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Panamericano de Paratriathlon – parte 1

Eita que lá vem textão!hahaha

Pois é…Engana-se quem pensa que foi a primeira vez que fiz essa prova. Ano passado, pouca gente se deu conta de que eu participei, pelo simples fato de que, no pós-prova, eu pouco escrevi sobre ela. E por que? Pelo simples fato de que eu estava frustrada demais comigo  mesma pra falar. Várias vezes eu comecei a escrever e nunca terminei. Várias vezes eu fiz posts mirabolantes na minha cabeça e nunca sentei pra escrevê-los. Porque eu não me perdoava!

Então, esse post vai ser sobre a maravilhosa prova que eu fiz esse ano. Mas também sobre perdão, sobre pedir ajuda, sobre lidar com a frustração e traçar novas metas para alcançar um velho objetivo.

Já ouviu aquela música do Netinho “tudo começou, há um tempo atrás”? A história dessa prova começou em 2015, quando fiz a Campanha #VemComADani e, com a ajuda de muitos de vocês que estão lendo, eu consegui comprar minha handbike de alumínio e depois, com mais ajuda, comprei minha própria cadeira de corrida.

Peguei as duas na segunda-feira à noite. O Márcio, que na época era só meu amigo e nunca tinha visto uma handbike na vida, teve que correr no supermercado pra comprar uma serra e serrar o suporte de pé. Afinal, eu nasci meia porção e a bike ficou cumprida pra mim. Dei uma volta na cadeira e duas voltas na bike (sendo que uma volta de bike foi no reconhecimento de percurso da prova).  Aí já começou a cagada! Eu fui pra prova sem conhecer meu equipamento. Mas eu tava tão feliz, achando que tudo ia dar certo.

 

Mas a cagada mór  nem foi essa. A Federação avisou que a temperatura da água estaria baixa e que seria necessário usar roupa de borracha. Eu nem tinha uma. Todo mundo me disse “Compra nos EUA. Lá é mais barato.” E a anta que vos fala, que nunca tinha nem segurado uma roupa de borracha na mão, começou a correr atrás de uma na semana da prova. Acabei ganhando uma do treinador de uma equipe de natação master, na região de Fort Lauderdale. E deixei pra vesti-la na véspera da prova, no reconhecimento de percurso. Fiquei muito apavorada na hora, aquele trem me sufocando. Não saía do lugar. Dei umas 10 braçadas, voltei  pro píer e pedi pro Márcio me tirar da água.

Sábado de manhã, acordamos 4h da manhã. Partimos pra prova, Márcio (meu handler), Adriele (minha amiga e também paratleta) e eu.  Meu coração parecia bateria de escola de samba. Eu tava mega nervosa  e me cobrando.

Já na natação, comecei a me apavorar. E vi as outras competidoras se distanciando muito de mim. Eu estava tão sem ar que cheguei a nadar costas e demorei anos luz pra chegar na primeira bóia. Mas quando cheguei ali e vi que enxergava a menina que estava em terceiro, decidi tentar alcançá-la. Eu já estava muito cansada, pois gastei toda a minha energia tentando me acalmar. Mesmo assim, resolvi dar tudo de mim. Saí da água com menos de 1 minuto da terceira colocada, mas eu já estava exausta!

A primeira transição foi tragicômica! Porque a roupa de borracha não saía de mim. O  Márcio me jogou no chão e puxava a roupa, mas ela não descia pelas minhas pernas. Perdemos tempo. Eu perdi energia…e confiança. Parti pra bike já me arrastando, mas tentando me concentrar. Mas não ultrapassava ninguém. Só lutava contra o vento forte e contra minha própria mente. Pra falar a verdade, sem tentar usar como desculpa ou justificativa, eu também estranhei o sistema de marchas. Era bem melhor que minha bike antiga, mas eu não tinha usado em subidas, e a prova tinha várias.

