14
maio

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Reflexões sobre rodas: o que mudou depois de 6 meses de lesão medular

Primeiro eu pensei umas mil vezes antes de escrever esse post. Verdade seja dita, e pra quem me conhece desde antes do acidente e leu tudo que eu escrevia todo dia depois que saí da UTI, sabe que eu escrevia pra caramba. Depois parei. Depois retomei, falando sobre esportes adaptados, mas pouco sobre o que se passa aqui dentro.

Eu “escrevia na cabeça” alguns parágrafos. Mas não passava pro computador e esquecia o que e como iria dizer.

Então, na sexta-feira eu recebi uma mensagem assim: “eu estava vendo sua história(…). eu sofri um acidente de moto na Anhanguera faz 10 meses. Também estou sem andar,mas não tenho esse pique que você …me add para conversar mais..”. Fiquei pensando como eu poderia ajudar essa pessoa.

Até que um amigo compartilhou o texto publicado no blog no Jairo Marques, em janeiro (http://assimcomovoce.blogfolha.uol.com.br/2013/01/07/um-relato-de-otimismo-e-coragem/).

Eu li de novo e pensei: “Acho que devo escrever de novo, contando as novidades, após 6 meses de lesão”.

Assim, eis-me aqui, tentando costurar a colcha de retalhos de tudo que aconteceu desde que o texto do Jairo saiu. Vamos por partes (não farei a piadinha do Jack porque já está muito manjada).

Como todo mundo sabe, eu consegui ir pro Sarah! Depois da mobilização de geral de vários amigos, conseguimos o dinheiro pra viagem, eu e meus pais nos aventuramos pela capital. Continuei contando com a ajuda dos amigos enquanto estava lá. Os resultados foram satisfatórios, eu não tinha escara, nem frieira nem pereba, e consegui minha vaga. Fiquei internada no Sarah Centro 1 mês. Depois fiquei hospedada na casa da minha amiga Carla e frequentando o Sarah Lago Norte por mais 1 mês e meio. Lá fui muito feliz, fiz muitos amigos, fiz um monte de esportes e não queria mais voltar. Mas voltei!

Pronto! Minha vida sobre rodas está muito mais fácil. Minha amiga Tábata me emprestou a Ferrari vermelha dela, enquanto meu Porsche azul não chega (uma Tilite linda e leve que chegará na loja da Mobility Brasil em breve). A Ferrari é bem mais leve que o Fusquinha, a cadeira alugada que eu estava.

Eu já aprendi a empinar a cadeira. Outro dia fui empinar a cadeira na academia (o parágrafo da academia será escrito abaixo. Aguentem a ansiedade) e quase matei professores e alunos no coração. Eu devia ter filmado a cara deles! E devia ter filmado um dos professores, tentando empinar e quase caindo (melhor parte do treino foi a cara de desespero dele e nossas risadas depois). Degraus um pouco altos ainda são obstáculos pra mim. Eu não tenho força nas mãos pra subir, nem pra descer. Mas os baixos eu consigo!

E as mãos? Então…parágrafo à parte. Minhas mãos ainda estão fracas. Principalmente a esquerda. Meu dedo indicador esquerdo não serve pra nada. Nem dobrar ele dobra! Está ali pra deixar a mão bonita. Já é uma serventia! Falando em lado esquerdo do corpo, todo o meu lado esquerdo é mais comprometido que o direito. O bíceps é menor, o braço tem menos força, a perna é mais fina. Que lindo! Eu tenho cada lado de uma grossura no corpo! Tenho dois tamanhos e duas forças! Eu ia me comparar a algo, mas não achei nada de tamanha magnitude no universo pra comparar! =O Um lado é estilo “pelos poderes de Grayskull” e do outro lado é tipo “a ponte do rio que cai”. Mas ta bom. Pelo menos Deus conservou um pouco a mão direita e eu consigo escrever. Se eu escrever bem devagar, a letra até que sai bonita.

