01
set

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Finalmente triatleta!

Essa história começa há alguns anos. Pra ser mais exata, há 3 anos atrás! Pois é, antes do acidente eu já estava treinado pro triathlon. Eu nadei a vida toda. E quando comecei a correr, tinha parado de nadar há poucos meses. Nos últimos treinos de corrida, alguns amigos conseguiam bikes emprestadas pra eu poder treinar depois de correr. E a prova dos sonhos (uma das, porque eu sonho e não tenho miséria com isso) estava se aproximando… Mas eu sofri o acidente um mês antes, e o sonho foi por água abaixo.

Quando eu estava com 6 meses de acidente, já tinha voltado do Sarah e tudo, reunimos alguns amigos e, um deles, o mega triatleta Rafael Falsarella, sentou do meu lado e disse uma única frase que impregnou na minha mente até hoje.

Mais um ano se passou e, já nadando bastante, eu ganhei a handbike dos meus amigos de corrida. E pensei “o sonho não morreu!”. Já em contato com a equipe de Paratriathlon, no ano passado descobri que seria um pouco mais difícil do que eu imaginava, pois não tenho a cadeira de atletismo, necessária para a etapa de corrida. Desanimar? Jamais! Continuei treinando, né?!

Quando o paraciclismo entrou na minha, e eu fui pra equipe de Taubaté, sentei na cadeira de atletismo pela primeira vez na vida (o post da saga da Dani Horácio ta aqui http://daninobile.com.br/123-testando-cadeira-de-atletismo/ ). Aíííí, olha eu sonhando com o triathlon de novo!

Mas, como a minha paciência ta sendo testada, aprimorada, lapidada eeeee trollada depois da cadeira, a primeira prova de 2015 caiu no mesmo dia da Copa Brasil de Paraciclismo. E eu…não pude ir!! Como eu sempre digo, “tem pobrema, não”. Na hora, eu fiquei chateada, mas não era pra ser! Eu não ia dar conta dessa cadeira do mal no fim de um triathlon.20150823_072101

 

Mas, como quem espera sempre alcança, chegou o grande dia! Aaaaaaaaaeeeeeeeeeeeeee!!!!!!! Eu treinei por meses e meses pra nadar e pedalar no mesmo dia, e alguns dias ainda ia no parque tocar a cadeira. Mas nunca era um treino de transição, eram atividades separadas, com descanso, banho, comida (muita! a monstra aqui é boa de boca) no meio. Mas, eu fui com a cara e com a coragem. E começou a saga de “como buscar a cadeira de atletismo em Taubaté e ir, de busão, pra Caraguatatuba, com cadeira de rodas, cadeira de atletismo, handbike e mala..sozinha! Todo mundo sabe que eu sou meio doida e eu resolvi até que ia fazer duas viagens. Mas resolvi pedir ajuda no nosso grupo (santo whatsapp). A galera não mediu esforços e, graças aos contatos do nosso técnico, um triatleta top (que inclusive foi campeão geral da prova), o Guilherme Gil, se prontificou a levar a cadeira pra mim lá pra Caraguá. Graças a Deus e a ele, eu tinha 3 rodas a menos pra carregar!

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Booooooom, chega de enrolar! Vamos pra prova!

Parte 1 – natação: Que gelo aquele marzão! Mas eu estava tão nervosa que 5minutos depois nem lembrava mais. O pessoal do staff leva a gente em cadeiras anfíbias até metade do caminho pra largada. Depois já vamos nadando e ficamos lá esperando. Claaaro que eu sobrei sem cadeira, então um moço me carregou no colo (que chato). Assim que ele me colocou na água (fingindo que eu era levinha), o Tiago, paratleta de Caragua, ja me deu a mão e foi me carregando. Começaram a vir as primeiras ondas e eu lembrei que já estava de óculos (uso lente de pessoa mega míope) e enfiei a cabeça na água. Mew, que medo de só enxergar tudo marrom! Já faz mais de um ano da travessia que eu fiz. Eu sabia, mas nada como enfiar a cabeça na água e ter certeza que você vai enxergar só a sua mão ou nem isso. Vontade de fazer xixi e péééééé….deram a largada.  Deixei a galera top das galáxias ir na frente. Eu faria com calma.

