenil. Uma garota cadeirante me perguntou se eu ia largar no meio da muvuca. Lóóógico que não. Deixa o povo ir. Eu vim pra completar! To sem pressa. Apitaram! A primeira coisa que eu pensei foi: “O que é que eu to fazendo aqui mesmo?”.

1970581_10203440784006552_1415179959_n Beleza, olhei pra um lado, olhei pro outro. A maioria já foi. Agora eu vou. Dei umas dez braçadas e ganhei uma pesada na cara, de um menininho. Ah, que sensação  indescritível do pré-afogamento a uns 5 metros da largada. Beleza. Cabeça pra fora, dei uma olhada, se eu fosse mais pra direita, eu saía do meio do povo. Não adiantou muito, tinha tanto pé na minha frente, que eu fiquei meio atrapalhada e perdi aquele pique do começo. Mas tudo bem. Lá fui eu.

A primeira bóia parecia que não chegava nunca. Eu parei pra descansar umas duas vezes, boiando, mas continuava nadando de costas. Até que, depois de uma eternidade, que parecia meia hora (mas depois descobri que foram apenas alguns minutos), eu cheguei na primeira bóia. E quem disse que eu enxergava a segunda? Sol na cara, ansiosa, o fluxo de nadadores na minha frente diminuiu e meu óculos cheio de gotículas. O moço do caiaque chegou perto. Eu segurei nele, tirei o óculos e enxerguei a bóia. Ele olhou pra mim e disse: “Se você não estiver bem, você me chama que o barco vem e te leva de volta.” E eu disse:”Moço, você ta maluco? Eu vim pra terminar, não importa em quanto tempo.”  Olhei em volta e disse pra ele: “Eu to ficando muito pra trás. Que vergonha.” E ele olhou bem pra mim e falou uma coisa, que era o que eu sempre disse, mas o cansaço não me deixou raciocinar na hora: “Vergonha seria se você tivesse ficado em casa, no sofá.”

Lá fui eu, mirei a segunda bóia e bóra. Juro, juro pra vocês que eu delirava tanto, que eu achava que enxergava o fundo, bem pertinho de mim. Que doidera. Aí eu percebi que o “meu fundo” seguia um padrão, como se tivesse uma pedrinha a cada 10 respirações. Devia ser alucinação, falta de água bebível , sol na cabeça, sei la. Beleza. Mirei a próxima bóia, mas ninguém estava indo pra ela. Fui perguntar pros moços dos botes/caiaques..E vi que não tinha ninguém por perto. Fui nadando. Um tempão depois surge um moço, fazendo uma marola pra quase me afogar. Ele disse que era pra passar à esquerda daquela bóia e mirar a chegada. Vixi! A chegada ta longe pra caramba. O moço do caiaque tinha dito que a volta era mais fácil, porque a correnteza ajudava. Que correnteza? Acho que na minha vez ela cansou de trabalhar!

Então, depois de já ter parado pra descansar um total de  5 ou 6 vezes na prova, decidi ir até o fim sem parar. Não sabia como fazer isso, porque faltava cerca de 1/4 da prova (eu acho! Veja bem, eu já tinha tomado muito sol na cabeça e achava que já estava nadando há mais de 1hora, quando não devia fazer nem 20 minutos, de acordo com meu tempo final. Então, não dá pra confiar muito na minha noção de distância).

Quanto mais perto da chegada eu chegava, menos vontade de parar eu sentia, mas também tava cansada pra burro. Quando começou a ter bastante gente na margem, eu só conseguia ouvir gritos animados : “Vai Dani” “Força Dani” “Vamo Dani”. Era a Ju. Ela nem sabe o tanto que me ajudou naquele momento.