Pude contar com a agilidade do Márcio na transição dois. E parti pra corrida ainda querendo tirar meu atraso e alcançar a atleta que estava em terceiro. Porém, me deparei com uma grande dificuldade: subidas. Era a segunda vez que eu sentava naquela cadeira de corridas e usava aquelas luvas. E no meu passeio de conhecimento da cadeira, fiquei em terreno plano o tempo todo. Eu não conhecia o meu equipamento e ir pra prova nessa situação foi um erro grave. É a mesma coisa que um corredor tentar fazer uma maratona com um tênis novo. Vai dar merda! No caso de quem corre, pode dar bolhas, pode machucar a sola do pé, o calcanhar, pode apertar os dedos, pode acontecer um monte de coisas que atrapalhem. No meu caso, eu não sabia fazer curva, não sabia como posicionar a cadeira na reta e muito menos como usar aquelas luvas pra subida. Na hora eu só me desesperava por não sair muito do lugar. Foi depois de me perdoar pelas cagadas que consegui encontrar meus erros e tentar corrigi-los. Na hora da adrenalina a gente não pensa direito.

Lá pelo km2, avistei a terceira colocada voltando e eu estava indo. Ou seja, ela estava 1km na minha frente. Como a esperança é a última que morre, ainda pensei que teria uma chance de alcançá-la e dei tudo de mim.

Não foi o bastante. Terminei a prova em 4º lugar, sem medalha (nessa provas, não dá troféu pra pódio e nem medalha de participação pra todo mundo. É igual Olimpíada, só leva medalha pra casa quem ficou no pódio) e cheia de frustrações.

Ainda tentei disfarçar, afinal estava com a Dri e com o Márcio no quarto e não queria estragar a alegria de um pós-prova. Além disso, o Márcio era só meu amigo na época e eu não podia despencar na cabeça dele o que tava passando na minha. Mais que isso ainda, tinha a campanha #VemComADani e o pessoal tava doido pra ver as fotos com os equipamentos novos. E eu tinha que tirá-las, já que na prova não tinha fotógrafo.

Depois da prova, tirei uns dias lá nos EUA pra passear. Afinal, eu tinha dado aula de inglês por 10anos e nunca tinha ido pra lá. Como qualquer pobre mortal, eu queria ver o Mickey rsrs

Na volta pra casa, eu sabia que tinha que escrever sobre a prova. Tinha patrocinadores, amigos, familiares e seguidores torcendo por mim e esperando notícias. Mas eu não conseguia me perdoar pelas coisas que deram errado. Especialmente pelo meu pavor na água, que foi o que começou a estragar a minha prova. Saindo da água eu não tinha mais energia pro resto. E eu não sou má nadadora. Só ficava me perguntando por que isso, por que aquilo, culpando a roupa de borracha, culpando a mim mesma. Acabei ficando sem escrever pro blog durante muito tempo, pois tinha vergonha de falar sobre essa prova e achava que não podia ignorá-la e falar das outras. Eu não conseguia ignorá-la.

Muita gente ficou feliz por mim, por ser 4ª colocada. Mas eu fiquei 6minutos atrás da terceira (no triathlon isso é tempo pra caramba). Pra vocês terem uma ideia, só por trocar o equipamento eu diminuí 20minutos o meu tempo de prova. Isso é muito! E ao invés de focar no copo meio cheio, eu só focava no meio vazio. Ao invés de pensar em todo o potencial que eu tinha nas mãos para as próximas provas, a partir do momento que treinasse com os novos equipamentos, eu só pensava nos 6minutos que me distanciaram do pódio.

Esse tipo de pensamento negativo estraga qualquer coisa e mina nossa motivação por dentro. Sabe aquela história de pensamento negativo atrai coisas negativas? Foi bem isso. Eu voltei pra casa bem desanimada de treinar. Eu pensava só em emagrecer o 1,5kg que ganhei na casa do Mickey. Não tinha motivação pra tacar o pau nos treinos e diminuir aquelas 6 minutos.

Logo, eu e o Márcio começamos a namorar. Minhas idas pra Porto Alegre facilitavam meus treinos na cadeira de corrida, já que ele tinha carro pra me levar pra treinar na rua, e eu não tenho. (o rolo para a cadeira custa muito caro! Tanto ele quanto meu pai tentaram fazer um, mas nenhum dos dois rolos girou com a cadeira em cima). Assim, quando estava lá, eu treinava com a cadeira e treinava com a hand na rua, nos finais de semana. Em Ribeirão, só conseguia treinar com a handbike no rolo. E é assim até hoje.