Nadei meio metro e o óculos já embaçou. Eu nem conseguia ver a primeira bóia. Decidi grudar no caiaque, dar aquela lambida básica no óculos e vambora. Ainda perguntei pro moço do caiaque “eu sou a última?” (eu tinha certeza do “sim”) e, pra minha surpresa, ele disse “vocês dois”. Quem me conhece, sabe o que passou na minha cabeça nessa hora. E eu comecei a nadar enlouquecidamente. Mas só até colocar a cabeça pra fora pra respirar e toda a água do oceano Atlântico me entrar guela abaixo. Pára, né! Nada direito, mulher!  Apesar de o mar estar sujo e mexido, era mais raso do que esperava! Então, toda hora que eu perdia a  bóia de vista, era só me erguer ereta que eu não morria afogada. Na verdade, apesar de estarmos uns 500m mar adentro, dava pé!

Nessas horas, já tinham soltado mais uma bateria de atletas. O mar ficou lotado, mas quando fui da segunda pra terceira bóia, ficamos eu e mais duas pessoas. Essa parte foi a mais difícil, porque tínhamos que nadar na diagonal e a correnteza me levava pro outro lado. Mas eu estava tão feliz de estar conseguindo e só ter bebido água uma vez, que eu não sentia nenhum cansaço. Foi tão maravilhoso. E quando eu avistei a chegada da natação, só conseguia pensar “jura mesmo que eu estou aqui, na minha primeira e tão sonhada prova de triathlon?” . E foi com esse pensamento que eu saí  da água, sorrindo e feliz. E eu não fui a última a sair, como eu achava que aconteceria. Na verdade, já deixei minha casa com esse pensamento, pra não me frustrar. Mas fui surpreendida por mim mesma.

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Transição 1: Como era a primeira prova e eu não estava desesperada, demorei. Eu quis colocar tênis. Ainda bem, pois salvou meu pé na parte da bike. E quis prender bem o cabelo, pra não pegar na roda da hand e eu ficar careca na prova. Nisso, todos os meninos saíram da transição da bike. Como eu não tinha handler, apareceu um árbitro pra colocar meu pé no suporte da bike. Mas logo o Rodrigo (técnico de Caragua, que me ajudou muito na prova) veio correndo pra ajudar também. Partiu!

Parte 2 – ciclismo.Eu pensava em fazer os 20km em 1h. A primeira volta não foi fácil, confesso. Eu achei que essa seria a parte mais fácil, porque eu to mais acostumada. Como diria Chaves: ” que burra! Dá zero pra ela”.
Eram 3 voltas. Na primeira, minha perna esquerda deu muito trabalho! Batia no parafuso (igual a Golden Four). Eu não queria ficar roxa de novo, tentava arrumar e ela caía pro lado, pra fora. A faixa da perna chegou a sair 2 vezes.  Eu passei boa parte do tempo pedalando mal, tentando arrumar essa teimosa.

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A segunda volta foi bem melhor que a primeira. Nessa hora, alguns dos meninos cadeirantes  e alguns outros paratletas já estavam na corrida. Fiquei um pouco tensa com meu tempo, mas eu estava ali  pra terminar.

Nessa volta, também já havia algumas bikes convencionais na pista. Eu tentava ficar bem no cantinho pra não atrapalhar o pessoal que buscava pódios no geral. Como a segunda volta foi melhor, achei que a terceira seria molezinha.  Mas, como diz aquele ditado “fui surpreendida novamente”. Na curva do último retorno, não sei porque atá agora, mas eu caí. A curva era pra esquerda e eu caí pra direita, tamanho excesso de coordenação motora que eu tenho! Bati o braço direito no chão, a perna também. A perna esquerda bateu na hand e os pés, se não fossem os tênis, teria raspado no asfalto quente. Veio uma moça pra me levantar e eu ri e falei “calma, moça, sozinha você não consegue me desvirar”  e ri! Veio mais alguém, eles me desviraram, aquele monta de bike passando por mim e ela perguntou “sua perna já estava assim?” Eu olhei e tava tudo sangrando e ralado. Confesso que pensava que minha sensibilidade era melhor. Mas agradeci por não ter sentido dor naquela hora. A moça perguntou “Quer parar e limpar?” Ta doida, é? Ta louca, é? hahahaha  Eu não cantei isso pra ela, mas pensei. Só disse que não, que depois a gente via isso. Eu já tinha perdido tempo demais.

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Tentei terminar essa volta, mas já não estava mais concentrada. Tentava ir mais rápido, por causa do tempo que eu tinha programado. Mas eu fiquei meio mole depois da queda. Fechei o ciclismo 2minutos acima do que eu tinha me programado.

