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Um ano da data fatídica

Data fatídica pra mim. Leia-se fatídica, não trágica.

Data fatídica pra minha família.

Data fatídica pros meus amigos.

Descobri que também foi data fatídica pra gente que eu não conhecia, e que também não me conhecia.

Pois é, hoje faz um ano que eu saí do liquidificador. Toda misturada, batida e revirada e mais doida do que já era!

Nossa, eu tenho muita coisa pra contar sobre esse último ano. E vinha contando, mas parei de escrever. Tenho até que pedir desculpas pra quem me lê, me apoia, me acompanha…Eu fiquei sem computador durante quase 6 meses. O meu estava dentro do carro quando capotei. Capotou comigo. Durou uns meses, mas estourou a tela, o teclado parou de funcionar e, por fim, ele morreu. Mas antes ele do que eu! E juntar as moedas pra comprar outro levou meses! Até contei com uns empréstimos de amigos, porém nem sempre era possível emprestar quando vinha a inspiração. E nem sempre que eu estava inspirada pra escrever, tinha um tecladinho dando mole pra mim.

Verdade seja dita, passei por tantas metamorfoses nesses últimos meses que, caso tivesse escrito tudo, pensariam que endoidei e me trancariam no Santa Tereza (hospital aqui de Ribeirão onde internam…como direi? quem tem parafuso solto, “pobreminha de cabeça”…é isso aí.).

Quem me vê suando a camisa lá na academia (suando nada! não transpiro! depois eu conto), pensa “ah, que vida linda, maravilhosa”, não tem ideia dos perrengues que passei nos últimos meses. E aqui vai o meu muito obrigado a quem me ajudou, segurou minha barra, me hospedou, enxugou minhas lágrimas, me deu carona…e uma infinidade de coisas que os amigos fazem.

E eu também nunca tive chance de agradecer a todas as pessoas que me ajudaram de tantas formas. Orando por mim, me visitando no hospital (mesmo sem conseguir entrar. Afinal. bombamos o lugar), escrevendo bilhetinhos, mensagens, ajudando financeiramente. E tudo isso, foi muita gente que fez.

Tenho um amigo, o Cássio, que desenhou minha logo (sim, gente, tô chic e tenho logo), que me disse um dia: “Dani, você vai precisar agradecer pessoalmente cada pessoa que te ajudou.” Não olhei pra ele porque isso foi pelo facebook. Mas falei: “Cassinho, pirou?

Primeiro que eu tenho que virar bidú, pra descobrir cada pessoa que me ajudou e que eu não conheço. (Afinal, teve rifa, pizza, zumba, doação e mais uma porção de coisas) Segundo, que tenho que virar sócia de uma companhia aérea.” Pois é, a galera da corrida é muito unida. Tive apoio de corredores do país inteiro. E isso, gente, nada paga! Eu jamais poderei!

Aí o povo pergunta: “Como está a recuperação?” Depende do que você quer saber!

Quem leu meu texto em janeiro desse ano, na Folha de SP, no blog do Jairo Marques, ou o outro texto que abriu meu blog aqui no Running News, viu que tinha uma porção de detalhes diferentes na minha vida.

Temperatura – Então…é engraçado! Deixa eu explicar por que!

Como boa tetrona (mesmo sendo tetra do Paraguai), eu não transpiro.

Ah, que bom, chego linda e morena (não rimou, mas tudo bem) na academia e saio de lá do mesmo jeito que eu entrei, maquiada (porque penteada, meu bem! já vou contar!) e tudo mais. Isso, mas pareço uma panela de pressão prestes a estourar. Eu, literalmente, fervo!

Em um campeonato, estava tão calor, que meu técnico me deu um saco de gelo pra colocar na cabeça. Era isso ou jogar água na blusa.

Mas como eu não queria virar a garota da camiseta molhada do campeonato, eu preferi virar a lavadeira, com a trouxa na cabeça. Só assim pra resfriar o corpo.

Ah, então eu estou sempre no estilo “pode vir quente que eu estou fervendo”? Também não. Da cintura pra baixo eu não esquento.

Pareço um cubo de gelo. Sofro horrores com o ar condicionado da academia. Todo mundo de shortinho, suando e eu te calça, casaco, duas meias.

De baixo pra cima, meu corpo parece aquela brincadeira do “quente e frio”, quando as crianças procuram um objeto escondido.

“Ta quente?” “Não, congelando. Muito frio. Frio. Morno. Quente. Fervendo”.

E a sensibilidade? Eu sinto coisas quentes e frias a ponto de ter espasmos, quando a coisa está no extremo (pro meu corpo). Como quando chego da academia parecendo um pinguin e vou tomar banho quente. A água quente cai na perna e a perna pula. Beleza, sei que a água pode queimar a perna se eu deixar ali por segundos seguidos. Isso é bom pra mim, me protege!

Força abdominal – hahahahaha é pra rir ou pra chorar? Quem tem lesão alta, perde os músculos abdominais. Assim, quando colocamos a órtese e levantamos “ó, que barriga legal, não muito grande”. Mas eu fico sentada, né?! Aí é melhor vocês fecharem os olhos e procurar uma para, porque sou tetrona.

Minha lombar era uma gelatina, lembram? Agora ela está mais pra geléia de motocó, mais firminha, graças aos professores que elaboraram exercícios específicos de musculação. Mas sinto dores fortes, exatamente pelo fato de a lombar estar mais forte que o abd.

Ah, prometi falar do cabelo. Então, lembram de toda aquela cabeleira cacheada e brilhante que eu tinha? Caiu quase tudo! 60% se foi, devido à anestesia. Aí, a doutora Tati, uma dermatologista que nadava na raia ao meu lado, me passou um remédio porreta que fez meu cabelo voltar a crescer. Mas, além de eu ter que cortar o que sobrou, os fios novos estão 1/3 do tamanho dos fios antigos.

Resultado? Estou sempre descabelada. Uma leoa jubada em plena caça na savana. Mesmo quando estou com o cabelo preso, lá vem os fios novos, rebeldes, pulando por todos os lados. Não há creme anti-frizz que me salve.

Nesses meses todos, que viraram um ano, ainda não sou uma exímia motorista da cadeira. Estou com uma cadeira infinitas vezes melhor do que a primeira (alugada), mas falta força nas mãos e sobra medo. Eu amarelo na hora de descer rampa empinando e ainda não consigo andar na rua sozinha. O dia que eu tentei (nesse final de semana, na saída do cinema, com duas primas), eu me esborrachei no chão. Ralei o tornozelo esquerdo, o joelho direito. E como brasileiro é solidário, saiu gente até do bueiro pra me ajudar. Eu e as primas caímos na gargalhada depois. Mas isso já me mostrou o total despreparo da criatura para esportes radiciais, como digirir meu Porsche azul (minha cadeira TiLite marivilinda) nas ruas e calçadas brasileiras.

Pois é, ainda não tenho força nas mãos. Já melhorou muito, é verdade. Mas está longe de uma pessoa que amassetou a medula mais pra baixo do que eu. Eu não conseguia abrir nada que necessitasse de giro da mão. Exemplo, um squeeze. Hoje consigo. Mas não consigo tirar o lacre de garrafas de água, nem abrir se estiver muito apertado. Se meu namorado fechar, eu não consigo abrir.

Não tenho filtro de água em casa. Um dia tinha zero garrafas abertas e três lacradas. Tive que pedir pra vizinha!

Eu consigo usar a tesoura, mas não consigo abrir uma barra de cereais, nem embalagem de chiclete. Tem que ser na boca!

Nesse último ano, ganhei muita coisa boa na minha vida! Fiz amigos maravilhosos, cadeirudos e cadeirudas que me ensinam muito, que me ajudam muito, todos os dias. Todos os anos de lesão acumulados, 10, 12, 15, 20, são experiência valiosa pra mim. Muito do que eu consegui de bom, ou evitei de ruim (como feridas na pele), devo às dicas que recebi deles e delas.

Também consegui, sem dificuldade, manter meus amigos antigos. E daí que eles correm e eu não? O amor e a amizade que sentimos são maiores que obstáculos físicos. E eu sou sempre convidada (e vou) às festas da antiga assessoria de corrida a qual eu pertencia antes do acidente. E eles (principalmente elas!) sempre me ajudam, me ligam, me dão carona. A amizade continua a mesma.

Falando em corrida, muito se engana quem pensa que não sinto mais falta de correr. Está no meu sangue! E se tem uma coisa que me faz chorar é a saudade de correr. Ok, são duas. A outra é a saudade de dançar. Ainda choro e sinto falta, como de um ente querido que se foi. Se bem que prefiro pensar que ele está em coma e pode um dia acordar.

Ainda faço fisioterapia. E faço também pilates. E musculação. E natação. Tudo em busca de alguma melhora, seja ela apenas de força e equilíbrio.

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Tem cadeirante que pensa que, só porque tem lesão completa, ou porque passou o período de choque medular, ou porque não pode voltar a andar, não deve fazer atividade física. Mas e seu bem estar? E sua saúde? E sua força? E sua independência? Sua qualidade de vida? Há muita coisa que pode ser melhorada, independente do voltar ou não a andar.

Se eu já perdi a esperança? Serei total e extremamente sincera aqui. Teve uma época que eu desencanei total. Estava na neura pelo esporte, pra emagrecer os mil quilos que trouxe do Sarah, pra ficar forte…e nem lembrava mais de voltar a andar. Só pensava nas medalhas. Troquei o plano A pelo B e fim de papo. Nisso, meu alongamento da perna esquerda começou a se perder e ela começou a doer. E, uma pessoa que me ama me fez enxergar que eu não posso perder a esperança nunca. E que devo continuar lutando. Ontem ele me perguntou o que eu quero. Eu simplesmente respondi que quero resgatar dentro de mim a garota que tinha o plano A como A e o B como B, não vice-versa.