1780622_10203440786606617_895058504_nAté que enfim, depois do que eu achei que fossem as tais 2horas depois, mas não era nem meia hora, eu cheguei! Morrendo, olha a cara da pessoa! Mas eu consegui a sensação que eu tanto buscava. Aquela sensação, de apesar de estar passando por um momento complicado na minha vida, ter conseguido superar mais um desafio. A sensação de transpor mais um limite. A sensação de realizar um sonho, do qual eu vinha falando desde que eu estava no Sarah no ano passado. A sensação de estar cada vez mais perto do triathlon. Aquela adrenalina e toda  a endorfina, correndo no corpo inteiro. E não vou negar. Quando me sentaram na cadeira, e o Rodrigo e a mãe da Ju vieram me dar os parabéns e me ajudar, eu só conseguia chorar e repetir “Eu consegui! Eu não acredito que eu consegui!”

1964785_10203440788366661_516861187_n

25
jan

0

Por Uma Vida Saudável Sobre Rodas

Minha gente boa,  fiz um post no Facebook, lançando uma Campanha especial pro povo cadeirudo. Pois bem, venho, por meio deste, explicar-me!

É o seguinte. Há uns meses atrás, quando eu voltei do Sarah, eu tava meio porpeta. Eu vi uma foto minha, com a minha irmã, na véspera de ir pra lá, toda lindinha, magrinha, de vestido verde. Na volta do Sarah, eu vi uma foto minha, com uma professora de lá, no dia da despedida. Eu estava com o mesmo vestido e…Com cara de bolacha Trakinas e bração igual do Faustão antes do regime. Note na foto como, com a professora, estou até tentando disfarçar a barriga com o braço na frente.

Quem lê o blog deve lembrar que eu liguei pro André Facchin, meu nutricionista,e comecei meu plano de ação. Mudei a dieta, voltei pra academia e comecei a ter resultados. Até fiz um post sobre isso, em maio, aqui no Running News.

Aí eu conheci o Fernando, meu namorado. Eu estava em processo de emagrecimento. E como é difícil, pra quem ta na cadeira de rodas, emagrecer. Depois de uns meses, Fernando olha pra mim e diz: “Olha, daqui 2 meses será minha formatura. Você vai comigo, tá?!”. Que lindo! Eu disse “ta”  e por dentro eu entrei em desespero! Conhecer todos os amigos, família, entrar num vestido mara, cabelo, maquiagem…eu e minha banha sobrando. Comecei o que chamei de ProjetoFormatura. Meu nutri, minhas amigas, pessoal da academia, meu fisioterapeuta, me apoiaram e ajudaram nesse projeto. Emagreci mais um pouco. Levei minha barriga de tetra comigo porque ela não quer me deixar de jeito nenhum. Ela tava bem menor, mas barriga de tetra gruda mais que carrapato. Enfim, eu fui. Me diverti, dancei, dei risada, chorei de emoção.

Depois da formatura, fizemos a viagem, que relatei no post anterior. E  voltei, toda feliz, apaixonada, amando…e baleiúda de novo! (engordei menos, mas engordei…poxa vida) Recomecei a dieta, o André fez umas modificações.(Já emagreci tudo de novo e estou com o mesmo peso da formatura. Mas ainda tenho muito que melhorar. Minha barriga de tetra ta parecendo que engoli uma melancia. Como tenho lesão alta, não posso sonhar com barriga chapada, mas quero que minha melancia vire cereja)

Nisso, notei que minha amiga, Fabíola Pedroso, também iniciou uma dieta (ela está na terceira semana).  E tome post no facebook, dela falando do novo projeto. Adorei! Sempre conversava com ela sobre isso. Afinal, pra cadeirante é mais complicado emagrecer. Então, resolvemos unir forças. Cada uma na sua dieta, mas nos apoiando.

Há uns 2 dias atrás, vejo outra amiga de rodinhas, a Tabata Contri, postando no Facebook que resolveu entrar na dieta também. Ela chamou de Medida Certa Cadeirante. A dieta dela mesma. Postou uma foto de uns anos atrás, que é onde ela quer chegar, e uma de hoje em dia.

