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Panamericano de Paratriathlon – Parte 2

Vamu lá, meu polvo e minha polva. Depois de tomar coragem e contar tudim pra vocês sobre o Panamericano do ano passado (antes tarde do que nunca), vamos falar sobre a prova desse ano.

Em agosto do ano passado, na primeira etapa do Campeonato Brasileiro de 2016, eu já tinha conseguido diminuir aqueles malditos 6 minutos do Panamericano e mais 2. Mas a prova era totalmente plana, então eu não estava com plena certeza de que eu manteria esse tempo numa prova cheia de subidas. E uma coisa que eu posso ter certeza é que nunca devemos ter certeza de nada. Como bem diz a Bíblia em Eclesiastes: o tempo e o  imprevisto sobrevém a todos (que o diga Vanderlei Cordeiro de Lima).

Verdade seja dita, eu não estava muito confiante na natação. Essa coisa do ir e vir pra Porto Alegre fez com que eu treinasse mais hand e mais cadeira, mas nadasse menos no frio. Com isso, meus tempos nos tiros de 50m e 100m pioraram consideravelmente.

Ainda assim, consegui fazer com que a roupa de borracha fosse uma aliada. No caminho pro Challenge de 2016, paramos numa loja  e compramos uma roupa sem mangas e menos apertada pra mim. O defeito dela é que é short (pernas curtas, como shorts mesmo), não long (pernas longas, tipo calça). Então, protege meus órgãos da água fria, mas não as pernas lá onde me causa dor neuropática. Mas, compramos no tamanho certo pra sair mais fácil do corpo (assim não preciso rolar na grama na transição, tipo um croquete sendo empanado). E por não ter mangas, me sufoca menos (não totalmente, mas menos) no pescoço e peito.

Nos treinos de transição em Porto Alegre, o Márcio começou a me acompanhar de bike. Isso me ajudou muito. Verdade seja dita, treinar sozinha é um saco furado hahaha. Ele ir comigo pedalar e correr era ótimo! Além disso, um casal de amigos  e atletas (ele vai fazer o Iron esse ano) começou a ir com a gente alguns finais de semana. Isso também é um incentivo a mais. E ela ajudava bastante, me puxando, e eu não podia reclamar tanto quanto reclamo quando tá só o Márcio :p

A viagem pra prova foi mega cansativa. O voo que deu pra pagar nos fez viajar muitas horas, pois tinha muitas paradas. Da hora que chegamos ao aeroporto aqui até a hora que chegamos na pousada em Sarasota (Flórida), levamos 29horas. Isso foi na quinta-feira. A prova seria sábado.

Dormimos cedo e até 8h da manhã de sexta. Saímos pra comer e, Márcio, Leo (outro atleta que dividiu o carro, as risadas e a companhia conosco) e eu, fomos pra minha reclassificação funcional.  Após as Paralimpíadas, a ITU decidiu fazer algumas mudanças nas categorias dos atletas de Paratriathlon. A reclassificação do Leo foi quinta, mas ele foi com a gente na minha. Amigo é amigo.

Saindo dali, foi o reconhecimento de percurso. A prova é no Nathan Benderson Park, com o percurso dentro e em volta do lago. Primeiro fomos pra  bike, e o Leo quis ir comigo. Não sei porque, a gente anda num sentido na sexta, mas a prova do sábado é no sentido contrário (acho que tem a ver com o trânsito fechado e quantidade de policiais pra fazer nossa segurança). Assim, não deu pra sentir a subida do ciclismo. Mas deu pra lembrar dela quando descemos ali, enquanto o Leo, atleta mais experiente que eu, dividia altruistamente comigo seus conhecimentos sobre pedal no contra vento . Na sexta pegamos vento em alguns trechos,  no sábado seria no sentido oposto, mas teria vento do mesmo jeito.