Apesar de o plano B já ter surtido efeito (tenho 3 medalhinhas aí pra compartilhar com vocês nos próximos posts), acho melhor colocar cada coisa no seu lugar. Por isso, eu só não transpiro na fisioterapia porque não sai uma gota de suor desse corpinho, nem se vocês me colocarem dentro do forno de pão da padaria.

Nesse ano que passou, não me tornei uma pessoa perfeita. Estou há anos-luz disso! Mas me tornei um pouco mais calma, um pouco mais paciente. Aprendi a ouvir meu corpo e atendê-lo. Reaprendi o valor dos amigos e da família. Percebi e supervalorizo o valor da saúde.

Aprendi que é preciso costurar-se, remendar-se e reinventar-se todos os dias. Recomeçar também é só mais uma coisa que tivemos que fazer ontem, temos que fazer hoje e teremos que fazer amanhã. E que em todas essas situações, o desânimo de nada vale e não nos leva a lugar algum. Mas o sorriso cura um coração cansado, uma alma abatida, um momento de tristeza, um dia chato. O sorriso ilumina o seu e o dia das pessoas à sua volta. E continuar sorrindo, apesar das dificuldades, é o melhor que temos a fazer.

Então, bóra sorrir pras dificuldades e fazer da vida o melhor possível!

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Texto originalmente publicado no Blog Mãos pelos Pés, no Running News

28
maio

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A Dieta

Todo mundo sabe que antes do acidente eu era atleta das corridas e bikes e afins. Corria pra cima e pra baixo com o pessoal da assessoria, treinando pra minha primeira maratona. E ja tava ensaiando (re)braçadas (eu nadei a vida inteira) pra fazer meu primeiro triathlon em algumas semanas…
Isso tudo dava uma baita fome! E pra não perder o pique, nem ganhar um pânceps, eu seguia uma dieta a risca!

Aí, todo mundo sabe… Ah, tem gente que não sabe, então vou contar! Quando saí da UTI e fui pro quarto, eu despiroquei com a comida do hospital. Puro carboidrato, sem salada, fruta com gosto de isopor uma vez ao dia. O pesadelo de qualquer atleta e de qualquer intestino! Eu e uma amiga, a Kel, convencemos o médico a fazer um contrabando autorizado de comidas saudáveis pro frigobar do meu quarto.Quase que instantaneamente, a Ro e a Re Liza encheram o frigobar de frutas, verduras, iogurtes, grãos e tudo saudável. As amigas mais chegadas sempre levavam essas coisas pra mim e, graças a deus tenho boas amigas, que depois de dormir (ou não dormir) comigo no hospital, picavam as frutinhas pro meu café da manhã antes de irem trabalhar.
Fui pra casa maravilinda graças a elas! Em casa, algumas amigas, como a Paula, sempre cuidaram de mim, levando saladas e frutas toda semana. E minha mãe, fazia meu arroz integral, picava as frutas, fazia saladas delícia e cuidava muito bem de mim! Resultado? Fiquei magrinha, com a pele linda, o cabelo brilhante…

 
Aí, eu fui pro Sarah. O Sarah pode ter todas as qualidades do mundo, mudou minha vida pra muito melhor, aprendi muito, me diverti muito, fiz muitos amigos. Maaaaas… Sarah=hospital=comida de hospital=muito carboidrato. Café da manhã? Pão com manteiga + pão de queijo ou biscoito. Almoço? pouca salada! Fruta? uma vez por dia… Fui falar com a nutricionista. Ela não estava acostumada a lidar com atletas, mas com pessoas sedentárias que precisavam mudar a vida. Resolverei dar um desconto pra ela. Mesmo ela olhando pra mim e dizendo que eu precisava emagrecer 8kg! Enfim..fiquei em Brasília quase 3 meses e engordei 3kg! Eu via o pânceps crescendo e fui me desesperando. Mas quando comparei a foto “antes e depois”, com o mesmo vestido, não precisei ver nem a barriga! Só de olhar pro rosto e braços. Bem, a quem eu queria enganar? Eu já sabia disso! Precisava tomar uma atitude! E rápido!

 
Cheguei de Brasília e fui, praticamente direto, pra São Paulo. Lá, eu teria que tirar muitas fotos. O que fazer? Amigas cadeirudas, anotem o pulo do gato: coloque um dos braços sobre a barriga! A foto fica um charme e você disfarça a pochete! Como eu gosto de cruzar a perna na foto, fica melhor ainda!

 

Ok, medida provisória! O que fazer para a posteridade? Ligar para o nutricionista amado, claro! Mandei uma mensagem desesperada e ele respondeu instantaneamente: “Segunda estou aí.”  Beleza, menos uma coisa. Próxima medida do desespero? Abrir o ovo de páscoa (um dos) e dividir com a geral. Consciência mais leve!

 
Ele veio, tirou minhas medidas, conversou um tantão e disse que me entregaria o cardápio na próxima semana. A hora do pesadelo: eu estaria em São Paulo na próxima consulta! 4 dias comendo um pouco errado (Alex me salvou, me levando pra comer uma mega salada), de TPM, comendo vários brigadeiros que sobraram do niver da Bru (a sobrinha do Paulo, meu amigo piloto-cadeirante. Lembram dele, do outro post?)

 

Enfim, voltei de Sampa e mandei uma mensagem desesperada pro André Facchin, meu nutri. E fiquei esperando a dieta pipocar no meu e-mail. Foi quando resolvi escrever esse post  e fazer um diário da dieta. Ou seja, esse será o post mais longamente escrito! O e-mail chegou, eu não consegui abrir no celular (arquivo anexo) e demorei 24 horas de pura ansiedade pra ler. Assim sendo, começo meu diário agora! A dieta não está difícil, são 20h, mas eu resolvi começar assim mesmo. Portanto, esse será o

 

DIA 1 – a tarde comi um pedaço de chocolate. Sou mulher de TPM,  treinei muito, meu coach me assassinou no treino funcional, dentro e fora da piscina. E eu ainda não tinha lido o cardápio. Será que to perdoada?

Jantar: abobrinha recheada com carne (sem o arroz do almoço) e salada.

Decici postar fotos dos pratos no Instagram.

Nisso, um amigo atleta veio me zoar. Estamos falando sobre comida saudável. Isso ajuda muito!

Algumas horas após o jantar, eu devia comer uma barra de cereais. Burra! esqueci, minha pressão caiu e fui obrigada a comê-la no meio da noite (será que podia?) pra parar de passar mal.

 

DIA 2 – Caf’é da manhã ok. Lanche da manhã…i, esqueci! saí da piscina varada de fome!

Almoço e lanche da tarde ok.

O André passou aqui, pra trazer a lista de substituições para o cardápio. Conversamos um pouco. Foi Bom!

Jantar saudável e dentro da dieta, ok. Frango e salada. Confesso que eu parecia uma criança feliz quando vi a acelga já cortada, na geladeira. E parecia boba “olha, cenoura”, quando encontrei uma, dando mole na geladeira. Agora as pessoas em volta riem das minhas reações com relação às verduras.

Estou morrendo de vontade de comer chocolate, mas estou me controlando! Ainda mais por que o nutri veio aqui. Dar satisfações pra alguém, sobre a dieta, ajuda a controlar a gula!

Daqui a pouco tem a barrinha. Dá pra enganar a vontade de comer doce! vou comer a de limão com chocolate que comprei hoje! (sim, fiz compras saudáveis, de acordo com meu cardápio).

 

DIA 3 – Passei fome durante a noite. Mas não quero incomodar  o nutri no sábado (mesmo sabendo que vou levar bronca por isso). Mas a consulta já é segunda.

Café da manhã ok. Lanche da manhã não foi esquecido hoje!

Fui malhar na hora do almoço. Comi no shopping. Pedi purê no lugar do arroz, mas eu comi só metade, porque veio muito!

A TPM sai pelos poros. A vontade de chocolate está na estratosfera. Mas agora é hora do lanche da tarde. Comi um punhadinho de castanhas e frutas secas. Deu uma adoçada na boca, graças a Deus.

Janta, ok! Fiz certinho. Comi a barrinha de cereais de limão. Que delicia! Queria comer umas 10, mas não pode…

 

DIA 4- Pronto, almoço na casa da vó! Acordei e pensei:”Vou me controlar, vou me controlar, vou me controlar…”

Não deu! Comi dois pratos de macarrão  (sem queijo, que eu odeio queijo). Ainda bem que o prato é pequeno e eu coloco pouca comida. E comi frango e me entupi de salada. Comi um pouco de salpicão de frango. Deus, nutri, amigos, deem um desconto. Fazia 6 meses que eu não ia na casa da vó, não comia a comida da vó.

Tomei suco da fruta, que eu avô fez, porque ele sabe que eu amo.

Sobremesa? Salada de frutas sem açúcar e sem leite condensado, obviamente. E uma paçoca. Mas não deu..Sabe aquelas paçocas tipo lajotinha? Eu comia isso quando estava na 4ª série. Tem gosto de infância. E meu avô encontrou pra comprar pra mim.

Hoje foi dia do Deja  vú.

A tarde comi a fruta, bem comportada. Agora vou jantar.  A vó mandou salada e frango.

Jantei lindamente certinha…to morrendo de vontade de comer mais! E de comer chocolate! Socorro!

 

DIA 5 – Depois de comer um pouco errado na casa da vó, vamos fazer certo hoje!

Comi tudo direitinho, mas almocei tarde (problemas de transporte atrasaram meu horário) e senti fome.

