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abr

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Panamericano de Paratriathlon – Parte 2

Vamu lá, meu polvo e minha polva. Depois de tomar coragem e contar tudim pra vocês sobre o Panamericano do ano passado (antes tarde do que nunca), vamos falar sobre a prova desse ano.

Em agosto do ano passado, na primeira etapa do Campeonato Brasileiro de 2016, eu já tinha conseguido diminuir aqueles malditos 6 minutos do Panamericano e mais 2. Mas a prova era totalmente plana, então eu não estava com plena certeza de que eu manteria esse tempo numa prova cheia de subidas. E uma coisa que eu posso ter certeza é que nunca devemos ter certeza de nada. Como bem diz a Bíblia em Eclesiastes: o tempo e o  imprevisto sobrevém a todos (que o diga Vanderlei Cordeiro de Lima).

Verdade seja dita, eu não estava muito confiante na natação. Essa coisa do ir e vir pra Porto Alegre fez com que eu treinasse mais hand e mais cadeira, mas nadasse menos no frio. Com isso, meus tempos nos tiros de 50m e 100m pioraram consideravelmente.

Ainda assim, consegui fazer com que a roupa de borracha fosse uma aliada. No caminho pro Challenge de 2016, paramos numa loja  e compramos uma roupa sem mangas e menos apertada pra mim. O defeito dela é que é short (pernas curtas, como shorts mesmo), não long (pernas longas, tipo calça). Então, protege meus órgãos da água fria, mas não as pernas lá onde me causa dor neuropática. Mas, compramos no tamanho certo pra sair mais fácil do corpo (assim não preciso rolar na grama na transição, tipo um croquete sendo empanado). E por não ter mangas, me sufoca menos (não totalmente, mas menos) no pescoço e peito.

Nos treinos de transição em Porto Alegre, o Márcio começou a me acompanhar de bike. Isso me ajudou muito. Verdade seja dita, treinar sozinha é um saco furado hahaha. Ele ir comigo pedalar e correr era ótimo! Além disso, um casal de amigos  e atletas (ele vai fazer o Iron esse ano) começou a ir com a gente alguns finais de semana. Isso também é um incentivo a mais. E ela ajudava bastante, me puxando, e eu não podia reclamar tanto quanto reclamo quando tá só o Márcio :p

A viagem pra prova foi mega cansativa. O voo que deu pra pagar nos fez viajar muitas horas, pois tinha muitas paradas. Da hora que chegamos ao aeroporto aqui até a hora que chegamos na pousada em Sarasota (Flórida), levamos 29horas. Isso foi na quinta-feira. A prova seria sábado.

Dormimos cedo e até 8h da manhã de sexta. Saímos pra comer e, Márcio, Leo (outro atleta que dividiu o carro, as risadas e a companhia conosco) e eu, fomos pra minha reclassificação funcional.  Após as Paralimpíadas, a ITU decidiu fazer algumas mudanças nas categorias dos atletas de Paratriathlon. A reclassificação do Leo foi quinta, mas ele foi com a gente na minha. Amigo é amigo.

Saindo dali, foi o reconhecimento de percurso. A prova é no Nathan Benderson Park, com o percurso dentro e em volta do lago. Primeiro fomos pra  bike, e o Leo quis ir comigo. Não sei porque, a gente anda num sentido na sexta, mas a prova do sábado é no sentido contrário (acho que tem a ver com o trânsito fechado e quantidade de policiais pra fazer nossa segurança). Assim, não deu pra sentir a subida do ciclismo. Mas deu pra lembrar dela quando descemos ali, enquanto o Leo, atleta mais experiente que eu, dividia altruistamente comigo seus conhecimentos sobre pedal no contra vento . Na sexta pegamos vento em alguns trechos,  no sábado seria no sentido oposto, mas teria vento do mesmo jeito.