Então, eu comecei a refletir. É realmente mais complicado emagrecer na cadeira. Na verdade, tenho notado que muitos engordam, mesmo que depois de alguns anos, quando se veem na cadeira de rodas. Muitos negligenciam a atividade física, outros se entopem de besteiras e não ligam pra alimentação saudável. Não é só uma questão de corpo bonito, ou magreza. É uma questão de saúde. Nosso corpo muda por dentro, quando temos lesão medular. Outros adquirem outras patologias que os fazer mudar por dentro também. O funcionamento de alguns órgãos fica lento. Temos que nos cuidar. Também temos que prestar atenção ao Triglicérides, Colesterol. Tireóide, Pressão, como qualquer outra pessoa.

Por que não nos unir e um dar força pro outro, buscando uma vida mais saudável, mais ativa, com mais gente feliz, contente, menos problemas de saúde, mais atividade física? Foi então que conversei com meu nutri e resolvi lançar a Campanha. Porém, não poderíamos chamar de Medida Certa Cadeirante, porque somos pobres demais pra gastar com pagamento de direitos autorais pra empresa criadora do programa. Vamos chamar de “Por Uma Vida Mais Saudável Sobre Rodas” (fiz até hashtag #).

A ideia é a seguinte. Um animar o outro na busca de qualidade de vida. Trocarmos dicas, sensações, nos motivar. A ideia é sair do sofá e buscar alguma atividade física que te proporcione prazer. Como bem disse a Selma Rodeguero (tão viciada em musculação quanto eu) “ Cada um faz o que gosta e o que acha que é melhor, mas TODOS devemos fazer uma atividade física.”  A ideia é também parar de se entupir de fritura, de doces, de gordura e trocar por alimentos saudáveis que ajudarão você no futuro. Como disse a Fabíola: ”Odeio legumes e verduras. Claro que dieta inclui esses alimentos e estou comendo e gostando de muitas coisas.” É só tentar!

Preciso deixar claro que nenhum de nós é nutricionista, pra passarmos dietas uns pros outros. As dietas precisam ser personalizadas, pra realidade de cada um. Se alguém mandar cardápio de dieta pros demais, eu ficarei mais malvada que a tal da Amarilys. Se você precisa de uma dieta, eu indico meu nutricionista, a Tabata pode indicar o endocrinologista dela, você procura algum profissional pra te ajudar. Também não somos educadores físicos. Podemos dar dicas, mostrar alguma atividade que fazemos. Mas passar um programa de exercícios, os famosos “treinos”, só os profissionais da área podem passar. A ideia é a motivação mútua. Nada de um se comparar com o outro, mas você olhar suas fotos, daqui 6 meses e perceber “Caramba, como estou melhor, como minha saúde melhorou.”

Então, se você ficou animado a começar ou já começou, escreva pra mim. Uma amiga, a Fabíula (é outra, gente), disse que começou a dieta, mas ta de férias da atividade física. O Vinícius me mandou in box perguntando: “Só tem mulher na foto. Os meninos estão de fora?”. Claro que não! Estão super dentro! Eu coloquei as fotos delas comigo, porque foram as que estão no meu grupo de amigos e se manifestaram sobre a mudança na vida.

O que eu preciso é que todo mundo que aderir, escreva pra mim. Pode ser email (dannyybo@ibest.com.br – Se mandar piadinha, corrente ou sacanagem, vai arder no mármore do inferno) no facebook (http://goo.gl/VO64qx) ou escrever nos comentários aqui do Blog. Quero saber o que vocês já fazem, se fazem dieta, atividade física, se não fazem nada, se vão começar com a gente, se já começaram, quais as dificuldades do início da dieta, quais as dificuldades do início da atividade física, o que é mais gostoso, o que é pior de fazer, quais as sensações de mudar os hábitos, o que isso melhorou na sua vida, quem cozinha pra você na nova dieta? Esse tipo de coisa!

Se for postar nas redes sociais, você pode colocar a hashtag #PorUmaVidaMaisSaudávelSobreRodas

Bóra começar?