O nutri alterou meu cardápio hoje. Seja o que Deus quiser, essa minha vida sem chocolate. Até durarem os estoques da minha paciência sem ele!

 

DIA 6 – Faz noites que não durmo (nada a ver com a dieta). O cansaço aumenta a vontade de comer chocolate (tudo a ver com a dieta). Bom, pelo menos em mim isso acontece! E com vocês, meninas?

Fiz tudo certinho.Frutas, saladas… Hoje comerei minha última barra de cereais com cobertura de chocolate. Depois sobraram apenas aquelas secas… Como não posso colocar palavrão aqui, direi apenas que estou perdida. Quadrupliquem isso!

(Confesso que quando abri o arquivo hoje, achei que já iria escrever o décimo dia).

 

DIA 7 – Corpo, corpinho querido…Hoje eu vou te pedir, por favor, por gentileza, por obséquio, acostume-se com a dieta LOGO!  E principalmente com a abstinência “doçal”(acho que inventei essa palavra).

Hoje estava tudo lindo. Mentira! Fiz treino de tiros na natação. Nadei 2000m. Saí de lá até de pressão baixa. Enquanto me trocava eu ataquei umas frutas secas que estavam na minha bolsa. Me salvaram, as pobrezinhas secas, até eu chegar ao shopping. Pedi a comida (frango grelhado, salada, legumes) e agredi o prato quando chegou. Mas comi com vontade mesmo. Aí fui malhar, feliz e contente. Até ganhei uma hora de fisioterapia. Cheguei em casa sem muita fome, pois comi o lanche da tarde. Jantei… E o bicho pegou. Fui guardar o que sobrou da salada e vi gelatina batida com creme…Respira fundo! Peguei uma colher de chá (não adianta mentir), colherei. Nem deu tempo de saborear. Enfiei na boca e engoli. Por que, meu Deus? Por que eu amo tanto doces? Agora estou me controlando pra não atacar o ovo de páscoa que eu ainda nem abri…

 

 

DIA 8 – Gente, fiz tudo certo! To orgulhosa de mim! Comi uma salada mega delícia  a noite (saí tarde da academia, aqui não tinha verdura e eu queria fazer tudo certinho..só o chocolate que ta daquele jeito. Sabe aquela música do Kid Abelha? “Mas você me persegue, por todos os lugares”. Esse é o choco na minha vida! Mas eu não comi!

 

DIA 9 – Chamo esse dia de “apagável”. Começou errado, porque não dormi à noite toda. Não tinha proteína pro café da manhã. Fui pro treino e esqueceram de me buscar (táxi! não foi a família!). Acabei almoçando um lanche natural na casa da minha mãe..Quatro horas da tarde! Jantei lanche natural também. Mas, minha mãe me ofereceu mousse de chocolate e eu fiquei firme! Não comi! Até quando vou aguentar eu não sei…

 

DIA 10 – Chamo o dia de dia perfeito, na forma social de ser. Hoje fui almoçar em uma fazenda, com meus amigos da corrida. Fiz um mega prato de salada. Coloquei um pouco de massa e frango (não aguentei comer tudo). A sobremesa foi maçã.Gastei tudo cantando, dançando e me divertindo horrores até 17 horas. A noite fui num bar de rock. Pula a parte que eu comi 3 mini-coxinhas (o namorado da minha amiga é uma praga e fez até brinde de coxinha, aquele magrelo engraçado!). Mas eu tomei suco de limão. Que linda!

 

DIA 11 – Eu disse que não nasci pra balada. Pois bem. Pensa numa mulher que acordou podre ao cubo. Essa mina sou eu.  Na verdade, podre ao cubo é apelido!  Eu acordei tarde. Belisquei. E fui pra um almo-janta, com um casal de amigos, num restaurante vegetariano. Achei que eu ia odiar. Mas descobri que é bem possível. Frango e carne de soja são bem bons e dá pra sair de lá empanzinada. Ainda fomos tomar sorvete. Eu tomei de limão. A minha amiga, a Carol, que também faz dieta com o André, tomou de melancia. Fizemos tudo certinho e eu descobri uma barrinha, la no fundo da sacola, que tinha cobertura de chocolate!

 

DIA 12 – Saí da piscina verde de fome, mas o André já deu jeito nisso. Esse cara é bom! Estou eu, me dirigindo para o restaurante, no shopping, quando encontro, o próprio! Ia dar uma entrevista pro Jornal A Cidade.  E o fotógrafo? O mesmo que me fotografou, pro mesmo jornal, quando eu saí! Fui pro restaurante e pedi. Quando chegou meu prato, também
chegou o dele. Pedimos igual, sem eu saber. Bom sinal! Sinal de que estou fazendo certinho! Tirei foto do prato e postei no instagram de novo. Comemos juntos e papeamos (jogamos conversa fora. A consulta é só a noite e a amizade é véia de 7 ou 8 anos já).

A noite ele veio aqui! Tirou minhas medidas e…tchantchantchantchan…Que alegria! Emagreci! Não sei quanto, pois não trabalhamos com peso! Mas as medidas todas diminuíram! Ele é bom mesmo! Ambos ficamos felizes e contentes!
Meninas, dá pra fazer dieta sim! Sem morrer! Prova disso é que estou aqui, vivinha da silva, escrevendo pra vocês!  Daqui um tempo escrevo outro post pra contar sobre a dieta de novo.

14
maio

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Reflexões sobre rodas: o que mudou depois de 6 meses de lesão medular

Primeiro eu pensei umas mil vezes antes de escrever esse post. Verdade seja dita, e pra quem me conhece desde antes do acidente e leu tudo que eu escrevia todo dia depois que saí da UTI, sabe que eu escrevia pra caramba. Depois parei. Depois retomei, falando sobre esportes adaptados, mas pouco sobre o que se passa aqui dentro.

Eu “escrevia na cabeça” alguns parágrafos. Mas não passava pro computador e esquecia o que e como iria dizer.

Então, na sexta-feira eu recebi uma mensagem assim: “eu estava vendo sua história(…). eu sofri um acidente de moto na Anhanguera faz 10 meses. Também estou sem andar,mas não tenho esse pique que você …me add para conversar mais..”. Fiquei pensando como eu poderia ajudar essa pessoa.

Até que um amigo compartilhou o texto publicado no blog no Jairo Marques, em janeiro (http://assimcomovoce.blogfolha.uol.com.br/2013/01/07/um-relato-de-otimismo-e-coragem/).

Eu li de novo e pensei: “Acho que devo escrever de novo, contando as novidades, após 6 meses de lesão”.

Assim, eis-me aqui, tentando costurar a colcha de retalhos de tudo que aconteceu desde que o texto do Jairo saiu. Vamos por partes (não farei a piadinha do Jack porque já está muito manjada).

Como todo mundo sabe, eu consegui ir pro Sarah! Depois da mobilização de geral de vários amigos, conseguimos o dinheiro pra viagem, eu e meus pais nos aventuramos pela capital. Continuei contando com a ajuda dos amigos enquanto estava lá. Os resultados foram satisfatórios, eu não tinha escara, nem frieira nem pereba, e consegui minha vaga. Fiquei internada no Sarah Centro 1 mês. Depois fiquei hospedada na casa da minha amiga Carla e frequentando o Sarah Lago Norte por mais 1 mês e meio. Lá fui muito feliz, fiz muitos amigos, fiz um monte de esportes e não queria mais voltar. Mas voltei!

Pronto! Minha vida sobre rodas está muito mais fácil. Minha amiga Tábata me emprestou a Ferrari vermelha dela, enquanto meu Porsche azul não chega (uma Tilite linda e leve que chegará na loja da Mobility Brasil em breve). A Ferrari é bem mais leve que o Fusquinha, a cadeira alugada que eu estava.

Eu já aprendi a empinar a cadeira. Outro dia fui empinar a cadeira na academia (o parágrafo da academia será escrito abaixo. Aguentem a ansiedade) e quase matei professores e alunos no coração. Eu devia ter filmado a cara deles! E devia ter filmado um dos professores, tentando empinar e quase caindo (melhor parte do treino foi a cara de desespero dele e nossas risadas depois). Degraus um pouco altos ainda são obstáculos pra mim. Eu não tenho força nas mãos pra subir, nem pra descer. Mas os baixos eu consigo!

E as mãos? Então…parágrafo à parte. Minhas mãos ainda estão fracas. Principalmente a esquerda. Meu dedo indicador esquerdo não serve pra nada. Nem dobrar ele dobra! Está ali pra deixar a mão bonita. Já é uma serventia! Falando em lado esquerdo do corpo, todo o meu lado esquerdo é mais comprometido que o direito. O bíceps é menor, o braço tem menos força, a perna é mais fina. Que lindo! Eu tenho cada lado de uma grossura no corpo! Tenho dois tamanhos e duas forças! Eu ia me comparar a algo, mas não achei nada de tamanha magnitude no universo pra comparar! =O Um lado é estilo “pelos poderes de Grayskull” e do outro lado é tipo “a ponte do rio que cai”. Mas ta bom. Pelo menos Deus conservou um pouco a mão direita e eu consigo escrever. Se eu escrever bem devagar, a letra até que sai bonita.

Mas eu não consigo, por exemplo, usar a tesoura, nem abrir garrafas de água, tampouco usar abridor de latas. Também não consigo segurar a jarra de suco, pra encher meu copo. Nem abrir latinha de refrigerante (ainda bem que não bebo refri há uns 6 ou 7 anos). Não consigo abrir embalagens, como de chocolate ou de chiclete, com as mãos. Eu, geralmente, uso a mão direita e a boca. E quando nem assim eu consigo, eu peço pra alguém.