Saindo do ciclismo, era o reconhecimento da água. Eita nóis! Eu tava tremendo na base. Colocamos minha roupa de borracha e fomos pro píer. A água já estava cheia de paratletas  e atletas do convencional, que fariam sua prova antes da nossa, na manhã seguinte. Sentei ao lado do Aranha, mas ele nem sabia que eu queria um apoio moral e foi pra água. As outras meninas do Brasil também foram. Todo mundo já entra na água e sai nadando, porque ali é bem fundo e bem gelado. Mas eu pedi pro Márcio ficar ali perto. Fiquei dentro da água gelada, segurando no píer. Comecei a fazer os exercícios de respiração que o Juliano Pereira me ensinou e saí pra nadar. Até pensei em alcançar as meninas brasileiras que estavam bem ali. Mas pensei que tinha que ir no meu ritmo, e no meu tempo. Comecei tranquila. Mentira. Tava tranquila nada. Comecei a nadar e já deu aquele pavor e a falta de ar. Parei de nadar, coloquei a cabeça pra fora, respirei nadando cachorrinho e continuei. Se tinha um dia pra ir devagar, era hoje. Aquele trem daquela roupa me sufocando. Eu só repetia “calma, Danielle”. Devagar e sempre, cheguei na primeira bóia. Tinha duas pessoas ali, conversando. Parei pra respirar e olhar em volta. Parei pra me acalmar, mesmo. Eu tinha ainda a segunda boia e só depois começar a voltar. Fiquei com receio de chegar muito depois de todo mundo. Sabe como é, aquele medinho de ficar na água sozinha, não por ser a última, mas por ficar na água sozinha. Decidi voltar por onde eu vim. Hoje não era a prova e não havia problema nenhum nisso. No meio do caminho, veio um grupo no sentido contrário. Acho que eram uns 4 meninos. Mas não sei se eram paratletas ou do convencional. Aí, cheguei no píer e chamei o Márcio, que estava me esperando do outro lado, por onde todo mundo estava indo. Ufa, acabou! Saí da água. Pausei o relógio e vi que nadei 500m, contra os 50m do ano passado.

Troquei de roupa no carro (não havia outra opção. Eu praticamente fiquei parada e o boy me trocou, mas não contem pra ninguém) e fomos pro congresso técnico. Do outro lado do parque, tem um shopping. Comi o lanche (wrap de frango)  que tínhamos comprado lá.  Depois do congresso fomos pro hotel descansar. Apesar de nossa prova ser à tarde, eu não podia dormir tarde e correr o risco de acordar cansada.

No dia seguinte, acordei tranquila. Tínhamos tempo e o Léo precisava de ajuda para comprar alguns presentes pros filhos dele. Sim, ainda tive cabeça pra me distrair vendo as coisas dele. Comprei um wrap igual ao do dia anterior e fui pro parque comendo. Mas não consegui comer o lanche inteiro. Já tava um pouco ansiosa. “Mas, Dani, você não almoçou antes da prova?”. Por acaso alguém consegue bater um pratão de comida de manhã, antes de uma prova? É a mesma coisa, gente. Só mudou o horário. Eu não podia correr o risco de comer um pratão e vomitar no meio da prova. Já pensaram, que mico? Hahaha

Sempre antes da prova, há uma checagem no local da retirada do chip. Eles olham nosso capacete, o número colocado nos dois braços e nas pernas, o número na handbike e na cadeira de corrida, olham nosso macaquinho (se tudo que está escrito nele – nome do atleta, país, patrocinadores – segue as regras da ITU). Já com o chip na handbike e no meu tornozelo, preparamos a transição. Nossa largada é em ondas e  antes da primeira onda, todos devem sair da área de transição.

O sol tava castigando e eu estava com bastante medo de passar mal ali naquela espera. Todo mundo sabe que eu não transpiro e, se ficar no sol direto, posso ferver e até desmaiar. Eu e o boy procuramos uma sombra e ficamos ali por uns 20min. De volta pra largada eu tive 10minutos pra ficar nervosa. Nesses 10, fiquei conversando com o Márcio e ele me motivando e me acalmando. Por isso eu digo que, se você fica nervoso demais, é ótimo ter alguém por perto que te ajude e a focar na prova.

Quando eu menos esperava, começaram a chamar nossos nomes, pra nos dirigirmos ao píer. Funciona assim: a gente vai de cadeira até o píer, senta no chão com os pés na água (gelada). Aí tiram nossa cadeira dali e já levam pra saída da água. A largada dos cadeirantes também era em ondas. Masculino H1, Feminino H1 (a minha classe), Masculino H2 (a classe do Aranha) e Feminino H2 (nessa prova só havia meninas H1). 1 minuto de diferença entre as largadas. Não dá tempo pra pensar. Todos desejaram em voz alta “boa prova, gente”. E começaram os apitos.