Transição 2: Aqui começou a burrice da criatura= eu. Assim que eu cheguei na transição, o Rodrigo e mais um professor de Caragua estavam lá pra me ajudar a transferir da hand pra cadeira de atletismo. Eu já tinha deixado um gel em cima da cadeira, pra tomar. Mas eu estava tão passada com a queda, que nem água eu beberia (apesar de ter deixado a garrafinha ali) se o Rodrigo não tivesse falado. Pensei em levar a garrafinha pra tomar um gel no percurso, mas ela caiu no chão quando eu fui sair da transição. Nessa hora, a cadeira também não saiu do lugar! O freio ficou preso. Pra minha sorte, o Mais Bonito Fernando Aranha veio, com ferramentas. Ele e o Rodrigo soltaram um pouco o freio e eu falei que iria daquele jeito mesmo. E fui, com freio enganchando, sem água e sem tomar gel.

Parte 3 – Corrida:
Eu sabia que aqui o bicho ia pegar. Mas não imaginei que fosse tanto.
Minha habilidade com essa cadeira é -5. Eu nao consigo respirar direito nessa posição. Eu sabia que já estaria cansada e o sol iria fritar meus miolos.
A primeira volta foi melhor do que eu esperava. Eu conseguia tocar a cadeira, os atletas convencionais e os poucos paratletas que ainda estavam na prova, me gritavam, me animando. As pessoas que assistiam também me gritavam.

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Porém, fui muito mirim e cometi o erro ridículo de não tomar nenhum gel na corrida. Isso quase me custou a prova! Eu pensava “quando tiver água eu tomo”. A água chegava e eu não tinha tempo de colocar o gel na boca, pegar água e tocar a cadeira. Nessas horas eu queria ser um polvo, mas só tinhas duas mãos. E uma já não é aquelas coisas. Eu pegava a água, bebia metade e jogava metade na cabeça. Eu não transpiro, por causa da lesão, e eu estava fervendo.

Nos últimos 500m eu via tudo preto. Fechei o olho e fui tocando a cadeira. Eu chorava e pensava “Eu vou mesmo terminar minha prova de triathlon?” “Meu sonho está tão perto. Eu vou mesmo conseguir”. Eu estava muito emocionada e isso não deve ter ajudado. Faltando 100m, e depois de novo nos 50m, eu quase desmaiei! Mas eu só pensava: “eu desmaio depois da linha de chegada! Eu vou terminar esse negócio!” Aquelas duas curvas, pelo amor de Deus! Nessa altura, o Hilton já estava do meu lado, ciente do meu estado, me animando. Quando eu avistei a linha de chegada, bem ali na minha frente, eu comecei a chorar de novo e tirei forças sabe deus de onde, pra tocar a cadeira com toda a força que eu ainda tinha e cruzar a linha de chegada!

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Sim, eu consegui! Realizei meu sonho! Não no tempo que eu gostaria, mas eu fiz! E ao cruzar a linha de chegada, eu senti a mesma coisa do dia que terminei a minha primeira prova de corrida: Eu quero fazer isso pro resto da minha vida!! Posso ter passado mal, por burrice minha, cansei, quase desmaiei, mas só  conseguia pensar o que penso agora: quando é a próxima?

Depois de cruzar a linha de chegada, o Hilton já me levou direto pra tenda, onde eu quase desmaiei de verdade. Já bebi um monte de água gelada, jogaram água na minha cabeça, tomei os 2 sachês de gel que estavam no bolso, colocaram gelo na minha nuca e nos pulsos. Além de ter comido e hidratado, o corpo esfriou na sombra e com o gelo em mim. Em poucos minutos eu estava melhor. Eu só conseguia abraçar o Hilton, o Frango e o Clehomens. Logo a Andrea trouxe minha cadeira e duas bananas. Graças a Deus eu tive ajuda dela e do Wagner pra levar minhas coisas de volta pra pousada (apesar de terem roubado minha touca, deixada na transição. Pelo menos não levaram os óculos de natação).

Logo, já chamaram meu nome pra premiação. E nesse dia, eu me tornei a primeira mulher cadeirante triatleta do Brasil!