Mas eu não consigo, por exemplo, usar a tesoura, nem abrir garrafas de água, tampouco usar abridor de latas. Também não consigo segurar a jarra de suco, pra encher meu copo. Nem abrir latinha de refrigerante (ainda bem que não bebo refri há uns 6 ou 7 anos). Não consigo abrir embalagens, como de chocolate ou de chiclete, com as mãos. Eu, geralmente, uso a mão direita e a boca. E quando nem assim eu consigo, eu peço pra alguém.

Mas me maquiar eu consigo! Sim, continuo vaidosa. Tudo bem que a pele encheu de espinhas e o cabelo caiu uns 80%. Mas a pele está começando a limpar (e a maquiagem tampa o que ainda sobrou no rosto. Exceto quando estou na piscina. Ninguém vá me olhar na natação, por favor) e a cabeça está cheia de fios de cabelo novos, cuidadosamente mimados com uma vitamina e um tônico que eu ganhei de uma dermato que nada na raia ao lado. Eu continuo me besuntando de hidratante, pois a piscina resseca a pele pra caramba.

Falando de piscina, assumo! Virei lodinho! Eu faço natação 5 vezes na semana, treinos de uma hora e meia a duas horas de duração. Por mim, ficaria mais, mas os braços ainda não aguentam. Estou desenvolvendo força agora. Meu treinador, muito experiente e perceptivo, monta treinos específicos pra cada dia da semana. E já sabe quando eu fico cansada e não aguento mais de dor no ombro direito, que é o que eu forço mais (estamos trabalhando isso).

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Chamem de baleia, peixa, golfinho, do que quiserem… Mas, descobri que, como não posso ser das pistas, eu sou uma mulher das águas. Eu sinto uma tremenda falta da canoagem (estou devendo o post da canoagem) e da vela. Ainda quero dar um jeito de encaixar isso na minha vida.

Vocês devem estar se perguntando: e as corridas? As corridas ainda me fazem sofrer e chorar! E muito! E sempre! Se eu disser que não, é mentira! Toda vez que estou na academia, e alguém reclama que odeia correr, que odeia a esteira, que odeia aeróbicos, eu olho bem pra cara da pessoa e digo: “me faz um favor? Pare de reclamar e vá logo pra esteira, porque eu daria tudo pra estar lá!”. Mas como quem vive de passado é museu, eu não fico pensando nisso o dia inteiro! Claro que ainda quero voltar pras corridas e pro triathlon. Pra isso, preciso da handbike, Eu e alguns amigos estamos atrás de patrocínio pra conseguir uma. Falta aparecer alguns empresários bonzinhos que querem deduzir minha handbike do imposto de renda deles.

Academia? Eu vou! Depois do treino de natação eu estou lá, firme e forte, puxando ferro, conversando, matando a saudade da galera…Sábado fui lá, com meu antigo treinador de corrida. Ele montou um treino funcional, para que consiga fortalecer o lado esquerdo do meu corpo (foi ele quem me chamou atenção, novamente, pra diferença de força nos braços) e para não lesionar os membros superiores do lado direito, já que faço mais força neles. E para fortalecer minhas costas! Elas não estão tão gelatina como antes, mas a lombar agora parece uma geleia de mocotó. Eu queria uma lombar estilo rapadura, pra ficar mais firminha…eu ainda pendo pros lados,como um pêndulo de relógio-cuco, em certos momentos. Como hoje, na academia. Encontrei duas ex-alunas que eu não via há 8 anos! Uma delas veio me abraçar de um lado e eu quase caí pro outro.

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Temperatura no corpo. Essa é uma coisa que melhorou um pouco. Pensem num mapa mundi. Antes meu corpo era o Mapa Mundi com todas as cidades do mundo (aqui eu sinto, 1 centímetro pra lá não, 2 pra cá sim). Agora você enxerga os estados de todos os países do mundo. Está um pouco mais agrupado…

Balada é uma coisa que não existe pra mim. Fui em uma, depois do acidente, pois era justamente uma das medidas de alguns amigos, pra arrecadar dindin e me ajudar a ir pro Sarah. Vou falar a verdade! Fiquei morta, acabada, destruída, por uns dois dias. E fui em uma, com minha amiga, em Brasília. Fiquei igualmente morta,acabada, destruída, não valia um real no dia seguinte!