Mas me maquiar eu consigo! Sim, continuo vaidosa. Tudo bem que a pele encheu de espinhas e o cabelo caiu uns 80%. Mas a pele está começando a limpar (e a maquiagem tampa o que ainda sobrou no rosto. Exceto quando estou na piscina. Ninguém vá me olhar na natação, por favor) e a cabeça está cheia de fios de cabelo novos, cuidadosamente mimados com uma vitamina e um tônico que eu ganhei de uma dermato que nada na raia ao lado. Eu continuo me besuntando de hidratante, pois a piscina resseca a pele pra caramba.

Falando de piscina, assumo! Virei lodinho! Eu faço natação 5 vezes na semana, treinos de uma hora e meia a duas horas de duração. Por mim, ficaria mais, mas os braços ainda não aguentam. Estou desenvolvendo força agora. Meu treinador, muito experiente e perceptivo, monta treinos específicos pra cada dia da semana. E já sabe quando eu fico cansada e não aguento mais de dor no ombro direito, que é o que eu forço mais (estamos trabalhando isso).

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Chamem de baleia, peixa, golfinho, do que quiserem… Mas, descobri que, como não posso ser das pistas, eu sou uma mulher das águas. Eu sinto uma tremenda falta da canoagem (estou devendo o post da canoagem) e da vela. Ainda quero dar um jeito de encaixar isso na minha vida.

Vocês devem estar se perguntando: e as corridas? As corridas ainda me fazem sofrer e chorar! E muito! E sempre! Se eu disser que não, é mentira! Toda vez que estou na academia, e alguém reclama que odeia correr, que odeia a esteira, que odeia aeróbicos, eu olho bem pra cara da pessoa e digo: “me faz um favor? Pare de reclamar e vá logo pra esteira, porque eu daria tudo pra estar lá!”. Mas como quem vive de passado é museu, eu não fico pensando nisso o dia inteiro! Claro que ainda quero voltar pras corridas e pro triathlon. Pra isso, preciso da handbike, Eu e alguns amigos estamos atrás de patrocínio pra conseguir uma. Falta aparecer alguns empresários bonzinhos que querem deduzir minha handbike do imposto de renda deles.

Academia? Eu vou! Depois do treino de natação eu estou lá, firme e forte, puxando ferro, conversando, matando a saudade da galera…Sábado fui lá, com meu antigo treinador de corrida. Ele montou um treino funcional, para que consiga fortalecer o lado esquerdo do meu corpo (foi ele quem me chamou atenção, novamente, pra diferença de força nos braços) e para não lesionar os membros superiores do lado direito, já que faço mais força neles. E para fortalecer minhas costas! Elas não estão tão gelatina como antes, mas a lombar agora parece uma geleia de mocotó. Eu queria uma lombar estilo rapadura, pra ficar mais firminha…eu ainda pendo pros lados,como um pêndulo de relógio-cuco, em certos momentos. Como hoje, na academia. Encontrei duas ex-alunas que eu não via há 8 anos! Uma delas veio me abraçar de um lado e eu quase caí pro outro.

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Temperatura no corpo. Essa é uma coisa que melhorou um pouco. Pensem num mapa mundi. Antes meu corpo era o Mapa Mundi com todas as cidades do mundo (aqui eu sinto, 1 centímetro pra lá não, 2 pra cá sim). Agora você enxerga os estados de todos os países do mundo. Está um pouco mais agrupado…

Balada é uma coisa que não existe pra mim. Fui em uma, depois do acidente, pois era justamente uma das medidas de alguns amigos, pra arrecadar dindin e me ajudar a ir pro Sarah. Vou falar a verdade! Fiquei morta, acabada, destruída, por uns dois dias. E fui em uma, com minha amiga, em Brasília. Fiquei igualmente morta,acabada, destruída, não valia um real no dia seguinte!

Não tem jeito! Eu nasci pro esporte e é assim que quero ficar! É como me sinto bem e feliz!

Estou testando vários esportes diferentes, mesmo depois que saí do Sarah. Esse quesito é igual alimentação: experimentar é a alma do negócio. Só dá pra saber se gosta se você tentar, experimentar, testar. Não diga que não gosta se você nunca tentou. Lembro de um dia, era aula de basquete no Sarah e o professor disse: “Vamos aproveitar a presença de um paciente da seleção e jogar handball adaptado.” Ele disse que deu pra perceber na hora, pela minha cara, que eu não gostei (eu amava jogar basquete). Mas eu testei e amei. Pois, como tenho pouca força nas mãos e nos braços, marcar gol foi mais fácil que fazer uma cesta. Só depois de tentar é que eu tive a opinião formada.

Então, eu não devia ter feito careta (será que foi muito feia?) como as crianças fazem pros legumes, quando os veem pela primeira vez.

Eu ainda leio, escrevo, estou voltando a pintar…Mas todo o tempo que eu tenho, estou, preferencialmente, treinando, experimentando esportes novos, ou conversando com meus amigos. Nem sempre posso estar com eles pessoalmente, mas falo sempre por telefones ou internet.

Algumas pessoas, acabaram se afastando, por falta de tempo, por correria da rotina, porque não me encontram mais nos treinos de corrida ou razões diversas. Mas nem por isso deixo de ter gratidão por eles, pelo que fizeram nos momentos que eu mais precisava. Meus queridos amigos de verdade, continuam presentes, me apoiando de diversas maneiras. E eu procuro estar o mais presente possível na vida deles também, visto que amizade (como qualquer relacionamento) é uma via de mão dupla. Se você não se importa, não espere que a pessoa vai ficar correndo atrás de você pra sempre, pois não vai!

Ontem, depois de 6 meses do meu acidente, eu fui na casa da minha avó pela primeira vez. Alguns se lembram que era com eles que eu morava, quando me acidentei. Choramos muito, minha avó, meu avô e eu, por eu estar viva e estar ali com eles (apesar da escada enorme. Eu subi “de bundinha”, degrau por degrau, pois nem meu pai, tampouco meu avô, teriam forças pra me carregar ali).

Finalmente comi o “franguinho” da minha avó, que fazia parte do meu dia-a-dia, enquanto eu estava com eles (e trouxe um pouco pra comer na janta). Foi um dia muito emocionante pra mim. Também foi a primeira vez, em 6 meses, que eu saí de dentro da garagem (dessa vez no banco de trás do carro do meu avô) e fiz aquele trajeto. O mesmo trajeto que eu fazia todos os dias. O mesmo trajeto que eu fiz acelerando o carro com os pés, pela última vez. Minha avó falou a mesma coisa que me dizia todos os dias de manhã:”Coloca o cinto, chica”.

O cinto que salvou a minha vida! E eu fui olhando a estrada. E um filme passou pela minha cabeça…

Foi quando eu vi! As marcas que meu carro deixou na mureta de concreto na pista. Chorei muito na hora. E choro de novo agora, ao lembrar. Vi alguns pedaços do carro, ainda na grama. O que restou do carro, foi pro ferro-velho. Meu celular e meu computador, que estavam, respectivamente, na bolsa e na pasta, dentro do carro, já pararam de funcionar…

E eu estou aqui! Viva, inteira, renovada! Talvez um pouco mais quieta. Eu falo, brinco, rio, sorrio…Rio e sorrio muito, todos os dias, todos os momentos que posso! E gosto de fazer os outros rirem também! Porém, muita coisa eu guardo pra mim, aqui dentro da cachola (que não para um segundo) e do coração…Mas o que importa mesmo é que estou aqui, nadando muito, malhando muito, sorrindo muito, me divertindo muito, sonhando em voltar pras corridas..e viva!

E feliz!

Texto originalmente publicado no Blog  Mãos Pelos Pés, no Running News

10
maio

0

Cadeirante correndo em Interlagos? Por que não?

Um belo dia, abro meu Facebook e vejo uma foto de um dos meus amigos virtuais, falando que estava indo treinar em Interlagos. Como louca cadeiruda que sou, não duvidei do meu amigo sobre rodas. Mas pensei: “um dia quero ver isso de perto”.

Cadeirantes em Interlagos – Foto: Divulgação

E esse dia chegou! Mas deixa eu contar como. Conheci esse meu amigo, o Thiago, pessoalmente, na Reatech. Fui dar uma olhada no stand deles e conheci os outros pilotos.

Paulo Polido, que além de piloto é idealizador desse projeto, era piloto de motocross. Aliás, foi o motocross que o deixou cadeirante, pois ele se acidentou durante uma prova. Mas isso não o abalou! Em 2006 foi o 1º piloto deficiente a participar do Rally Internacional dos Sertões e formou a 1ª equipe com pessoas com deficiência a participar das 500 Milhas de Kart da Granja Viana. Quem é próximo brinca que ele tem um motor no lugar no cérebro. Tanto que conseguiu voltar ao motocross recentemente! Sim, ele é cadeirante, mas lutou tanto por esse sonho, que conseguiu!

O Tales Lombardi era piloto de aeronaves, ficou na cadeira após uma falha mecânica no helicóptero que pilotava. Pensa que ele ficou na cadeira pensando que a vida acabou? Agora ele voa baixo nas pistas, pois é campeão de kart adaptado e piloto em Interlagos.

E o Thiago Cenjor, que ficou cadeirante após um assalto. Foi integrante da equipe de kart adaptado, que o Paulo formou em 2006. E anos depois também foi campeão de kart adaptado!

Lá na Reatech, conversei bastante com eles e eles me convidaram pra estar no box da Equipe IGT, na próxima etapa do Campeonato Marcas e Pilotos, que seria em duas semanas, em Interlagos. E eu fui!
Quem olha os carros na pista, não percebe que um deficiente está pilotando um deles. Fui olhar de perto as adaptações feitas no carro. Tem que ter raça pra pilotar um carro não-automático, naquela velocidade toda.