Saindo do ciclismo, era o reconhecimento da água. Eita nóis! Eu tava tremendo na base. Colocamos minha roupa de borracha e fomos pro píer. A água já estava cheia de paratletas  e atletas do convencional, que fariam sua prova antes da nossa, na manhã seguinte. Sentei ao lado do Aranha, mas ele nem sabia que eu queria um apoio moral e foi pra água. As outras meninas do Brasil também foram. Todo mundo já entra na água e sai nadando, porque ali é bem fundo e bem gelado. Mas eu pedi pro Márcio ficar ali perto. Fiquei dentro da água gelada, segurando no píer. Comecei a fazer os exercícios de respiração que o Juliano Pereira me ensinou e saí pra nadar. Até pensei em alcançar as meninas brasileiras que estavam bem ali. Mas pensei que tinha que ir no meu ritmo, e no meu tempo. Comecei tranquila. Mentira. Tava tranquila nada. Comecei a nadar e já deu aquele pavor e a falta de ar. Parei de nadar, coloquei a cabeça pra fora, respirei nadando cachorrinho e continuei. Se tinha um dia pra ir devagar, era hoje. Aquele trem daquela roupa me sufocando. Eu só repetia “calma, Danielle”. Devagar e sempre, cheguei na primeira bóia. Tinha duas pessoas ali, conversando. Parei pra respirar e olhar em volta. Parei pra me acalmar, mesmo. Eu tinha ainda a segunda boia e só depois começar a voltar. Fiquei com receio de chegar muito depois de todo mundo. Sabe como é, aquele medinho de ficar na água sozinha, não por ser a última, mas por ficar na água sozinha. Decidi voltar por onde eu vim. Hoje não era a prova e não havia problema nenhum nisso. No meio do caminho, veio um grupo no sentido contrário. Acho que eram uns 4 meninos. Mas não sei se eram paratletas ou do convencional. Aí, cheguei no píer e chamei o Márcio, que estava me esperando do outro lado, por onde todo mundo estava indo. Ufa, acabou! Saí da água. Pausei o relógio e vi que nadei 500m, contra os 50m do ano passado.

Troquei de roupa no carro (não havia outra opção. Eu praticamente fiquei parada e o boy me trocou, mas não contem pra ninguém) e fomos pro congresso técnico. Do outro lado do parque, tem um shopping. Comi o lanche (wrap de frango)  que tínhamos comprado lá.  Depois do congresso fomos pro hotel descansar. Apesar de nossa prova ser à tarde, eu não podia dormir tarde e correr o risco de acordar cansada.

No dia seguinte, acordei tranquila. Tínhamos tempo e o Léo precisava de ajuda para comprar alguns presentes pros filhos dele. Sim, ainda tive cabeça pra me distrair vendo as coisas dele. Comprei um wrap igual ao do dia anterior e fui pro parque comendo. Mas não consegui comer o lanche inteiro. Já tava um pouco ansiosa. “Mas, Dani, você não almoçou antes da prova?”. Por acaso alguém consegue bater um pratão de comida de manhã, antes de uma prova? É a mesma coisa, gente. Só mudou o horário. Eu não podia correr o risco de comer um pratão e vomitar no meio da prova. Já pensaram, que mico? Hahaha

Sempre antes da prova, há uma checagem no local da retirada do chip. Eles olham nosso capacete, o número colocado nos dois braços e nas pernas, o número na handbike e na cadeira de corrida, olham nosso macaquinho (se tudo que está escrito nele – nome do atleta, país, patrocinadores – segue as regras da ITU). Já com o chip na handbike e no meu tornozelo, preparamos a transição. Nossa largada é em ondas e  antes da primeira onda, todos devem sair da área de transição.

O sol tava castigando e eu estava com bastante medo de passar mal ali naquela espera. Todo mundo sabe que eu não transpiro e, se ficar no sol direto, posso ferver e até desmaiar. Eu e o boy procuramos uma sombra e ficamos ali por uns 20min. De volta pra largada eu tive 10minutos pra ficar nervosa. Nesses 10, fiquei conversando com o Márcio e ele me motivando e me acalmando. Por isso eu digo que, se você fica nervoso demais, é ótimo ter alguém por perto que te ajude e a focar na prova.