Não tem jeito! Eu nasci pro esporte e é assim que quero ficar! É como me sinto bem e feliz!

Estou testando vários esportes diferentes, mesmo depois que saí do Sarah. Esse quesito é igual alimentação: experimentar é a alma do negócio. Só dá pra saber se gosta se você tentar, experimentar, testar. Não diga que não gosta se você nunca tentou. Lembro de um dia, era aula de basquete no Sarah e o professor disse: “Vamos aproveitar a presença de um paciente da seleção e jogar handball adaptado.” Ele disse que deu pra perceber na hora, pela minha cara, que eu não gostei (eu amava jogar basquete). Mas eu testei e amei. Pois, como tenho pouca força nas mãos e nos braços, marcar gol foi mais fácil que fazer uma cesta. Só depois de tentar é que eu tive a opinião formada.

Então, eu não devia ter feito careta (será que foi muito feia?) como as crianças fazem pros legumes, quando os veem pela primeira vez.

Eu ainda leio, escrevo, estou voltando a pintar…Mas todo o tempo que eu tenho, estou, preferencialmente, treinando, experimentando esportes novos, ou conversando com meus amigos. Nem sempre posso estar com eles pessoalmente, mas falo sempre por telefones ou internet.

Algumas pessoas, acabaram se afastando, por falta de tempo, por correria da rotina, porque não me encontram mais nos treinos de corrida ou razões diversas. Mas nem por isso deixo de ter gratidão por eles, pelo que fizeram nos momentos que eu mais precisava. Meus queridos amigos de verdade, continuam presentes, me apoiando de diversas maneiras. E eu procuro estar o mais presente possível na vida deles também, visto que amizade (como qualquer relacionamento) é uma via de mão dupla. Se você não se importa, não espere que a pessoa vai ficar correndo atrás de você pra sempre, pois não vai!

Ontem, depois de 6 meses do meu acidente, eu fui na casa da minha avó pela primeira vez. Alguns se lembram que era com eles que eu morava, quando me acidentei. Choramos muito, minha avó, meu avô e eu, por eu estar viva e estar ali com eles (apesar da escada enorme. Eu subi “de bundinha”, degrau por degrau, pois nem meu pai, tampouco meu avô, teriam forças pra me carregar ali).

Finalmente comi o “franguinho” da minha avó, que fazia parte do meu dia-a-dia, enquanto eu estava com eles (e trouxe um pouco pra comer na janta). Foi um dia muito emocionante pra mim. Também foi a primeira vez, em 6 meses, que eu saí de dentro da garagem (dessa vez no banco de trás do carro do meu avô) e fiz aquele trajeto. O mesmo trajeto que eu fazia todos os dias. O mesmo trajeto que eu fiz acelerando o carro com os pés, pela última vez. Minha avó falou a mesma coisa que me dizia todos os dias de manhã:”Coloca o cinto, chica”.

O cinto que salvou a minha vida! E eu fui olhando a estrada. E um filme passou pela minha cabeça…

Foi quando eu vi! As marcas que meu carro deixou na mureta de concreto na pista. Chorei muito na hora. E choro de novo agora, ao lembrar. Vi alguns pedaços do carro, ainda na grama. O que restou do carro, foi pro ferro-velho. Meu celular e meu computador, que estavam, respectivamente, na bolsa e na pasta, dentro do carro, já pararam de funcionar…

E eu estou aqui! Viva, inteira, renovada! Talvez um pouco mais quieta. Eu falo, brinco, rio, sorrio…Rio e sorrio muito, todos os dias, todos os momentos que posso! E gosto de fazer os outros rirem também! Porém, muita coisa eu guardo pra mim, aqui dentro da cachola (que não para um segundo) e do coração…Mas o que importa mesmo é que estou aqui, nadando muito, malhando muito, sorrindo muito, me divertindo muito, sonhando em voltar pras corridas..e viva!