E quem pensa que os meninos foram lá de alegres, sem preparo nenhum, está muito enganado. Pra ter a carteira de piloto, a PGC (Pilotos Graduação de Competição), eles treinaram muito, passaram por exames médicos e tiveram que, inclusive, provar que conseguem sair do carro em 15 segundos, durante os testes.

Os meninos ainda estão começando, afinal, estamos na 4ª etapa de um mega projeto que está apenas no início. Mas a corrida já emociona, pelo barulho dos carros acelerando nos boxes, pelo apoio da torcida, pela adrenalina do ronco dos motores passando a toda velocidade na pista. Aí você pensa que quem está ali é um cadeirante, que podia estar em casa reclamando da vida, sentado na cadeira de rodas lamentando o acidente, sentado no sofá com o controle da TV na mão. Mas ele está ali, correndo de igual pra igual com 40 andantes, ou mais. Provando pra si e pros outros, que quando a gente quer, a gente vai lá e faz!

Duvida? A próxima etapa é dia 26 de maio. A entrada em Interlagos é gratuita, mas o estacionamento é pago. Mas vai lá, senta na arquibancada, assiste a corrida e tente descobrir qual é o carro dos “malacabados” na hora da largada!

Ah, e pros meus amigos cadeirudos que estão querendo por fim à vida de lamentações, o Paulo está procurando gente pra correr de kart na equipe deles. Procure por ele e faça um test! Quem sabe você também não se torna um viciado por esportes a motor?

Texto originalmente publicado no Blog Mãos pelos Pés, no Running News

02
maio

0

Reatech 2013

Gente, aconteceu tanta coisa nesses últimos dias, que vocês devem pensar que os abandonei…Mas não é verdade! Olha a Reatech aí!

Primeiro, teve minha alta do Sarah. Sofri! Sofri muito! Chorei litros e baldes de lágrimas…E sinto muita falta do meu querido e amado “Quarteto Fantástico”, professores Fred, Cadu, Rodrigo e Elisa. Aprendi muito com eles e devo muito a cada um deles. E sinto falta do pessoal da Náutica, das enfermeiras, dos médicos, das fisioterapeutas, do Lago Paranoá…

Reatcech 2013 – Arquivo Pessoal

Também sofri muito ao me despedir da minha amiga Carla e da família dela. Eles cuidaram tão bem de mim e ela foi mais que uma amiga. Foi uma irmã! Chorei mais litros e baldes de lágrimas no avião (mas ela só ta sabendo agora dessa parte!)

Mas, mal coloquei minhas rodinhas em solo Ribeirão Pretano, lá fui eu alçar voo novamente. Dessa vez, fui pra São Paulo, direto pra Reatech 2013.

Pra quem não sabe, a Reatech é a Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade. E eu, fui direto pro stand da Mobility Brasil, que ficava bem na entrada da feira, onde eu aprendi muito, conheci e vi muita gente!

Foram quatro dias incríveis que eu tentarei resumir! Confesso que está até difícil escolher a foto pra esse post (queria poder colocar várias – pra quem quiser dar uma olhada em todas as que eu tirei, abri a visualização do meu álbum da Reatech no Facebook), quanto mais escrever um pouco do que rolou, sem ficar dias e dias aqui, escrevendo um pergaminho atrás do outro.

Pude conhecer amigos virtuais que, como qualquer outra pessoa, mata seu leão por dia pra sobreviver. Também pude conhecer pessoalmente amigos cadeirudos que já me ajudaram e ensinaram muito no mundo virtual e passaram pro mundo real.

Conheci pessoalmente, também, personalidades do mundo sobre rodas, que tenho a felicidade e honra de chamar de amigos, como Tabata Contri, Billy Saga, Jairo Marques, Fernando Fernandes, Selma Rodeguero, entre outros. E conheci pessoas importantes que acrescentaram muito no meu dia e na minha vida, como Mara Gabrili (uma simpatia e doçura) e Marcelo Yuka (5 minutos que valeram a pena na minha vida).

Mas eu não fui lá só pra ver gente (apesar de que, isso foi uma das coisas que mais gostei). Eu fui pra conhecer a feira e todas as novidades pra quem anda nas rodinhas.

Primeira coisa muito legal pros amantes de esportes eram as palestras do Comitê Paralímpico. Eu queria ter assistido todas, mas não pude.

Teve sobre canoagem, triathlon, Jogos Paralímpicos e por aí vai.

Tinha um stand bem legal, da Fundação Selma, onde o pessoal podia testar os benefícios da Equoterapia. Tá..não fui, porque morro de medo de cavalo! Mas tirei foto e fiquei um tempão olhando…

Havia o stand da Mobility Brasil, onde o pessoal podia tirar a medida da cadeira de rodas com especialistas, testar vários modelos e até sair com a sua TiLite lindona, na mesma hora. (Mas a minha chega daqui uns dias porque..bom, vou fazer surpresa).

Tinha o stand dos meninos do IGT, com as motos de motocross e o carro adaptado que a equipe de cadeirantes usa pra correr em Interlagos.

E pros amantes do esporte, havia quadras! Confesso que morri de vontade de ir jogar basquete todos os dias. Quase fui sequestrada por um amigo, no domingo. Mas fiquei com vergonha. Quem me leu, lembra que ainda não consigo alcançar a cesta…Havia pista de atletismo e houve futebol para cegos, testes de halterofilismo e canoagem (o Fernando me fez pagar mico, sentar no caiaque e simular uma remada, na frente das pessoas! Pensa num homem que só não foi enforcado porque havia muitas câmeras e testemunhas).

Agora, uma coisa muito legal que eu fiz foi…dirigir! Sim, peguei num volante pela primeira vez, depois de 5 meses e meio. Gostei tanto e fui tão bem atendida pelo moço (lindo, mas pula essa parte) prestativo, que testei cinco modelos, com adaptações diferentes. Eu pensava que só havia uma jeito de acelerar e frear com as mãos, empurrando e puxando a alavanca. Mas descobri que há outras formas. E eu até preferi! Vamos ver se consigo importar algo pro interior do estado!

Tive o privilégio de conhecer pessoalmente muitos atletas, de várias modalidades do esporte adaptado, como a Jady e o Dado, do ciclismo, o Evandro, que além de pedalar, joga golfe adaptado (será que eu vou testar isso um dia, com ele?), o Alex, da esgrima, o Thiago e o Paulo, meus amigos que pilotam em Interlagos. Aprendi muito com todos eles.

Verdade seja dita, aprendi o tempo todo nessa Reatech. Aprendi a respeitar e admirar todo tipo de deficiência, pois lá a convivência foi pacífica entre todos nós (tinha uns cães guia coisa mais fofa). Aprendi muito com as meninas que estavam comigo no stand da Mobility e que tem muito mais experiência sobre rodas do que eu. Aprendi muito nas conversar com Billy e Serginho do Movimento Superação e levo muita história pra contar.

Comentei com um amigo que, depois do Sarah e da Reatech, é bem complicado voltar pro mundo real, onde as calçadas são esburadas, onde não há banheiro adaptado em qualquer restaurante, onde os degraus são altos e curtos demais, ou a rampa é impossivelmente inclinada. Mas há sempre alguém disposto a empurrar sua cadeira e dar uma mãozinha quando sua mão de tetra falha (no caso, as minhas).

Ainda não contei sobre todos os esportes que aprendi no Sarah. Mas nós temos muitos posts juntos pela frente!

reatech 2013

16
abr

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Vela: um caso de amor

Quando você está apaixonado, você tem vontade de sair gritando pro mundo! O povo já trata de mudar o status do Facebook rapidinho. Será que posso ter dois novos amores? Será que posso colocar lá “em caso de amor com a vela e a canoagem”?

Vela no Lago Paranoá – Foto: Arquivo Pessoal

Meu Deus! Fiquei em dúvida sobre qual escrever primeiro. Aí, optei pela vela! Sem ciúme, canoagem, caiaque gracinha, vocês serão os próximos!

Contando a verdade. Quando li “vela” na minha grade de atividades do Sarah, não me empolguei. Pensei “mas que porcaria eu vou fazer lá?” E tinha 2 horas de atividade marcadas! Ó meu Deus! Respiremos!

Aí vem o querido professor Rodrigo, com aula de teoria! E eu, sentada (óbvio), adorando!

Vários significados novos para as palavras. Orçar, não é fazer orçamento! Caçar não é ficar atrás de um bicho com a intenção de atingi-lo com projétil (muito menos o que uns caras bobos fazem quando vão pra balada). Morder não é aquilo que o cachorro faz. Biruta não é gente doida. Catraca não é de ônibus, nem a da porta da academia. E ainda tem arribar, cambar, bombordo, boreste, retranca, quilha, jaibe, través…Leme, proa e popa, nem vou comentar, porque todo mundo sabe o que é!

E eu pensando:”Como eu vou decorar tudo isso?”. Claro que o professor ajudava, com umas piadinhas que…melhor não comentar! E depois eu pensava: “Pra que eu preciso saber tudo isso, se é só sentar naquele veleiro enorme e ficar curtindo o vento?” Ahãm…doce ilusão. E ainda bem que era ilusão! Porque no veleirinho amarelo, o Escape, é bem melhor! Centenas de vezes melhor!

Bem, entramos com o veleiro na água e eu já entendi o porquê do “Dani, vai de maiô e um shorts”. Entrou água pra tudo que era lado. Quem me conhece sabe bem a cara que eu fiz nessa hora. No melhor estilo “oba” possível.