Quando foi nossa vez, a americana se jogou na água e partiu. Já fez uma bela diferença com relação a mim.  Se eu me trucidasse, ainda conseguia alcança-la. Mas, pensei “pra que? Ela é mais rápida que eu na bike e na corrida. Eu vou me trucidar pra alcança-la, pode ser que eu não consiga e ainda vou sair da água podre.” Decidi fazer a minha prova. Olhar pra mim! Mas quando estava respirando, bem vi um dos caras da Federação Brasileira lá na beirada da água, acompanhando a mim, e ao Aranha, que largou 1minuto depois e já tava me alcançando (ele é foda! Um puta atleta). Aí eu queria nadar bonito hahahaha Desliguei a chavinha do pavor e fui. Quando cheguei na primeira bóia, eu ia ultrapassar um menino e ele simplesmente parou de nadar. Isso me quebrou. Pq eu tive que parar também pra não trombar com ele, já que ele cortou a minha frente. Ele disse algo sobre a perna dele. E eu vi que ele estava nadando pro lado contrário. Depois da prova fui um pouco criticada por ter perdido alguns segundos nessa hora. Mas eu perguntei se ele precisava de ajuda e disse que ele estava indo pro lado errado e pra ele me seguir. Aí, fui embora… Parecia que a terceira bóia não chegava nunca! Mas chegou e eu saí da água. Nessa hora, a gente nem vê o que acontecendo. Eu só sentei na cadeirinha e os fiscais começaram a me tirar da água. Ele já colocam a gente sentado na nossa cadeira de rodas. Eu também não vi, mas o Márcio já tava atrás de mim, puxando minha roupa de borracha pra baixo.

Da natação até a área de transição, temos que tocar nossa cadeira sem ajuda. Na grama. Adivinha o que aconteceu? Caí! De quatro! Bem bonita com o bundão pra cima e as mãos na terra. Gritei o Márcio. Ele voltou correndo, me botou na cadeira e eu entrei na transição. Aí ele me disse “Corre! Você saiu da água na frente de alguns homens.” Eita! Sério, gente? Então corre.

Mas, o ciclismo já começa com subida  pra sair da transição e eu não sabia nem cadê meus braços. Sobe e entra na pista que contorna o parque. Aí sobe de novo e desce, faz umas curvas e…um que tava atrás de mim já me passou. Fiquei pensando nas brincadeiras que eu fazia nos treinos de rua, quando eu mirava em alguém que tava na minha frente e tentava alcançar a pessoa. Decidi que iria fazer isso com ele. E fui atrás dele dando meu melhor, até no contra vento. Aí chegou aquela subida, pra terminar a primeira volta. E ele foi embora e eu fiquei. Na segunda volta, no mesmo ponto em que ele me ultrapassou na volta anterior, olhei pro garmin no pulso e vi que minha velocidade tinha caído. Pensei “Que isso? Ta maluca? Essa é a prova da sua vida.”

Na reta antes da subidona, fiquei pensando que não tinha visto a americana passar por mim, como no ano passado. Ou eu tava muito bem, e não era retardatária, ou eu tava muito mal. Dito e feito, ela me passou bem nessa hora. Deu um grito tipo “Go Danielle” e terminou o ciclismo dela. Eu ainda tinha mais um volta. Nessa última, eu só pensava “se mata, se vira.” No contravento era “ta esperando o que, franga?” Pedalei enlouquecida porque essa prova era tudo ou nada. E conforme eu acompanhava as parciais no Garmin, nem acreditava que eu ia conseguir fazer aquele tempo. Foi o melhor pedal da minha vida e eu entrei pra transição muito feliz!

A transição pra corrida foi muito rápida. O Márcio solta meus pés, me pega no colo pra me tirar da hand e já me coloca na cadeira. Enquanto ele amarra meus pés, eu coloco as luvas.

Eu saí muito empolgada, fazendo as contas meio que de cabeça, somando os tempos que via no relógio, da natação, da bike e das transições. Eu fui pra prova querendo fazer em 1h55. No meu sonho mais dourado eu queria fazer 1h50.  Mas pelos meus cálculos, eu tinha bastante tempo pra correr e fazer isso. E eu estava empolgadíssima, então ia ser demais.