Texto originalmente publicado no Blog Mãos pelos Pés, no Running News

14
maio

2

Reflexões sobre rodas: o que mudou depois de 6 meses de lesão medular

Primeiro eu pensei umas mil vezes antes de escrever esse post. Verdade seja dita, e pra quem me conhece desde antes do acidente e leu tudo que eu escrevia todo dia depois que saí da UTI, sabe que eu escrevia pra caramba. Depois parei. Depois retomei, falando sobre esportes adaptados, mas pouco sobre o que se passa aqui dentro.

Eu “escrevia na cabeça” alguns parágrafos. Mas não passava pro computador e esquecia o que e como iria dizer.

Então, na sexta-feira eu recebi uma mensagem assim: “eu estava vendo sua história(…). eu sofri um acidente de moto na Anhanguera faz 10 meses. Também estou sem andar,mas não tenho esse pique que você …me add para conversar mais..”. Fiquei pensando como eu poderia ajudar essa pessoa.

Até que um amigo compartilhou o texto publicado no blog no Jairo Marques, em janeiro (http://assimcomovoce.blogfolha.uol.com.br/2013/01/07/um-relato-de-otimismo-e-coragem/).

Eu li de novo e pensei: “Acho que devo escrever de novo, contando as novidades, após 6 meses de lesão”.

Assim, eis-me aqui, tentando costurar a colcha de retalhos de tudo que aconteceu desde que o texto do Jairo saiu. Vamos por partes (não farei a piadinha do Jack porque já está muito manjada).

Como todo mundo sabe, eu consegui ir pro Sarah! Depois da mobilização de geral de vários amigos, conseguimos o dinheiro pra viagem, eu e meus pais nos aventuramos pela capital. Continuei contando com a ajuda dos amigos enquanto estava lá. Os resultados foram satisfatórios, eu não tinha escara, nem frieira nem pereba, e consegui minha vaga. Fiquei internada no Sarah Centro 1 mês. Depois fiquei hospedada na casa da minha amiga Carla e frequentando o Sarah Lago Norte por mais 1 mês e meio. Lá fui muito feliz, fiz muitos amigos, fiz um monte de esportes e não queria mais voltar. Mas voltei!

Pronto! Minha vida sobre rodas está muito mais fácil. Minha amiga Tábata me emprestou a Ferrari vermelha dela, enquanto meu Porsche azul não chega (uma Tilite linda e leve que chegará na loja da Mobility Brasil em breve). A Ferrari é bem mais leve que o Fusquinha, a cadeira alugada que eu estava.

Eu já aprendi a empinar a cadeira. Outro dia fui empinar a cadeira na academia (o parágrafo da academia será escrito abaixo. Aguentem a ansiedade) e quase matei professores e alunos no coração. Eu devia ter filmado a cara deles! E devia ter filmado um dos professores, tentando empinar e quase caindo (melhor parte do treino foi a cara de desespero dele e nossas risadas depois). Degraus um pouco altos ainda são obstáculos pra mim. Eu não tenho força nas mãos pra subir, nem pra descer. Mas os baixos eu consigo!

E as mãos? Então…parágrafo à parte. Minhas mãos ainda estão fracas. Principalmente a esquerda. Meu dedo indicador esquerdo não serve pra nada. Nem dobrar ele dobra! Está ali pra deixar a mão bonita. Já é uma serventia! Falando em lado esquerdo do corpo, todo o meu lado esquerdo é mais comprometido que o direito. O bíceps é menor, o braço tem menos força, a perna é mais fina. Que lindo! Eu tenho cada lado de uma grossura no corpo! Tenho dois tamanhos e duas forças! Eu ia me comparar a algo, mas não achei nada de tamanha magnitude no universo pra comparar! =O Um lado é estilo “pelos poderes de Grayskull” e do outro lado é tipo “a ponte do rio que cai”. Mas ta bom. Pelo menos Deus conservou um pouco a mão direita e eu consigo escrever. Se eu escrever bem devagar, a letra até que sai bonita.

Mas eu não consigo, por exemplo, usar a tesoura, nem abrir garrafas de água, tampouco usar abridor de latas. Também não consigo segurar a jarra de suco, pra encher meu copo. Nem abrir latinha de refrigerante (ainda bem que não bebo refri há uns 6 ou 7 anos). Não consigo abrir embalagens, como de chocolate ou de chiclete, com as mãos. Eu, geralmente, uso a mão direita e a boca. E quando nem assim eu consigo, eu peço pra alguém.