Mas ainda não estava mega empolgada. Achei que ia ser uma paradeira danada. Até que os ventos começam a soprar, o professor diz “Dani, pega o leme” e começa a usar todas aquelas palavras lindas que eu tinha acabado de aprender e reaprender e eu fui ficando muito louca! Depois, o professor e o marinheiro, responsável por nos acompanhar no bote ao lado, começaram a falar outras palavras lindas e eu fui ficando mega empolgada!

Fizemos treino de sobrevivência, pois é necessário aprender a saber o que fazer caso a embarcação vire e você caia na água. E eu, mesmo de colete salva-vidas, dei umas braçadinhas na água do lago, para poder alcançar a popa e subir novamente (sozinha) na embarcação. E me empolguei mais ainda com tanta adrenalina!

No primeiro dia pareceu muito complicado, mas muito, muito ótimo. E eu saí da água com aquele gostinho de quero-mais, contando os segundos para a próxima aula.

A segunda aula chegou num dia de tempo nublado. Já fiquei toda triste, pensando que não ia ter aula. Até que um dos marinheiros do Sarah disse “Hoje está bom demais pra vela. Olha o vento” e apontou pra água. Eu conseguia ver o vento, mas não para onde ele estava indo ou de onde estava vindo. Aprendi nesse dia. O professor Rodrigo também me ensinou como perceber, pela água, que uma rajada de vento de aproxima. E nesse dia, meus amigos, tivemos várias e fortes rajadas de vento e a aula de vela mais animalmente empolgante da minha vida! A embarcação, que obviamente é na horizontal, chegou a verticalizar. Mesmo com o professor e eu fazendo peso pro lado contrário. Foi o dia que mais aprendi na prática. E fiquei sozinha por uns 5 minutos na vela. O professor voltou com medo que um jaibe fizesse a retranca bater na minha cabeça com muita força (falei grego?).

A Vela Adaptada, no Brasil, teve início em 1999 com o Projeto Água-Viva, desenvolvido a partir de uma parceria entre a Classe de Vela Day Sailer, o Clube Paradesportivo Superação e o Clube Municipal de Iatismo em São Paulo.

Os atletas treinam em vários tipos de barcos: o 2.4mR, oficial das Paraolimpíadas, o Day Sailer, barco de 5 metros sem quilha, que não é oficial. Em 2008 chegou ao país o barco Sonar, que foi usado pela equipe brasileira nas Paraolimpíadas de Pequim, e que será usado para treinamento dos atletas que participarão das Paraolimpíadas de 2012.

Com o apoio do CPB, a Vela paralímpica vem tendo um crescimento exponencial, tendo a equipe da CBVA conseguido a vitória de representar o país nas Paraolimpíadas de Pequim, com os atletas cariocas Luiz Faria, Darke de Matos e Rossano Leitão.

Pessoas com deficiência locomotora ou visual podem competir na modalidade. A Vela paralímpica segue as regras da Federação Internacional de Iatismo (ISAF) com algumas adaptações feitas pela Federação Internacional de Iatismo para Deficientes (IFDS). Três tipos de barco são utilizados nas competições paralímpicas: o barco da classe 2.4mR tripulado por um único atleta; o barco da classe Sonar, com 3 atletas; e o barco SKUD-18 para 2 tripulantes paraplégicos, sendo obrigatoriamente 1 tripulante feminino.

As competições, denominadas de “regatas”, são percursos sinalizados com bóias, feitas de acordo com as condições climáticas, de forma que o atleta teste todo seu conhecimento de velejador. Barcos com juízes credenciados pela ISAF fiscalizam o percurso, podendo o atleta ser penalizado com pontos, caso infrinja alguma regra. Uma competição é composta de várias regatas, ganhando o evento aquele que tiver melhor resultado, após a somatória de todos as suas colocações nas regatas.

A vela é maravilhosa em dias sem vento, pra você curtir a paisagem, conversar (se tem alguém junto) e pensar na vida. Mas dá o maior trabalho pra sair do lugar. Você tem que ficar atrás do vento, cambando e cuidando pra vela não panejar (falei grego de novo, ou hebraico dessa vez?). Legal mesmo é quando tem aquele ventão.

Mas, independente de como seja, amigos e amigas cadeirudos, eu indico! Tentem! Mas vão com quem manja, pra não passar apuros. E pros andantes que tiverem a chance, tentem também! Vale muito a pena!”
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26
mar

1

Eu e o basquete

Bem, prometi e agora tenho que cumprir! No último post prometi que eu falaria sobre o basquete adaptado. Então, here we go!

Primeira dica pras meninas cadeirudas que pretendem experimentar esse esporte: Se você tem frescura com unhas quebradas e é encanada com esmalte descascado, não jogue basquete na cadeira de rodas! Destrói suas unhas! Como eu não ligo pra isso (é só ir lá, lixar o que sobrou – das primeiras vezes eu quebrei TODAS as unhas – e pintar de novo), tenho adorado esse novo esporte!

É um esporte bem rápido, gostoso, estimula o espírito de equipe e treina sua agilidade com a cadeira.

Está certo que, no Sarah, jogamos só pra experimentar, movimentarmo-nos, por isso, a diversão é garantida! Ainda não tive a oportunidade de assistir a uma partida oficial. Creio que deve ser bem mais tenso. Mas, para quem deseja ingressar em um esporte adaptado, acho a opção ótima!

Utilizamos uma cadeira especial, com diferente cambagem nas rodas (as rodas não ficam na vertical, como nas cadeiras que utilizamos no dia-a-dia. Elas são posicionadas em um ângulo menor que 90º. Procurei na internet, e ainda não encontrei o ângulo).

Bom, mas para uma tetra como eu, nem tudo são flores. Eu não tenho força suficiente no braço (ainda) para arremessar a bola e alcançar a cesta. Já melhorei! Depois de jogar 4 vezes , já consigo acertar a redinha da cesta! Já é um avanço!

Tá, agora, vamos às regras do jogo! A cada dois toques na cadeira, o jogador deve quicar, passar ou arremessar a bola. Aí, quando alguém da mais de dois toques a gente grita “faaaaaaalta”. Isso não deve acontecer num jogo oficial! Com certeza não acontece! As dimensões da quadra e a altura da cesta são as mesmas do basquete olímpico. Estão vendo por que não consigo alcançar a cesta? É alto pra caramba!

Na primeira vez que jogamos, o professor deixou a gente se arrebentar. Calma! Ele deixou as disputas por bola serem bem…hum…animadas! Podíamos trombar as cadeiras e isso fez o jogo ficar divertido e rápido (no melhor estilo carrinho de trombada. Eu estava adorando). Porém,a partir da segunda vez que jogamos, foi-nos esclarecido que trombar a cadeira intencionalmente (eu fiz isso pra caramba na primeira vez) também é falta! Você precisa, no mínimo, tentar frear a cadeira. Então, lá vou eu, tem que defender a bola, tentar roubar do adversário, contar quantos toques no aro você deu pra não ser falta, lembrar de frear a cadeira pra não trombar com ninguém, arremessar satisfatoriamente para seus companheiros de equipe e (E!) tentar acertar a cesta! Ufa! Mas eu adoro!

Outra coisa que acontece conosco e eu não sei se acontece nos jogos oficiais é a nossa posição no jogo! Depois que já tinha jogado várias vezes (na verdade, to tentando contar e acho que foram mais de 4 vezes!), um menino debutando no basquete de cadeira, veio perguntar:”Dani, você é boa no ataque ou na defesa?” e eu disse :”na defesa”. Ele começou a dizer que eu tinha que me posicionar não sei onde na quadra, que ele ia jogar na frente…Tinha outro amigo na conversa. Olhamos um pra cara do outro e eu perguntei:”Você já jogou basquete na cadeira?”. Diante da resposta negativa do novo colega, meu amigo soltou: ”irmão, não dá tempo de nos separarmos por posição, não. O jogo é muito rápido.” Realmente, não sei como funciona isso num jogo oficial (quando eu assistir a um, eu conto tudo), mas no nosso, a questão de movimentação é bem rápida! De repente, você está embaixo da cesta de defesa e menos de um minuto depois, debaixo da cesta do ataque.

E eu não tenho medo de bolada, nem de me entrincheirar com os meninos na disputa de bola! Vou enfiando a cadeira no meio deles, e borá tentar roubar a bola e ser feliz!

Agora, vamos à história do basquete sobre cadeira. O basquete em cadeira de rodas começou a ser praticado nos Estados Unidos, em 1945.

Os jogadores eram ex-soldados do exército norte-americano feridos durante a 2ª Guerra Mundial. A modalidade é uma das poucas que esteve presente em todas as edições dos Jogos Paralímpicos. As mulheres disputaram a primeira Paralimpíada em Tel Aviv, no ano de 1968. O basquete em cadeira de rodas foi a primeira modalidade paralímpica a ser praticada no Brasil, em 1958. Os principais responsáveis pelos primeiros passos foram Sérgio del Grande e Robson Sampaio. Nos II Jogos Parapan-americanos, em Mar Del Plata, em 2003, a seleção brasileira masculina conquistou uma vaga para Atenas 2004 retornando a uma edição de Jogos Paralímpicos após 16 anos de ausência. Já a seleção feminina participou apenas dos Jogos de Atlanta 1996. No Parapan do Rio de Janeiro, em 2007, o Brasil conquistou o 4º lugar no feminino e o 3º no masculino. (http://www.cpb.org.br/modalidades/basquetebol/)

E, como em qualquer esporte adaptado, também há classificação funcional! Para quem quiser saber mais, inclusive sobre regras e campeonatos, há também o site da Confederação Brasileira de Basquete em Cadeira de Rodas (CBBC), – http://www.cbbc.org.br/

Bem, vim pra Brasília sabendo que há um time de basquete na minha cidade. No início, não foi algo que me apeteceu. Porém, agora confesso que eu até gostaria de ir uns dias pra me divertir e dar umas risadas nos treinos. E se, além da natação não encontrar mais nenhum esporte praticável na minha cidade, posso tentar o basquete . Isso porque minha paixão está nas águas mesmo. Mas isso ficará pros próximos posts. Sim, no plural! São dois esportes. Um post só não dará conta de tanta emoção!