Minha empolgação durou apenas 1 minuto! Pra corrida, você sai da transição já numa curva. Anda uns 30metros (ou menos) e já tem uma subida animal. Pra vocês terem uma ideia, quando fui tentar virar a roda da frente da cadeira, que ia bater na grade, como eu não dei uma mega impulso pra frente, a cadeira parou e começou a descer. E ali, eu quebrei. Tem que fazer muito esforço pra subir aquela ladeira do pico do Everest. E eu não treinei subida e me fu…

A corrida inteira é subida. Sobe e desce e sobe, sobe, sobe. Só isso. Quando tem uma descida pra aliviar, depois dela tem a mesma subida e a vida acaba. Pra piorar, tem só um ponto de água. Quando passei na ida, avisei o mocinho que queria água na volta. E na volta, o bonito tava la, belo e formoso sentado dentro da tenda. Eu gritei “água, água, por favor”. Ele pegou e, quando foi me entregar (atrasado), não teve a capacidade de andar mais rápido pra me dar a garrada. Tive que parar e virar pra trás pra pegar. Isso quebra o ritmo. E depois disso tinha… tcham tcham tcham tcham.. mais subida! Resumo da ópera: passei a corrida olhando pro garmin de km em km pra ver meu pace e calcular.

Mas, tudo que sobe, desce. Depois que eu trombei com o último cone da curva, desci aquela subida do início, fiz a curva e… vi o pórtico de chegada! Passei por ele e pausei o garmin. 1h48 cravado! E terminei em 2º lugar. Bem melhor que o meu sonho mais profundo. Só chorei. De alívio. De alegria. De dever cumprido. De endorfina. De realização pessoal. De ter baixado 18min do tempo do ano anterior. Foi maravilhoso. O Márcio até comentou que, quando eu saí pra correr, ele achava que eu ia fazer 1h45. Mas eu não treinei subida. E isso é mais um aprendizado pra mim, pra eu poder melhorar.

Aí, veio a hora mais feliz, a hora do pódio. A hora que passa o filme na nossa cabeça. A hora que só tenho a agradecer ao Márcio, por ter a paciência de me levar pra treinar, por ter ido comigo (ele paga a própria viagem), por ser um ótimo handler (nossa T2 foi mais rápida que a da americana), por ser um companheiro tão maravilhoso. Agradecer aos meus patrocinadores (Acquaflora, São Francisco Saúde, Manipularium, Companhia Athlética, Biaggio Calçados), pois sem a ajuda deles, sem que eles tivessem acreditado em mim, eu não conseguiria nem ter ido pra prova. Agradecer ao meu treinador, Rafael Falsarella, por esse 1 ano de parceria. Agradecer às empresas que me apoiam de alguma forma (com desconto, ou produtos). E agradecer a vocês, por estarem sempre comigo, me apoiando, me ajudando, me motivando.

O que ganhei com essa prova? Experiência, amadurecimento, aprendizagem. E uma vaga pro Mundial de Paratriathlon. Agora eu preciso do que? Patrocínio e treino. Muito treino! Quem vem comigo?

04
abr

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Panamericano de Paratriathlon – parte 1

Eita que lá vem textão!hahaha

Pois é…Engana-se quem pensa que foi a primeira vez que fiz essa prova. Ano passado, pouca gente se deu conta de que eu participei, pelo simples fato de que, no pós-prova, eu pouco escrevi sobre ela. E por que? Pelo simples fato de que eu estava frustrada demais comigo  mesma pra falar. Várias vezes eu comecei a escrever e nunca terminei. Várias vezes eu fiz posts mirabolantes na minha cabeça e nunca sentei pra escrevê-los. Porque eu não me perdoava!

Então, esse post vai ser sobre a maravilhosa prova que eu fiz esse ano. Mas também sobre perdão, sobre pedir ajuda, sobre lidar com a frustração e traçar novas metas para alcançar um velho objetivo.

Já ouviu aquela música do Netinho “tudo começou, há um tempo atrás”? A história dessa prova começou em 2015, quando fiz a Campanha #VemComADani e, com a ajuda de muitos de vocês que estão lendo, eu consegui comprar minha handbike de alumínio e depois, com mais ajuda, comprei minha própria cadeira de corrida.

