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out

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Um ano da data fatídica

Data fatídica pra mim. Leia-se fatídica, não trágica.

Data fatídica pra minha família.

Data fatídica pros meus amigos.

Descobri que também foi data fatídica pra gente que eu não conhecia, e que também não me conhecia.

Pois é, hoje faz um ano que eu saí do liquidificador. Toda misturada, batida e revirada e mais doida do que já era!

Nossa, eu tenho muita coisa pra contar sobre esse último ano. E vinha contando, mas parei de escrever. Tenho até que pedir desculpas pra quem me lê, me apoia, me acompanha…Eu fiquei sem computador durante quase 6 meses. O meu estava dentro do carro quando capotei. Capotou comigo. Durou uns meses, mas estourou a tela, o teclado parou de funcionar e, por fim, ele morreu. Mas antes ele do que eu! E juntar as moedas pra comprar outro levou meses! Até contei com uns empréstimos de amigos, porém nem sempre era possível emprestar quando vinha a inspiração. E nem sempre que eu estava inspirada pra escrever, tinha um tecladinho dando mole pra mim.

Verdade seja dita, passei por tantas metamorfoses nesses últimos meses que, caso tivesse escrito tudo, pensariam que endoidei e me trancariam no Santa Tereza (hospital aqui de Ribeirão onde internam…como direi? quem tem parafuso solto, “pobreminha de cabeça”…é isso aí.).

Quem me vê suando a camisa lá na academia (suando nada! não transpiro! depois eu conto), pensa “ah, que vida linda, maravilhosa”, não tem ideia dos perrengues que passei nos últimos meses. E aqui vai o meu muito obrigado a quem me ajudou, segurou minha barra, me hospedou, enxugou minhas lágrimas, me deu carona…e uma infinidade de coisas que os amigos fazem.

E eu também nunca tive chance de agradecer a todas as pessoas que me ajudaram de tantas formas. Orando por mim, me visitando no hospital (mesmo sem conseguir entrar. Afinal. bombamos o lugar), escrevendo bilhetinhos, mensagens, ajudando financeiramente. E tudo isso, foi muita gente que fez.

Tenho um amigo, o Cássio, que desenhou minha logo (sim, gente, tô chic e tenho logo), que me disse um dia: “Dani, você vai precisar agradecer pessoalmente cada pessoa que te ajudou.” Não olhei pra ele porque isso foi pelo facebook. Mas falei: “Cassinho, pirou?

Primeiro que eu tenho que virar bidú, pra descobrir cada pessoa que me ajudou e que eu não conheço. (Afinal, teve rifa, pizza, zumba, doação e mais uma porção de coisas) Segundo, que tenho que virar sócia de uma companhia aérea.” Pois é, a galera da corrida é muito unida. Tive apoio de corredores do país inteiro. E isso, gente, nada paga! Eu jamais poderei!

Aí o povo pergunta: “Como está a recuperação?” Depende do que você quer saber!

Quem leu meu texto em janeiro desse ano, na Folha de SP, no blog do Jairo Marques, ou o outro texto que abriu meu blog aqui no Running News, viu que tinha uma porção de detalhes diferentes na minha vida.

Temperatura – Então…é engraçado! Deixa eu explicar por que!

Como boa tetrona (mesmo sendo tetra do Paraguai), eu não transpiro.

Ah, que bom, chego linda e morena (não rimou, mas tudo bem) na academia e saio de lá do mesmo jeito que eu entrei, maquiada (porque penteada, meu bem! já vou contar!) e tudo mais. Isso, mas pareço uma panela de pressão prestes a estourar. Eu, literalmente, fervo!

Em um campeonato, estava tão calor, que meu técnico me deu um saco de gelo pra colocar na cabeça. Era isso ou jogar água na blusa.

Mas como eu não queria virar a garota da camiseta molhada do campeonato, eu preferi virar a lavadeira, com a trouxa na cabeça. Só assim pra resfriar o corpo.

Ah, então eu estou sempre no estilo “pode vir quente que eu estou fervendo”? Também não. Da cintura pra baixo eu não esquento.

Pareço um cubo de gelo. Sofro horrores com o ar condicionado da academia. Todo mundo de shortinho, suando e eu te calça, casaco, duas meias.

De baixo pra cima, meu corpo parece aquela brincadeira do “quente e frio”, quando as crianças procuram um objeto escondido.

“Ta quente?” “Não, congelando. Muito frio. Frio. Morno. Quente. Fervendo”.

E a sensibilidade? Eu sinto coisas quentes e frias a ponto de ter espasmos, quando a coisa está no extremo (pro meu corpo). Como quando chego da academia parecendo um pinguin e vou tomar banho quente. A água quente cai na perna e a perna pula. Beleza, sei que a água pode queimar a perna se eu deixar ali por segundos seguidos. Isso é bom pra mim, me protege!

Força abdominal – hahahahaha é pra rir ou pra chorar? Quem tem lesão alta, perde os músculos abdominais. Assim, quando colocamos a órtese e levantamos “ó, que barriga legal, não muito grande”. Mas eu fico sentada, né?! Aí é melhor vocês fecharem os olhos e procurar uma para, porque sou tetrona.

Minha lombar era uma gelatina, lembram? Agora ela está mais pra geléia de motocó, mais firminha, graças aos professores que elaboraram exercícios específicos de musculação. Mas sinto dores fortes, exatamente pelo fato de a lombar estar mais forte que o abd.

Ah, prometi falar do cabelo. Então, lembram de toda aquela cabeleira cacheada e brilhante que eu tinha? Caiu quase tudo! 60% se foi, devido à anestesia. Aí, a doutora Tati, uma dermatologista que nadava na raia ao meu lado, me passou um remédio porreta que fez meu cabelo voltar a crescer. Mas, além de eu ter que cortar o que sobrou, os fios novos estão 1/3 do tamanho dos fios antigos.