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News

22
mar

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Sou tão tranquila e tão contente

“Hoje 22 de março de 2013 faz 5 meses que sofri o acidente que me levou a ter uma nova vida” Compartilho com vocês

Sabe, tenho andado tão distraída,

Impaciente e indecisa

E ainda estou confusa,

Só que agora é diferente:

Sou tão tranquila e tão contente…

É, isso tem dono! Copiei total do Legião (e eu nem gosto de Legião)!

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Mas é exatamente isso que senti hoje! Distraí-me tão facilmente, praticando uma pancada de esportes diferentes (achei que porrada ficaria feio, porque “sou mulherzinha”), que acabei não parando pra pensar o quanto mudei nesses últimos meses.

Apesar da alegria ainda fervilhar dentro de mim (e quinta-feira foi o dia do Puro Êxtase, como diria meu querido Frejat, na música do Barão Vermelho), percebi que estou um pouco caladinha nas últimas semanas…Um pouco é culpa do meu notebook que resolveu entrar em coma. Um pouco é culpa da nova rotina e dos novos remédios que castigam meu corpo. Um pouco é culpa minha mesmo, que acabei guardando pra mim tanta coisa que já aconteceu.

Me libertei de amarras indesejáveis que perseguem a maioria dos lesados medulares (só faço quando preciso), deixei minha feminilidade ressurgir das cinzas (mesmo com tão pouco cabelo, já que os remédios mandaram quase tudo pro lixo, pro ralo, sei lá pra onde) e estou um pouco mais reflexiva sobre algumas mudanças em mim e no meu corpo!

Certas coisas não são fáceis de aceitar (como meu panceps de tetraplégica), outras coisas são novidade pra mim. Quer um exemplo? Tive aula de vela essa semana (vou contar tudo em breve! ainda me refaço da emoção tão grande que tomou conta de mim!) e o pessoal do Náutico do Sarah vira pro professor e diz: “Ela leva jeito pra vela. É calma!”..gente, desde quando sou calma? Será que já to tão mudada assim? Não, o professor logo tratou de me zoar. Mas eu já estou um pouco mais controlada (será?).

É mesmo muita novidade em pouco tempo. E mudanças bruscas de rotina de uma hora pra outra, em poucos meses (pra quem nem usava cadeira de rodas e ficava da cama pro sofá, do sofá pra cama, agora não saio de cima dela o dia inteiro).

Mas algumas coisas eu já havia percebido e acabaram consolidando-se nesse período:

– Quem te ama de verdade, te ama andando, correndo, rodando, se arrastando, do jeito que for

– Há amigos que surgem do nada, nos momentos mais inesperados, e que estarão ao seu lado a vida inteira

– Há amigos que só mostram que estão do seu lado de verdade, quando você realmente precisa. E há aqueles que fogem, correm, desaparecem. Obrigada por sumir e deixar espaço livre pra quem vale a pena.

– Há amizades maiores do que qualquer laço de sangue

– Mesmo que laços de sangue te decepcionem, são seu sangue!

– Há momentos na vida que duram segundos, mas que você vai guardar pra sempre na memória e revivê-los como se estivessem ali, ao alcance das mãos. Aproveite-os pra sorrir de novo!

– Seja intenso em tudo que você faz, ou as oportunidades poderão escorrer por entre seus dedos, perder-se e não voltar mais!

– Seja você mesmo e sorria sempre, mesmo quando estiver chorando por dentro! O Sorriso é o melhor remédio pra qualquer mal, pois não permite que este suba pra sua cabeça ou pro seu coração! Aí você adoece de verdade!

– Sempre tente coisas novas! Arrisque e Surpreenda-se!

– Não permita que a raiva, chateação, tristeza, durem mais que algumas horas! Não vale a pena perder tempo com nada disso!

“Sua felicidade só depende de você.”

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News

12
mar

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Esporte Adaptado: Tênis de mesa

Depois de um enorme sumiço, cá estou eu novamente! É, quem pensa que a vida no Sarah é enfadonha está muito enganado! (pelo menos pra mim não está sendo!).

Quem me acompanha sabe que eu tive alta do Sarah Centro (onde ficamos internados) e estou em tratamento agora no Sarah Lago Norte (onde não há internação). Estou contando com a hospitalidade, carinho e generosidade de uma amiga e sua família (vocês vão conhecê-la melhor jaja). Para estar no Sarah Lago Norte 9h, eu acordo 6h (por uma questão de transporte do próprio Sarah) e quando são 21h eu já não paro sentada (visto que não dá pra eu parar em pé há alguns meses…).

Aqui em Brasília estou conhecendo vários esportes. Um deles foi o tênis de mesa. Quando eu era aborrescente, estava na 8ª série (hoje 9º ano) eu jogava ping-pong com os amigos, na hora do recreio. Mas isso faz muitos anos e eu nem me lembrava como segurar na raquete! Um belo dia, um amigo meu cadeirante, o Yugo, me convidou pra assistir o treino dele de tênis de mesa. Achei o máximo ir, porque achava (coitada de mim) que eu ainda sabia jogar. Lá fui eu, ver o treino e quase me escondi atrás de um pilar quando cheguei! Vários andantes e o Yugo cadeirante, treinando de um jeito que eu nunca tinha visto. Quando houve um momento propício, eu e outro amigo andante, pegamos as raquetes e começamos a brincar de bater bola na mesa. Eu tava achando fácil, o Yugo me ensinou onde posicionar a cadeira e estava na maior paciência do mundo, disfarçando, falando que eu estava jogando bem. Fui embora contente.

Na semana seguinte, eu tinha aula de tênis de mesa no Sarah! Achei que eu não teria dificuldade alguma. Até o professor começar a me ensinar direito! Eu pegava várias bolas, mas acertava todos os lugares da sala, menos a mesa do adversário! Até fui melhorando e fiz mais uma ou duas aulas. Até o professor dizer que eu preciso de paciência e concentração (alguém avisa pra ele que eu não tenho essas duas sobrando, mas faltando).
Ele me explicou várias coisas do tênis de mesa, regras, deu dicas…Mas aquilo não é pra mim, definitivamente!

Então, me resta torcer pra quem leva jeito! E quem leva é minha amiga hospitaleira Carla Maia! Carla é treta como eu, mas tem uma lesão mais alta que a minha e tem menos movimento que eu. Mas na mesa de tênis ela vira uma gigante! Eu me sinto uma formiguinha perto dela.

E pensar que o tênis de mesa entrou por acaso na vida dela. O treinador olhou pra ela (ela nunca tinha treinado!) e perguntou se ela gostaria de participar de um campeonato que aconteceria em alguns meses. Ela disse: “Se você conseguir me inscrever, eu começo a treinar”. Ela pensou que ele nunca mais ligaria pra ela! Em uma semana ele ligou e disse: “Pode vir treinar. Você está inscrita”. E ela arrasou! Como sempre, em tudo que ela faz na vida!

Nesse final de semana, Carlinha participaria da Copa Brasil de Tênis de Mesa. Claro que ela se inscreveu para os jogos Paralímpicos, na categoria dela. Mas Carla participará de um campeonato importante na Itália. Então, ela resolveu se inscrever no campeonato Olímpico (sim, com as andantes) “só pra treinar pra Itália”. O “só pra treinar” rendeu a ela a medalha de outro nos Paralímpicos, a medalha de bronze nos Olímpicos (sim, ela ganhou de várias andantes!) e o Troféu Eficiência.

Vendo Carla jogar, aprendi muito! A forma correta de sacar, como devolver uma bola. Claro que ela tem anos de técnica de jogo, mas ela deu um baile em muitas meninas.

Fiquei curiosa pra saber a idade do tênis de mesa como esporte paralímpico. E até que ele é bem velhinho! A modalidade começou em 1995, com a fundação do Comitê Paralímpico Brasileiro.

O tênis de mesa é um dos mais tradicionais esportes paralímpicos, disputado desde os Jogos de Roma tanto no masculino quanto no feminino. Todas as edições dos Jogos Paralímpicos tiveram disputas da modalidade.

No tênis de mesa participam atletas do sexo masculino e feminino com paralisia cerebral, amputados e cadeirantes. As competições são divididas entre atletas andantes e cadeirantes. Os jogos podem ser individuais, em duplas ou por equipes. As partidas consistem em uma melhor de cinco sets, sendo que cada um deles é disputado até que um dos jogadores atinja 11 pontos. Em caso de empate em 10 a 10, vence quem primeiro abrir dois pontos de vantagem. A raquete pode ser amarrada na mão do atleta para facilitar o jogo. A instituição responsável pela modalidade é a Federação Internacional de Tênis de Mesa (ITTF). Em relação ao tênis de mesa convencional existem apenas algumas diferenças nas regras, como na hora do saque para a categoria cadeirante. No Brasil, a modalidade é organizada pela Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM). (http://www.cpb.org.br/modalidades/tenis-de-mesa/).

É meus amigos, Carla e Zé, um dos treinadores dela, queriam aproveitar a oportunidade e a presença do classificador funcional ali, pra saber a minha classificação no tênis de mesa. Mas eu pensei que fosse brincadeira e perdi minha chance! Se bem que eu não levo o menor jeito! Então, creio que vocês não me verão nas mesas, segurando a raquete! Já que é assim, torçam pra Carlinha conseguir a vaga delas nas Paralimpíadas 2016. Assim vocês terão a chance de ver como se joga o tênis de mesa de verdade, com o coração e sorriso no rosto!