Quando eu menos esperava, começaram a chamar nossos nomes, pra nos dirigirmos ao píer. Funciona assim: a gente vai de cadeira até o píer, senta no chão com os pés na água (gelada). Aí tiram nossa cadeira dali e já levam pra saída da água. A largada dos cadeirantes também era em ondas. Masculino H1, Feminino H1 (a minha classe), Masculino H2 (a classe do Aranha) e Feminino H2 (nessa prova só havia meninas H1). 1 minuto de diferença entre as largadas. Não dá tempo pra pensar. Todos desejaram em voz alta “boa prova, gente”. E começaram os apitos.

Quando foi nossa vez, a americana se jogou na água e partiu. Já fez uma bela diferença com relação a mim.  Se eu me trucidasse, ainda conseguia alcança-la. Mas, pensei “pra que? Ela é mais rápida que eu na bike e na corrida. Eu vou me trucidar pra alcança-la, pode ser que eu não consiga e ainda vou sair da água podre.” Decidi fazer a minha prova. Olhar pra mim! Mas quando estava respirando, bem vi um dos caras da Federação Brasileira lá na beirada da água, acompanhando a mim, e ao Aranha, que largou 1minuto depois e já tava me alcançando (ele é foda! Um puta atleta). Aí eu queria nadar bonito hahahaha Desliguei a chavinha do pavor e fui. Quando cheguei na primeira bóia, eu ia ultrapassar um menino e ele simplesmente parou de nadar. Isso me quebrou. Pq eu tive que parar também pra não trombar com ele, já que ele cortou a minha frente. Ele disse algo sobre a perna dele. E eu vi que ele estava nadando pro lado contrário. Depois da prova fui um pouco criticada por ter perdido alguns segundos nessa hora. Mas eu perguntei se ele precisava de ajuda e disse que ele estava indo pro lado errado e pra ele me seguir. Aí, fui embora… Parecia que a terceira bóia não chegava nunca! Mas chegou e eu saí da água. Nessa hora, a gente nem vê o que acontecendo. Eu só sentei na cadeirinha e os fiscais começaram a me tirar da água. Ele já colocam a gente sentado na nossa cadeira de rodas. Eu também não vi, mas o Márcio já tava atrás de mim, puxando minha roupa de borracha pra baixo.

Da natação até a área de transição, temos que tocar nossa cadeira sem ajuda. Na grama. Adivinha o que aconteceu? Caí! De quatro! Bem bonita com o bundão pra cima e as mãos na terra. Gritei o Márcio. Ele voltou correndo, me botou na cadeira e eu entrei na transição. Aí ele me disse “Corre! Você saiu da água na frente de alguns homens.” Eita! Sério, gente? Então corre.

Mas, o ciclismo já começa com subida  pra sair da transição e eu não sabia nem cadê meus braços. Sobe e entra na pista que contorna o parque. Aí sobe de novo e desce, faz umas curvas e…um que tava atrás de mim já me passou. Fiquei pensando nas brincadeiras que eu fazia nos treinos de rua, quando eu mirava em alguém que tava na minha frente e tentava alcançar a pessoa. Decidi que iria fazer isso com ele. E fui atrás dele dando meu melhor, até no contra vento. Aí chegou aquela subida, pra terminar a primeira volta. E ele foi embora e eu fiquei. Na segunda volta, no mesmo ponto em que ele me ultrapassou na volta anterior, olhei pro garmin no pulso e vi que minha velocidade tinha caído. Pensei “Que isso? Ta maluca? Essa é a prova da sua vida.”

Na reta antes da subidona, fiquei pensando que não tinha visto a americana passar por mim, como no ano passado. Ou eu tava muito bem, e não era retardatária, ou eu tava muito mal. Dito e feito, ela me passou bem nessa hora. Deu um grito tipo “Go Danielle” e terminou o ciclismo dela. Eu ainda tinha mais um volta. Nessa última, eu só pensava “se mata, se vira.” No contravento era “ta esperando o que, franga?” Pedalei enlouquecida porque essa prova era tudo ou nada. E conforme eu acompanhava as parciais no Garmin, nem acreditava que eu ia conseguir fazer aquele tempo. Foi o melhor pedal da minha vida e eu entrei pra transição muito feliz!