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Não vou mentir pra vocês que eu estava uma pilha de nervos. E tenho que agradecer imensamente a TODOS  os paratletas que estavam ali e à equipe do Paratri. Ficamos todos na mesma pousada. Sumiu a braçadeira que segura a roda da minha hand (nunca tenho uma prova sem tensão com a minha filha), e o Frango foi caçar bicicletaria na cidade. Os meninos me ajudaram a montar as coisas. Dantas me dando várias dicas de mar. Motorzinho e um outro atleta ficaram até mega tarde, depois do congresso, montando a cadeira de atletismo comigo (que veio desmontada), a linda da Tamiris fez 800 viagens pra levar meus equipamentos pra transição, o mais bonito Aranha parou de almoçar pra buscar chaves pro Gil desmontar a cadeira. Fora o tanto de encorajamento, força, risada que rechearam meu final de semana. Todos da equipe do Paratri foram muito incríveis! Agradeço ao Rodrigo e aos meninos pela ajuda imprescindível nas transições. E a Andrea por me socorrer no final.

Nessa prova, também conheci muita gente legal, fiz várias amizades (até no banheiro do congresso, né Sophia!!), reatei amizades que estavam perdidas e recebi apoio de muita gente! Pessoas que eu conhecia, como  a Márcia, que tirou várias fotos minhas, mas de muitas pessoas que eu não conhecia, mas viam meu nome no número de peito e gritavam, aplaudiam, como que me empurrando no final. Esse apoio todo foi incrível, inesquecível e fundamental pra eu conseguir terminar a prova.

Tenho muito que melhorar, muito que treinar pra baixar meu tempo e muito que batalhar pra conseguir equipamentos melhores. Mas, apesar de todos os perrengues, eu realizei o meu sonho! Curti cada minuto de alegria e de dor. E vou te contar? Se fosse fácil, não teria tanta graça 🙂

 

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24
fev

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Minha primeira travessia

Dia 22 de fevereiro eu completei 1 ano e 4 meses de lesão. Pra comemorar, eu resolvi dar um tchibum e fazer minha primeira travessia.

A decisão foi tomada em cima da hora. Estava esperando um voo e vi uma notícia sobre a travessia, na quarta-feira. Na quinta, cheguei em casa e resolvi dar uma olhada melhor. Era o último dia pra inscrição, pra prova que seria em 9 dias. Eu estava precisando de algo que me fizesse sair da areia movediça e que também me levasse de volta às piscinas. Apesar de estar há 4 meses sem treinar, fiz a inscrição. E seja o que Deus quiser!

Treinei 5 dias e descansei na véspera. Na noite da prova, fui deitar cedo. Acordei de madrugada pra ir ao banheiro e…meu celular desligou e não ligava mais! Ai jisuisis! Fiquei uma hora tentando religá-lo e “o resto das horas que me restavam” de sono, vigiando o celular pra ver se não ia desligar e me fazer perder a hora. Saí da cama 4h! Esperei a turma passar aqui pra me buscar e lá fomos nós. No caminho, de Ribeirão à Campinas, tentei descansar, mas não rolou. Chegamos lá, tudo é festa. Adrenalina a mil.

1969319_10203440773126280_1251823860_n 1002650_10203440775966351_59321459_nA Ju foi “pintar”  meu braço (ela usou outro termo. Acho que foi tatuar..Mas como boa iniciante, eu não me lembro!).Eu e a Amanda, minha amigona, também iniciante em travessia, bem animadinhas, posando com nossos números. E eu tava doidinha pra entrar na água. No meio daquela galera toda, vi alguns malacabados. Tinha cadeirante, amputado, deficiente visual, gente como a gente, de todo tipo.

1622260_10203440777446388_447690483_nMinutos antes da largada, alguns de nós nos reunimos no píer, pra esperar ajuda. Sim, pois a largada era no meio do barranco de terra. Depois da chegada, tinha uma escada. Como nossas cadeiras e muletas precisavam ficar na chegada, eles nos desciam pelas escadas e, depois, nos subiam. Mas o pessoal da organização estava preparado pra isso. Na hora de descer, o moço perguntou meu peso. Quando eu disse, ele riu “Levinha, tipo um saco de cimento.” Fiquei esperando ele me jogar no ombro, mas ufa! Não aconteceu!

Minha prova era às 8:30. A do Rodrigo e da Ju era 10:30. Eu ria e pensava “Tenho 2horas pra completar. Beleza.” Bóra, entrar na água!1970612_10203440780846473_279375328_n

Nadávamos até a largada e esperávamos por ali. A largada da nossa turma era junto com o juvenil. Uma garota cadeirante me perguntou se eu ia largar no meio da muvuca. Lóóógico que não. Deixa o povo ir. Eu vim pra completar! To sem pressa. Apitaram! A primeira coisa que eu pensei foi: “O que é que eu to fazendo aqui mesmo?”.