Peguei as duas na segunda-feira à noite. O Márcio, que na época era só meu amigo e nunca tinha visto uma handbike na vida, teve que correr no supermercado pra comprar uma serra e serrar o suporte de pé. Afinal, eu nasci meia porção e a bike ficou cumprida pra mim. Dei uma volta na cadeira e duas voltas na bike (sendo que uma volta de bike foi no reconhecimento de percurso da prova).  Aí já começou a cagada! Eu fui pra prova sem conhecer meu equipamento. Mas eu tava tão feliz, achando que tudo ia dar certo.

 

Mas a cagada mór  nem foi essa. A Federação avisou que a temperatura da água estaria baixa e que seria necessário usar roupa de borracha. Eu nem tinha uma. Todo mundo me disse “Compra nos EUA. Lá é mais barato.” E a anta que vos fala, que nunca tinha nem segurado uma roupa de borracha na mão, começou a correr atrás de uma na semana da prova. Acabei ganhando uma do treinador de uma equipe de natação master, na região de Fort Lauderdale. E deixei pra vesti-la na véspera da prova, no reconhecimento de percurso. Fiquei muito apavorada na hora, aquele trem me sufocando. Não saía do lugar. Dei umas 10 braçadas, voltei  pro píer e pedi pro Márcio me tirar da água.

Sábado de manhã, acordamos 4h da manhã. Partimos pra prova, Márcio (meu handler), Adriele (minha amiga e também paratleta) e eu.  Meu coração parecia bateria de escola de samba. Eu tava mega nervosa  e me cobrando.

Já na natação, comecei a me apavorar. E vi as outras competidoras se distanciando muito de mim. Eu estava tão sem ar que cheguei a nadar costas e demorei anos luz pra chegar na primeira bóia. Mas quando cheguei ali e vi que enxergava a menina que estava em terceiro, decidi tentar alcançá-la. Eu já estava muito cansada, pois gastei toda a minha energia tentando me acalmar. Mesmo assim, resolvi dar tudo de mim. Saí da água com menos de 1 minuto da terceira colocada, mas eu já estava exausta!

A primeira transição foi tragicômica! Porque a roupa de borracha não saía de mim. O  Márcio me jogou no chão e puxava a roupa, mas ela não descia pelas minhas pernas. Perdemos tempo. Eu perdi energia…e confiança. Parti pra bike já me arrastando, mas tentando me concentrar. Mas não ultrapassava ninguém. Só lutava contra o vento forte e contra minha própria mente. Pra falar a verdade, sem tentar usar como desculpa ou justificativa, eu também estranhei o sistema de marchas. Era bem melhor que minha bike antiga, mas eu não tinha usado em subidas, e a prova tinha várias.

Pude contar com a agilidade do Márcio na transição dois. E parti pra corrida ainda querendo tirar meu atraso e alcançar a atleta que estava em terceiro. Porém, me deparei com uma grande dificuldade: subidas. Era a segunda vez que eu sentava naquela cadeira de corridas e usava aquelas luvas. E no meu passeio de conhecimento da cadeira, fiquei em terreno plano o tempo todo. Eu não conhecia o meu equipamento e ir pra prova nessa situação foi um erro grave. É a mesma coisa que um corredor tentar fazer uma maratona com um tênis novo. Vai dar merda! No caso de quem corre, pode dar bolhas, pode machucar a sola do pé, o calcanhar, pode apertar os dedos, pode acontecer um monte de coisas que atrapalhem. No meu caso, eu não sabia fazer curva, não sabia como posicionar a cadeira na reta e muito menos como usar aquelas luvas pra subida. Na hora eu só me desesperava por não sair muito do lugar. Foi depois de me perdoar pelas cagadas que consegui encontrar meus erros e tentar corrigi-los. Na hora da adrenalina a gente não pensa direito.

Lá pelo km2, avistei a terceira colocada voltando e eu estava indo. Ou seja, ela estava 1km na minha frente. Como a esperança é a última que morre, ainda pensei que teria uma chance de alcançá-la e dei tudo de mim.

Não foi o bastante. Terminei a prova em 4º lugar, sem medalha (nessa provas, não dá troféu pra pódio e nem medalha de participação pra todo mundo. É igual Olimpíada, só leva medalha pra casa quem ficou no pódio) e cheia de frustrações.