E feliz!

Texto originalmente publicado no Blog  Mãos Pelos Pés, no Running News

28
jan

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Por que o Sarah?

Muitas pessoas me perguntam por que a ideia fixa de ir para um hospital tão longe, velho conhecido dos lesados medulares: o Sarah!

Para quem não conhece, o hospital Sarah Kubitschek, cuja matriz fica em Brasília, e é dividido lá em duas unidades, é o maior centro de reabilitação para lesão medular no país e referência na América Latina. Temos outras unidades espalhadas pelo país, como em Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

Todas as unidades são destinadas ao atendimento de vítimas de politraumatismos e problemas locomotores, objetivando sua reabilitação; é mantido pelo Governo Federal, embora sua gestão faça-se pela Associação das Pioneiras Sociais. O nome é em homenagem à Sarah Kubitschek, primeira dama do país na época da fundação de Brasília.

Pies para qué los quiero si tengo alas pa’ volar? (Pés, pra quê os quero, se tenho asas para voar?) Frida Kahlo.

Justamente por isso eu quero ir pro Sarah, porque quero voar! Não voar literalmente, como fez meu amigo Fernando Fernandes. Diferente dele, eu morro de medo de altura!

Mas, eu quero ter um pouco de liberdade, de mobilidade, de independência!

Como ainda não consegui minha vaga no Sarah, eu sou muito dependente das pessoas. Ainda não aprendi a me transferir (sair da cadeira e ir pra cama, pro carro, pro sofá, sozinha), não consigo trocar de roupa sozinha. Então, preciso da ajuda da família pra me trazer água, comida, me ajudar a sair de casa pra passear, a sair da cama e ir pro sofá assistir TV, entre outras coisas.

Além de ensinar essas coisas “básicas” para a alegria de qualquer cadeirante, o Sarah de Brasília conta com uma unidade conhecida como Sarah Lago Norte.

Como o site oficial do Sarah o define “O Sarah Lago Norte é um importante centro de apoio a pesquisas avançadas na área de reabilitação e a intensificação dos programas de tratamento de pacientes, visando reintegrá-los ao meio de origem.” (http://www.sarah.br)

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Mas, para cadeirudos como eu, é ali que a diversão começa: é onde somos apresentados aos esportes adaptados.

Um pouquinho das instalações foi mostrado no programa da Regina Casé, numa matéria linda sobre nós, cadeirantes. Lá, ela entrevistou a presidente (ou presidenta?) Dilma e me fez ficar com mais e mais vontade de ir pra lá!

Quais são minhas expectativas pra essa semana que começa hoje?

Bem, amanhã eu embarco pra Brasília e tentarei a minha vaga lá! Farei exames por uma semana, na esperança de ser aceita pra internação, começando no Sarah Centro, pra reaprender a ser independente, e depois, espero ser “enviada de mala e cuia” para o Sarah Lago Norte e me divertir muito, aprendendo a perder o medo, como o que eu tinha, de enfiar a cabeça na água!

Ah, isso eu ainda não contei! Vamos lá! Quando eu fui liberada pelo médico para entrar na água, eu morria de medo de me afogar. Isso porque minha coluna tinha zero de firmeza, e eu tinha medo de afundar como pedra. Então, eu preferia ficar segura, com a cabeça pra fora da água. Até que eu comecei na escola de natação e meu professor, pacientemente me ajudou a perder esse medo e, finalmente, enfiar a cabeça na água.

Também tenho outros receios, relacionados à cicatrização da minha cirurgia e os esportes. Espero perder todos os medos lá e encher o blog de novidades sobre tudo que eu experimentar por lá!

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News