A transição pra corrida foi muito rápida. O Márcio solta meus pés, me pega no colo pra me tirar da hand e já me coloca na cadeira. Enquanto ele amarra meus pés, eu coloco as luvas.

Eu saí muito empolgada, fazendo as contas meio que de cabeça, somando os tempos que via no relógio, da natação, da bike e das transições. Eu fui pra prova querendo fazer em 1h55. No meu sonho mais dourado eu queria fazer 1h50.  Mas pelos meus cálculos, eu tinha bastante tempo pra correr e fazer isso. E eu estava empolgadíssima, então ia ser demais.

Minha empolgação durou apenas 1 minuto! Pra corrida, você sai da transição já numa curva. Anda uns 30metros (ou menos) e já tem uma subida animal. Pra vocês terem uma ideia, quando fui tentar virar a roda da frente da cadeira, que ia bater na grade, como eu não dei uma mega impulso pra frente, a cadeira parou e começou a descer. E ali, eu quebrei. Tem que fazer muito esforço pra subir aquela ladeira do pico do Everest. E eu não treinei subida e me fu…

A corrida inteira é subida. Sobe e desce e sobe, sobe, sobe. Só isso. Quando tem uma descida pra aliviar, depois dela tem a mesma subida e a vida acaba. Pra piorar, tem só um ponto de água. Quando passei na ida, avisei o mocinho que queria água na volta. E na volta, o bonito tava la, belo e formoso sentado dentro da tenda. Eu gritei “água, água, por favor”. Ele pegou e, quando foi me entregar (atrasado), não teve a capacidade de andar mais rápido pra me dar a garrada. Tive que parar e virar pra trás pra pegar. Isso quebra o ritmo. E depois disso tinha… tcham tcham tcham tcham.. mais subida! Resumo da ópera: passei a corrida olhando pro garmin de km em km pra ver meu pace e calcular.

Mas, tudo que sobe, desce. Depois que eu trombei com o último cone da curva, desci aquela subida do início, fiz a curva e… vi o pórtico de chegada! Passei por ele e pausei o garmin. 1h48 cravado! E terminei em 2º lugar. Bem melhor que o meu sonho mais profundo. Só chorei. De alívio. De alegria. De dever cumprido. De endorfina. De realização pessoal. De ter baixado 18min do tempo do ano anterior. Foi maravilhoso. O Márcio até comentou que, quando eu saí pra correr, ele achava que eu ia fazer 1h45. Mas eu não treinei subida. E isso é mais um aprendizado pra mim, pra eu poder melhorar.

Aí, veio a hora mais feliz, a hora do pódio. A hora que passa o filme na nossa cabeça. A hora que só tenho a agradecer ao Márcio, por ter a paciência de me levar pra treinar, por ter ido comigo (ele paga a própria viagem), por ser um ótimo handler (nossa T2 foi mais rápida que a da americana), por ser um companheiro tão maravilhoso. Agradecer aos meus patrocinadores (Acquaflora, São Francisco Saúde, Manipularium, Companhia Athlética, Biaggio Calçados), pois sem a ajuda deles, sem que eles tivessem acreditado em mim, eu não conseguiria nem ter ido pra prova. Agradecer ao meu treinador, Rafael Falsarella, por esse 1 ano de parceria. Agradecer às empresas que me apoiam de alguma forma (com desconto, ou produtos). E agradecer a vocês, por estarem sempre comigo, me apoiando, me ajudando, me motivando.

O que ganhei com essa prova? Experiência, amadurecimento, aprendizagem. E uma vaga pro Mundial de Paratriathlon. Agora eu preciso do que? Patrocínio e treino. Muito treino! Quem vem comigo?