Mas me maquiar eu consigo! Sim, continuo vaidosa. Tudo bem que a pele encheu de espinhas e o cabelo caiu uns 80%. Mas a pele está começando a limpar (e a maquiagem tampa o que ainda sobrou no rosto. Exceto quando estou na piscina. Ninguém vá me olhar na natação, por favor) e a cabeça está cheia de fios de cabelo novos, cuidadosamente mimados com uma vitamina e um tônico que eu ganhei de uma dermato que nada na raia ao lado. Eu continuo me besuntando de hidratante, pois a piscina resseca a pele pra caramba.

Falando de piscina, assumo! Virei lodinho! Eu faço natação 5 vezes na semana, treinos de uma hora e meia a duas horas de duração. Por mim, ficaria mais, mas os braços ainda não aguentam. Estou desenvolvendo força agora. Meu treinador, muito experiente e perceptivo, monta treinos específicos pra cada dia da semana. E já sabe quando eu fico cansada e não aguento mais de dor no ombro direito, que é o que eu forço mais (estamos trabalhando isso).

47997_603103279700362_1089406083_n

Chamem de baleia, peixa, golfinho, do que quiserem… Mas, descobri que, como não posso ser das pistas, eu sou uma mulher das águas. Eu sinto uma tremenda falta da canoagem (estou devendo o post da canoagem) e da vela. Ainda quero dar um jeito de encaixar isso na minha vida.

Vocês devem estar se perguntando: e as corridas? As corridas ainda me fazem sofrer e chorar! E muito! E sempre! Se eu disser que não, é mentira! Toda vez que estou na academia, e alguém reclama que odeia correr, que odeia a esteira, que odeia aeróbicos, eu olho bem pra cara da pessoa e digo: “me faz um favor? Pare de reclamar e vá logo pra esteira, porque eu daria tudo pra estar lá!”. Mas como quem vive de passado é museu, eu não fico pensando nisso o dia inteiro! Claro que ainda quero voltar pras corridas e pro triathlon. Pra isso, preciso da handbike, Eu e alguns amigos estamos atrás de patrocínio pra conseguir uma. Falta aparecer alguns empresários bonzinhos que querem deduzir minha handbike do imposto de renda deles.

Academia? Eu vou! Depois do treino de natação eu estou lá, firme e forte, puxando ferro, conversando, matando a saudade da galera…Sábado fui lá, com meu antigo treinador de corrida. Ele montou um treino funcional, para que consiga fortalecer o lado esquerdo do meu corpo (foi ele quem me chamou atenção, novamente, pra diferença de força nos braços) e para não lesionar os membros superiores do lado direito, já que faço mais força neles. E para fortalecer minhas costas! Elas não estão tão gelatina como antes, mas a lombar agora parece uma geleia de mocotó. Eu queria uma lombar estilo rapadura, pra ficar mais firminha…eu ainda pendo pros lados,como um pêndulo de relógio-cuco, em certos momentos. Como hoje, na academia. Encontrei duas ex-alunas que eu não via há 8 anos! Uma delas veio me abraçar de um lado e eu quase caí pro outro.

946975_610889052255118_198305228_n

Temperatura no corpo. Essa é uma coisa que melhorou um pouco. Pensem num mapa mundi. Antes meu corpo era o Mapa Mundi com todas as cidades do mundo (aqui eu sinto, 1 centímetro pra lá não, 2 pra cá sim). Agora você enxerga os estados de todos os países do mundo. Está um pouco mais agrupado…

Balada é uma coisa que não existe pra mim. Fui em uma, depois do acidente, pois era justamente uma das medidas de alguns amigos, pra arrecadar dindin e me ajudar a ir pro Sarah. Vou falar a verdade! Fiquei morta, acabada, destruída, por uns dois dias. E fui em uma, com minha amiga, em Brasília. Fiquei igualmente morta,acabada, destruída, não valia um real no dia seguinte!