Ainda tentei disfarçar, afinal estava com a Dri e com o Márcio no quarto e não queria estragar a alegria de um pós-prova. Além disso, o Márcio era só meu amigo na época e eu não podia despencar na cabeça dele o que tava passando na minha. Mais que isso ainda, tinha a campanha #VemComADani e o pessoal tava doido pra ver as fotos com os equipamentos novos. E eu tinha que tirá-las, já que na prova não tinha fotógrafo.

Depois da prova, tirei uns dias lá nos EUA pra passear. Afinal, eu tinha dado aula de inglês por 10anos e nunca tinha ido pra lá. Como qualquer pobre mortal, eu queria ver o Mickey rsrs

Na volta pra casa, eu sabia que tinha que escrever sobre a prova. Tinha patrocinadores, amigos, familiares e seguidores torcendo por mim e esperando notícias. Mas eu não conseguia me perdoar pelas coisas que deram errado. Especialmente pelo meu pavor na água, que foi o que começou a estragar a minha prova. Saindo da água eu não tinha mais energia pro resto. E eu não sou má nadadora. Só ficava me perguntando por que isso, por que aquilo, culpando a roupa de borracha, culpando a mim mesma. Acabei ficando sem escrever pro blog durante muito tempo, pois tinha vergonha de falar sobre essa prova e achava que não podia ignorá-la e falar das outras. Eu não conseguia ignorá-la.

Muita gente ficou feliz por mim, por ser 4ª colocada. Mas eu fiquei 6minutos atrás da terceira (no triathlon isso é tempo pra caramba). Pra vocês terem uma ideia, só por trocar o equipamento eu diminuí 20minutos o meu tempo de prova. Isso é muito! E ao invés de focar no copo meio cheio, eu só focava no meio vazio. Ao invés de pensar em todo o potencial que eu tinha nas mãos para as próximas provas, a partir do momento que treinasse com os novos equipamentos, eu só pensava nos 6minutos que me distanciaram do pódio.

Esse tipo de pensamento negativo estraga qualquer coisa e mina nossa motivação por dentro. Sabe aquela história de pensamento negativo atrai coisas negativas? Foi bem isso. Eu voltei pra casa bem desanimada de treinar. Eu pensava só em emagrecer o 1,5kg que ganhei na casa do Mickey. Não tinha motivação pra tacar o pau nos treinos e diminuir aquelas 6 minutos.

Logo, eu e o Márcio começamos a namorar. Minhas idas pra Porto Alegre facilitavam meus treinos na cadeira de corrida, já que ele tinha carro pra me levar pra treinar na rua, e eu não tenho. (o rolo para a cadeira custa muito caro! Tanto ele quanto meu pai tentaram fazer um, mas nenhum dos dois rolos girou com a cadeira em cima). Assim, quando estava lá, eu treinava com a cadeira e treinava com a hand na rua, nos finais de semana. Em Ribeirão, só conseguia treinar com a handbike no rolo. E é assim até hoje.

 

Coloquei como objetivo fazer minha primeira maratona. Finalmente, depois de tantos anos esperando. Não ia ser como eu queria (correndo com as pernas), mas eu finalmente poderia realizar esse sonho. Escolhi a maratona de Porto Alegre, pra ele poder fazer ao meu lado, diminuirmos os custos de viagem (só um de nós viajaria e eu não gastaria com hospedagem, alimentação, transporte da hand). E era no dia dos namorados! Já escrevi até post sobre ela. Foi maravilhoso. E treinar pra uma maratona me deu um novo objetivo. Aí você diz: “ah, mas nos seus treinos longos você já tinha feito quase 60km.  Qual a diferença da maratona?” A diferença seria que eu fiz os 60km no rolo, dentro de casa, parando pra comer, parando pra ir ao banheiro, com o ventilador na minha cara e no verão. Pra essa prova, eu teria o desafio de controlar a minha água pra não morrer de sede, nem ter vontade de ir ao banheiro (como sempre acontecia lá pelo 18km), além de enfrentar vento, sol e, o mais temido da minha vida: o frio! Afinal, a largada dos cadeirantes foi 5h50 da manhã, num frio de 4º graus (quem me conhece sabe o que o frio representa pra mim). Eu precisava de um desafio, um objetivo, uma motivação. Então, meu conselho pra você é: sempre que estiver desmotivado, trace uma meta, coloque um objetivo pra você. Mesmo que pareça relativamente fácil de atingir. Isso ajuda muito no processo.