1970581_10203440784006552_1415179959_n Beleza, olhei pra um lado, olhei pro outro. A maioria já foi. Agora eu vou. Dei umas dez braçadas e ganhei uma pesada na cara, de um menininho. Ah, que sensação  indescritível do pré-afogamento a uns 5 metros da largada. Beleza. Cabeça pra fora, dei uma olhada, se eu fosse mais pra direita, eu saía do meio do povo. Não adiantou muito, tinha tanto pé na minha frente, que eu fiquei meio atrapalhada e perdi aquele pique do começo. Mas tudo bem. Lá fui eu.

A primeira bóia parecia que não chegava nunca. Eu parei pra descansar umas duas vezes, boiando, mas continuava nadando de costas. Até que, depois de uma eternidade, que parecia meia hora (mas depois descobri que foram apenas alguns minutos), eu cheguei na primeira bóia. E quem disse que eu enxergava a segunda? Sol na cara, ansiosa, o fluxo de nadadores na minha frente diminuiu e meu óculos cheio de gotículas. O moço do caiaque chegou perto. Eu segurei nele, tirei o óculos e enxerguei a bóia. Ele olhou pra mim e disse: “Se você não estiver bem, você me chama que o barco vem e te leva de volta.” E eu disse:”Moço, você ta maluco? Eu vim pra terminar, não importa em quanto tempo.”  Olhei em volta e disse pra ele: “Eu to ficando muito pra trás. Que vergonha.” E ele olhou bem pra mim e falou uma coisa, que era o que eu sempre disse, mas o cansaço não me deixou raciocinar na hora: “Vergonha seria se você tivesse ficado em casa, no sofá.”

Lá fui eu, mirei a segunda bóia e bóra. Juro, juro pra vocês que eu delirava tanto, que eu achava que enxergava o fundo, bem pertinho de mim. Que doidera. Aí eu percebi que o “meu fundo” seguia um padrão, como se tivesse uma pedrinha a cada 10 respirações. Devia ser alucinação, falta de água bebível , sol na cabeça, sei la. Beleza. Mirei a próxima bóia, mas ninguém estava indo pra ela. Fui perguntar pros moços dos botes/caiaques..E vi que não tinha ninguém por perto. Fui nadando. Um tempão depois surge um moço, fazendo uma marola pra quase me afogar. Ele disse que era pra passar à esquerda daquela bóia e mirar a chegada. Vixi! A chegada ta longe pra caramba. O moço do caiaque tinha dito que a volta era mais fácil, porque a correnteza ajudava. Que correnteza? Acho que na minha vez ela cansou de trabalhar!

Então, depois de já ter parado pra descansar um total de  5 ou 6 vezes na prova, decidi ir até o fim sem parar. Não sabia como fazer isso, porque faltava cerca de 1/4 da prova (eu acho! Veja bem, eu já tinha tomado muito sol na cabeça e achava que já estava nadando há mais de 1hora, quando não devia fazer nem 20 minutos, de acordo com meu tempo final. Então, não dá pra confiar muito na minha noção de distância).

Quanto mais perto da chegada eu chegava, menos vontade de parar eu sentia, mas também tava cansada pra burro. Quando começou a ter bastante gente na margem, eu só conseguia ouvir gritos animados : “Vai Dani” “Força Dani” “Vamo Dani”. Era a Ju. Ela nem sabe o tanto que me ajudou naquele momento.

1780622_10203440786606617_895058504_nAté que enfim, depois do que eu achei que fossem as tais 2horas depois, mas não era nem meia hora, eu cheguei! Morrendo, olha a cara da pessoa! Mas eu consegui a sensação que eu tanto buscava. Aquela sensação, de apesar de estar passando por um momento complicado na minha vida, ter conseguido superar mais um desafio. A sensação de transpor mais um limite. A sensação de realizar um sonho, do qual eu vinha falando desde que eu estava no Sarah no ano passado. A sensação de estar cada vez mais perto do triathlon. Aquela adrenalina e toda  a endorfina, correndo no corpo inteiro. E não vou negar. Quando me sentaram na cadeira, e o Rodrigo e a mãe da Ju vieram me dar os parabéns e me ajudar, eu só conseguia chorar e repetir “Eu consegui! Eu não acredito que eu consegui!”

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