Não tem jeito! Eu nasci pro esporte e é assim que quero ficar! É como me sinto bem e feliz!

Estou testando vários esportes diferentes, mesmo depois que saí do Sarah. Esse quesito é igual alimentação: experimentar é a alma do negócio. Só dá pra saber se gosta se você tentar, experimentar, testar. Não diga que não gosta se você nunca tentou. Lembro de um dia, era aula de basquete no Sarah e o professor disse: “Vamos aproveitar a presença de um paciente da seleção e jogar handball adaptado.” Ele disse que deu pra perceber na hora, pela minha cara, que eu não gostei (eu amava jogar basquete). Mas eu testei e amei. Pois, como tenho pouca força nas mãos e nos braços, marcar gol foi mais fácil que fazer uma cesta. Só depois de tentar é que eu tive a opinião formada.

Então, eu não devia ter feito careta (será que foi muito feia?) como as crianças fazem pros legumes, quando os veem pela primeira vez.

Eu ainda leio, escrevo, estou voltando a pintar…Mas todo o tempo que eu tenho, estou, preferencialmente, treinando, experimentando esportes novos, ou conversando com meus amigos. Nem sempre posso estar com eles pessoalmente, mas falo sempre por telefones ou internet.

Algumas pessoas, acabaram se afastando, por falta de tempo, por correria da rotina, porque não me encontram mais nos treinos de corrida ou razões diversas. Mas nem por isso deixo de ter gratidão por eles, pelo que fizeram nos momentos que eu mais precisava. Meus queridos amigos de verdade, continuam presentes, me apoiando de diversas maneiras. E eu procuro estar o mais presente possível na vida deles também, visto que amizade (como qualquer relacionamento) é uma via de mão dupla. Se você não se importa, não espere que a pessoa vai ficar correndo atrás de você pra sempre, pois não vai!

Ontem, depois de 6 meses do meu acidente, eu fui na casa da minha avó pela primeira vez. Alguns se lembram que era com eles que eu morava, quando me acidentei. Choramos muito, minha avó, meu avô e eu, por eu estar viva e estar ali com eles (apesar da escada enorme. Eu subi “de bundinha”, degrau por degrau, pois nem meu pai, tampouco meu avô, teriam forças pra me carregar ali).

Finalmente comi o “franguinho” da minha avó, que fazia parte do meu dia-a-dia, enquanto eu estava com eles (e trouxe um pouco pra comer na janta). Foi um dia muito emocionante pra mim. Também foi a primeira vez, em 6 meses, que eu saí de dentro da garagem (dessa vez no banco de trás do carro do meu avô) e fiz aquele trajeto. O mesmo trajeto que eu fazia todos os dias. O mesmo trajeto que eu fiz acelerando o carro com os pés, pela última vez. Minha avó falou a mesma coisa que me dizia todos os dias de manhã:”Coloca o cinto, chica”.

O cinto que salvou a minha vida! E eu fui olhando a estrada. E um filme passou pela minha cabeça…

Foi quando eu vi! As marcas que meu carro deixou na mureta de concreto na pista. Chorei muito na hora. E choro de novo agora, ao lembrar. Vi alguns pedaços do carro, ainda na grama. O que restou do carro, foi pro ferro-velho. Meu celular e meu computador, que estavam, respectivamente, na bolsa e na pasta, dentro do carro, já pararam de funcionar…

E eu estou aqui! Viva, inteira, renovada! Talvez um pouco mais quieta. Eu falo, brinco, rio, sorrio…Rio e sorrio muito, todos os dias, todos os momentos que posso! E gosto de fazer os outros rirem também! Porém, muita coisa eu guardo pra mim, aqui dentro da cachola (que não para um segundo) e do coração…Mas o que importa mesmo é que estou aqui, nadando muito, malhando muito, sorrindo muito, me divertindo muito, sonhando em voltar pras corridas..e viva!

E feliz!

Texto originalmente publicado no Blog  Mãos Pelos Pés, no Running News