Na maratona de Porto Alegre, encontrei a Aline Rocha e o Fernando Orso. Foram eles que me ajudaram com as medidas da cadeira e a fazer a luva que uso hoje (é uma luva pra iniciantes, pra ser usada por 3 meses. Mas to com ela até hoje). Eles me apresentaram o Carlão, conhecido corredor de cadeira de rodas, um dos mais experientes do Brasil, o Jubile, um ótimo treinador, e o Letinho, um ótimo atleta. Os três juntos me deram lições valiosas da técnica de tocar a cadeira de corridas. Pois é, eu nem sabia que precisava de técnica. Achei que era só sair tocando. Ele me levaram pra aprender no rolo que o Carlão tem, e depois me levaram pra pista.

 

Então, eu já tinha conseguido corrigir alguns erros. Estava treinando com a cadeira e tendo ajuda para aprender a treinar direito. Estava treinando com a handbike na rua com a ajuda do Márcio. Aqui, vai mais uma dica: liste quais foram os possíveis erros ou obstáculos que você encontrou. E procure ajuda pra lidar com eles. Não tenha vergonha de pedir ajuda! Ninguém vive sozinho, ninguém é feliz sozinho e ninguém atinge seus objetivos sozinho. Peça ajuda a quem possa te ajudar, a quem sabe mais que você, a quem possa acrescentar pra você e pro alcance de suas metas.

Acabou o problema, então? Bóra treinar e fim. Há, até parece que é assim fácil. Demorei meses pra me perdoar. Vocês podem achar exagero. Talvez seja mesmo. Mas eu fiquei meses e meses pensando na natação, na largada, na roupa de borracha. Eu não conseguia esquecer isso. E gastei muita energia com isso. Energia que eu poderia ter gasto treinando, ficando com minha família, lendo, fazendo qualquer outra. Eu não conseguia me concentrar. E treinar no rolo, dentro de casa, atrapalhava mais ainda. Aí vinha gente e falava “assiste os vídeos do IronMan e do Tour de France enquanto você treina”. Pra mim era pior, pois eu ficava vendo aquelas pessoas incríveis e …pensando no meu erro de novo. Minha alternativa? Pensar em outra coisa. Como enquanto eu treinava? Comecei a ver séries e filmes. Assim eu me concentrava só no meu cronômetro e na história que estava sendo soprada nos meus ouvidos. Busque a alternativa que funcione melhor pra você, quando precisar.

“Tia Dani, e a água? Como foi voltar a treinar?”. Eu amo nadar. Foi normal. Mas eu dividi com a minha treinadora de natação da época, a Juliana Bezzon (que me treinou até janeiro de 2017) e com meu treinador de triathlon, o Rafael Falsarella, sobre as minhas dificuldades, meu nervosismo na largada, como eu fico uma pilha, como a roupa de borracha me atrapalhou, falei tudo que senti, o que pensei, como foi. Ambos começaram a trabalhar comigo. Além disso, eu dividi tudo isso com outros atletas experientes, do triathlon e da natação, a Paty Barros, o Alan Siqueira, o Chico Menez, o Jota Campos. Todos eles me deram vários conselhos e várias dicas. Novamente, peça ajuda de pessoas mais experientes que você, seja em qualquer campo da vida que você tenha um objetivo.

E aí vem a parte psicológica. Eita que essa é difícil. Cheguei a mandar mensagens para duas psicólogas do esporte. Mas em ano olímpico, elas estavam bem atarefadas com seus atletas.  Continuei dividindo algumas situações com outros atletas. E comecei a conversar com o Márcio sobre tudo isso. Como ele é ex-atleta de kart, pratica vários esportes e estava acompanhando meus treinos bem de perto, a ajuda dele foi extremamente importante, pra não dizer essencial, ao lidar com meu nervosismo e inseguranças. Como ele competiu muito tempo, ele entendia o que passava pela minha cabeça, diante de cada conquista ou obstáculo. E ele me ajuda a me perdoar! A enxergar que foi só uma etapa ruim, onde eu aprendi muito, e que eu estava lidando com cada barreira, uma a uma.

“E aí, Dani? Aí treinar foi fácil, né?! Como foi esse? Conte tudo, não esconda nada!”

Não vou esconder! Mas sobre o Panamericano desse ano, eu conto amanhã, no próximo post 😉