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News

20
fev

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Natação Adaptada

Como todo mundo já percebeu, depois do meu acidente, eu virei peixe (baleia não,por favor!), trocando as ruas e pistas de corrida pela piscina.

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Segundo o site oficial do Comitê Paralímpico Brasileiro, a natação está presente no programa oficial de competições desde a primeira Paraolimpíada, em Roma (1960). Homens e mulheres sempre estiveram nas piscinas em busca de medalhas. O Brasil começou a brilhar em Stoke Mandeville (1984), quando conquistou um ouro, cinco pratas e um bronze. Nos Jogos Paralímpicos de Seul (1988) e nos de Atlanta (1996), os atletas trouxeram um ouro, uma prata e sete bronzes. Em Barcelona (1992), a natação ganhou três bronzes. Os Jogos de Sydney foram marcados pelo excelente desempenho da natação, que trouxe um ouro, seis pratas e quatro bronzes para o Brasil. Em Atenas, foram sete medalhas de ouro, três de prata e uma de bronze. No Parapan do Rio de Janeiro (2007) o Brasil ficou em segundo lugar geral da modalidade, perdendo para o Canadá, mas ficando na frente dos Estados Unidos. Foram 39 medalhas de ouro, 30 de prata e 29 de bronze.

Na natação, competem atletas com diversos tipos de deficiência (física e visual) em provas como dos 50m aos 400m no estilo livre, dos 50m aos 100m nos estilos peito, costas e borboleta. O medley é disputado em provas de 150m e 200m. As provas são divididas na categoria masculino e feminino, seguindo as regras do IPC Swimming, órgão responsável pela natação no Comitê Paralímpico Internacional.

As adaptações são feitas nas largadas, viradas e chegadas. Os nadadores cegos recebem um aviso do tapper, por meio de um bastão com ponta de espuma quando estão se aproximando das bordas. A largada também pode ser feita na água, no caso de atletas de classes mais baixas, que não conseguem sair do bloco. As baterias são separadas de acordo com o grau e o tipo de deficiência. No Brasil, a modalidade é administrada pelo Comitê Paralímpico Brasileiro.

O atleta é submetido à equipe de classificação, que procederá a análise de resíduos musculares por meio de testes de força muscular; mobilidade articular e testes motores (realizados dentro da água). Vale a regra de que quanto maior a deficiência, menor o número da classe. As classes sempre começam com a letra S (swimming) e o atleta pode ter classificações diferentes para o nado peito (SB) e o medley (SM).
(http://www.cpb.org.br/modalidades/natacao).

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Minha escolha foi feita pois o investimento inicial no esporte seria baixo. Precisei apenas de uma touca, um maiô e óculos.

Devido a esse baixo investimento, muito atletas também escolheram a natação para começar. E acabam ficando nela, por falta de recursos financeiros. Mas isso também os faz nadar, nadar e não alcançar a borda,ou seja, os tão sonhados troféu, medalha, patrocínio ou reconhecimento no esporte.

Esse é o caso de uma grande amigo meu, o Thiago Sartor, lá de Santa Catarina. Quando decidi começar a nadar e fui liberada pelo médico, esse mocinho lindo me ajudou muito! Me deu várias dicas pra sair dos espaguettis, pra perder o medo de colocar a cabeça na água de novo, me incentivou, me ouviu, me aconselhou. Por isso, quando decidi falar da natação adaptada, não quis contar sobre mim, mas sobre ele! Então, deixa ele começar, né?!

“Sempre gostei de jogar futsal, futebol, não era aquele jogador excepcional, mas sempre fui esforçado e esbanjava força física. Cheguei a jogar três anos no campeonato amador da minha cidade. E foi nessa época que comecei a trabalhar, terminei o ensino médio, comprei uma moto e começava ficar mais ‘livre’. Ao completar 18 anos tinha o que qualquer garoto nessa idade sonha: tinha meu transporte próprio, recebia dois salários mínimos, sem custo de moradia ou comida, pois morava com meus pais. Saía quase 3x por semana, fora quando não ia a bares, sempre de moto. No mês de

Dezembro de 2008, eu saí dia 12, não dormi dia 13. E no domingo (14), não soube dizer não ao um convite para mais uma festa, mesmo cansao e com sono.

Era um torneio de laço, uma festa sempre tradicional aqui no Sul. Bebi, dei risada, beijei, dancei muito. Aproveitei a festa até o ultimo minuto. Aquela noite estava diferente. Eu me lembro de ir ao banheiro, e de olhar para o céu, uma chuva fina caindo no meu rosto. Pensei: “Nossa que sensação boa”. Tudo estava diferente. Aproximadamente 21h30min eu chamei meu amigo para irmos embora. Estava lúcido, mas com certeza alterado com a bebida que ingeri. Fui para pista, senti que ela estava molhada, mas não dei muita bola. Como era uma BR(Nunca tinha dirigido em uma BR), acelerei. Passei por um posto policial, vi as luzes da minha cidade – a última imagem que lembro antes do acidente. Depois disso devo ter dormido, pois só lembro de mato e galhos batendo em meus braços e meu amigo gritando: “Aonde tu está indo?” Foi quando ‘acordei’, soltei o acelerador e senti galhos batendo em meus braços, um estouro e uma forte batida na cabeça.

Depois disso fiquei acordado sem poder me mexer. Achei muito estranho, uma sensação esquisita, pois nunca tinha quebrado nenhuma parte do corpo, apesar de ser sempre ‘meio maluco’. Mal eu sabia que tinha quebrado três vertebras, e com a fratura, uma lesão forte e completa na medula, ocasionando uma perda parcial de movimentos e sensibilidade do peito pra baixo.”

Tá achando ruim? Olha só o que os médicos fizeram: “Fiz a primeira cirurgia, errada por sinal, com um médico muito despreparado da minha cidade (Lages-SC). Depois de quatro meses tive que ir a Florianópolis tirar todo o material e fazer outra, só que bem feita. Hoje tenho 10 parafusos em minha coluna, que dão sustentação a ela.”

E foi assim que Thiago entrou pro time dos cadeirudos e cadeirudas, apesar de a ficha dele demorar um pouquinho pra cair.

Então, adivinha pra onde o Thiago veio? Exato! Aqui onde me encontro no momento: Hospital Sarah Kubitschek. No início, Thiago achou que viria pra cá a fim de voltar a andar. Mas teve que aprender, como muitos que chegam aqui, que o objetivo do hospital não é operar milagres!

Porém, logo tudo mudou! Mas deixa o Thiago contar com as palavras dele:

“Na época de internação, conheci pessoas que mudaram minha vida, desde pacientes, mostrando que meu problema era pequeno perto do deles, até profissionais, como o Guigo (Guilherme Lopes) e o Fred (Frederico Ribeiro). Esses são dois profissionais de Educação Física, que me mostraram que eu poderia competir, poderia voltar a praticar esportes, só que, claro, com que me restou de movimentos: os BRAÇOS. No hospital conheci a canoagem, basquete e a natação. Escolhi o esporte mais difícil para um lesado medular com pouco equilíbrio, a natação. Em duas semanas treinando, e reaprendendo a nadar, o Guigo já me levou pra nadar no lago Paranoá, nunca bebi tanta água na minha vida. Na segunda vez, ele me fez nadar 600m de costas até uma ilha próximo ao hospital do lago norte. Uma sensação indescritível. Ali comecei a ver que só bastava ter força de vontade.”

Mas por que ele diz que escolheu o esporte mais difícil para um lesado medular?

“Voltei pra casa reabilitado. Já se passaram quatro anos do meu acidente. Hoje eu treino natação três vezes por semana. Conquistei mais de 40 medalhas, entre estaduais, regionais e sul-brasileiros na natação. Não sou um atleta de ponta por falta de incentivo, sempre conto com meu “paitrocínio” e também porque pra eu ser campeão brasileiro eu tenho que ser mundial e paralimpico, e estou na categoria do melhor paratleteta de todos os tempos, Daniel Dias. Por causa disso, de não ter muitas oportunidades, eu não consegui viver disso”

É, Thiago é um cara que mora numa região extremamente fria do país. Mas ele acorda cedo, as vezes com neblina e névoa. Vai pra uma piscina sem aquecimento, treinar antes de trabalhar! Isso é que é força de vontade! Mas, bater os índices do Daniel Dias é muito difícil! Então, apesar de tanto treino, esforço e disciplina, Thiago ficou no anonimato.

Perguntei se ele não gostaria de praticar outro esporte. A resposta foi óbvia: “Claro, Dani!”. Mas, então, o que falta? Foi o que disse, a natação é uma faca de dois gumes: é o esporte mais barato! Thiago gostaria de participar do basquete ou de corrida adaptada. Mas, pra isso, ele precisa de cadeiras específicas! E pensa que cadeira de rodas custa barato? Custa não!

E cadeiras pra praticar esporte chegam a custar o preço de uma moto.

E meu amigo continua aí, lutando, no anonimato, treinando firme e disciplinadamente. Aguardando o dia que ele possa ter uma chance, seja na natação, seja ganhando outra cadeira (Será que alguém quer ajudá-lo?) e partindo pra outro esporte! Mas pensa que ele fica triste por isso?

“Como não consigo viver de esporte, arrumei um emprego, sou Desenvolvedor de Software na maior empresa da Região no ramo. Vou me formar em Sistema de informação no fim do ano. Vou a boates, saio com meus amigos. Enfim, sou um cara realizado e cheio de vontade de viver. E agora, muito mais do que antes. Eu acredito em destino, e não imagino a minha vida sem as pessoas que me cercam hoje.”

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News

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