Resultado? Estou sempre descabelada. Uma leoa jubada em plena caça na savana. Mesmo quando estou com o cabelo preso, lá vem os fios novos, rebeldes, pulando por todos os lados. Não há creme anti-frizz que me salve.

Nesses meses todos, que viraram um ano, ainda não sou uma exímia motorista da cadeira. Estou com uma cadeira infinitas vezes melhor do que a primeira (alugada), mas falta força nas mãos e sobra medo. Eu amarelo na hora de descer rampa empinando e ainda não consigo andar na rua sozinha. O dia que eu tentei (nesse final de semana, na saída do cinema, com duas primas), eu me esborrachei no chão. Ralei o tornozelo esquerdo, o joelho direito. E como brasileiro é solidário, saiu gente até do bueiro pra me ajudar. Eu e as primas caímos na gargalhada depois. Mas isso já me mostrou o total despreparo da criatura para esportes radiciais, como digirir meu Porsche azul (minha cadeira TiLite marivilinda) nas ruas e calçadas brasileiras.

Pois é, ainda não tenho força nas mãos. Já melhorou muito, é verdade. Mas está longe de uma pessoa que amassetou a medula mais pra baixo do que eu. Eu não conseguia abrir nada que necessitasse de giro da mão. Exemplo, um squeeze. Hoje consigo. Mas não consigo tirar o lacre de garrafas de água, nem abrir se estiver muito apertado. Se meu namorado fechar, eu não consigo abrir.

Não tenho filtro de água em casa. Um dia tinha zero garrafas abertas e três lacradas. Tive que pedir pra vizinha!

Eu consigo usar a tesoura, mas não consigo abrir uma barra de cereais, nem embalagem de chiclete. Tem que ser na boca!

Nesse último ano, ganhei muita coisa boa na minha vida! Fiz amigos maravilhosos, cadeirudos e cadeirudas que me ensinam muito, que me ajudam muito, todos os dias. Todos os anos de lesão acumulados, 10, 12, 15, 20, são experiência valiosa pra mim. Muito do que eu consegui de bom, ou evitei de ruim (como feridas na pele), devo às dicas que recebi deles e delas.

Também consegui, sem dificuldade, manter meus amigos antigos. E daí que eles correm e eu não? O amor e a amizade que sentimos são maiores que obstáculos físicos. E eu sou sempre convidada (e vou) às festas da antiga assessoria de corrida a qual eu pertencia antes do acidente. E eles (principalmente elas!) sempre me ajudam, me ligam, me dão carona. A amizade continua a mesma.

Falando em corrida, muito se engana quem pensa que não sinto mais falta de correr. Está no meu sangue! E se tem uma coisa que me faz chorar é a saudade de correr. Ok, são duas. A outra é a saudade de dançar. Ainda choro e sinto falta, como de um ente querido que se foi. Se bem que prefiro pensar que ele está em coma e pode um dia acordar.

Ainda faço fisioterapia. E faço também pilates. E musculação. E natação. Tudo em busca de alguma melhora, seja ela apenas de força e equilíbrio.

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Tem cadeirante que pensa que, só porque tem lesão completa, ou porque passou o período de choque medular, ou porque não pode voltar a andar, não deve fazer atividade física. Mas e seu bem estar? E sua saúde? E sua força? E sua independência? Sua qualidade de vida? Há muita coisa que pode ser melhorada, independente do voltar ou não a andar.

Se eu já perdi a esperança? Serei total e extremamente sincera aqui. Teve uma época que eu desencanei total. Estava na neura pelo esporte, pra emagrecer os mil quilos que trouxe do Sarah, pra ficar forte…e nem lembrava mais de voltar a andar. Só pensava nas medalhas. Troquei o plano A pelo B e fim de papo. Nisso, meu alongamento da perna esquerda começou a se perder e ela começou a doer. E, uma pessoa que me ama me fez enxergar que eu não posso perder a esperança nunca. E que devo continuar lutando. Ontem ele me perguntou o que eu quero. Eu simplesmente respondi que quero resgatar dentro de mim a garota que tinha o plano A como A e o B como B, não vice-versa.

Apesar de o plano B já ter surtido efeito (tenho 3 medalhinhas aí pra compartilhar com vocês nos próximos posts), acho melhor colocar cada coisa no seu lugar. Por isso, eu só não transpiro na fisioterapia porque não sai uma gota de suor desse corpinho, nem se vocês me colocarem dentro do forno de pão da padaria.

Nesse ano que passou, não me tornei uma pessoa perfeita. Estou há anos-luz disso! Mas me tornei um pouco mais calma, um pouco mais paciente. Aprendi a ouvir meu corpo e atendê-lo. Reaprendi o valor dos amigos e da família. Percebi e supervalorizo o valor da saúde.

Aprendi que é preciso costurar-se, remendar-se e reinventar-se todos os dias. Recomeçar também é só mais uma coisa que tivemos que fazer ontem, temos que fazer hoje e teremos que fazer amanhã. E que em todas essas situações, o desânimo de nada vale e não nos leva a lugar algum. Mas o sorriso cura um coração cansado, uma alma abatida, um momento de tristeza, um dia chato. O sorriso ilumina o seu e o dia das pessoas à sua volta. E continuar sorrindo, apesar das dificuldades, é o melhor que temos a fazer.

Então, bóra sorrir pras dificuldades e fazer da vida o melhor possível!

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Texto originalmente publicado no Blog Mãos pelos Pés, no Running News