 

Coloquei como objetivo fazer minha primeira maratona. Finalmente, depois de tantos anos esperando. Não ia ser como eu queria (correndo com as pernas), mas eu finalmente poderia realizar esse sonho. Escolhi a maratona de Porto Alegre, pra ele poder fazer ao meu lado, diminuirmos os custos de viagem (só um de nós viajaria e eu não gastaria com hospedagem, alimentação, transporte da hand). E era no dia dos namorados! Já escrevi até post sobre ela. Foi maravilhoso. E treinar pra uma maratona me deu um novo objetivo. Aí você diz: “ah, mas nos seus treinos longos você já tinha feito quase 60km.  Qual a diferença da maratona?” A diferença seria que eu fiz os 60km no rolo, dentro de casa, parando pra comer, parando pra ir ao banheiro, com o ventilador na minha cara e no verão. Pra essa prova, eu teria o desafio de controlar a minha água pra não morrer de sede, nem ter vontade de ir ao banheiro (como sempre acontecia lá pelo 18km), além de enfrentar vento, sol e, o mais temido da minha vida: o frio! Afinal, a largada dos cadeirantes foi 5h50 da manhã, num frio de 4º graus (quem me conhece sabe o que o frio representa pra mim). Eu precisava de um desafio, um objetivo, uma motivação. Então, meu conselho pra você é: sempre que estiver desmotivado, trace uma meta, coloque um objetivo pra você. Mesmo que pareça relativamente fácil de atingir. Isso ajuda muito no processo.

Na maratona de Porto Alegre, encontrei a Aline Rocha e o Fernando Orso. Foram eles que me ajudaram com as medidas da cadeira e a fazer a luva que uso hoje (é uma luva pra iniciantes, pra ser usada por 3 meses. Mas to com ela até hoje). Eles me apresentaram o Carlão, conhecido corredor de cadeira de rodas, um dos mais experientes do Brasil, o Jubile, um ótimo treinador, e o Letinho, um ótimo atleta. Os três juntos me deram lições valiosas da técnica de tocar a cadeira de corridas. Pois é, eu nem sabia que precisava de técnica. Achei que era só sair tocando. Ele me levaram pra aprender no rolo que o Carlão tem, e depois me levaram pra pista.

 

Então, eu já tinha conseguido corrigir alguns erros. Estava treinando com a cadeira e tendo ajuda para aprender a treinar direito. Estava treinando com a handbike na rua com a ajuda do Márcio. Aqui, vai mais uma dica: liste quais foram os possíveis erros ou obstáculos que você encontrou. E procure ajuda pra lidar com eles. Não tenha vergonha de pedir ajuda! Ninguém vive sozinho, ninguém é feliz sozinho e ninguém atinge seus objetivos sozinho. Peça ajuda a quem possa te ajudar, a quem sabe mais que você, a quem possa acrescentar pra você e pro alcance de suas metas.

Acabou o problema, então? Bóra treinar e fim. Há, até parece que é assim fácil. Demorei meses pra me perdoar. Vocês podem achar exagero. Talvez seja mesmo. Mas eu fiquei meses e meses pensando na natação, na largada, na roupa de borracha. Eu não conseguia esquecer isso. E gastei muita energia com isso. Energia que eu poderia ter gasto treinando, ficando com minha família, lendo, fazendo qualquer outra. Eu não conseguia me concentrar. E treinar no rolo, dentro de casa, atrapalhava mais ainda. Aí vinha gente e falava “assiste os vídeos do IronMan e do Tour de France enquanto você treina”. Pra mim era pior, pois eu ficava vendo aquelas pessoas incríveis e …pensando no meu erro de novo. Minha alternativa? Pensar em outra coisa. Como enquanto eu treinava? Comecei a ver séries e filmes. Assim eu me concentrava só no meu cronômetro e na história que estava sendo soprada nos meus ouvidos. Busque a alternativa que funcione melhor pra você, quando precisar.

“Tia Dani, e a água? Como foi voltar a treinar?”. Eu amo nadar. Foi normal. Mas eu dividi com a minha treinadora de natação da época, a Juliana Bezzon (que me treinou até janeiro de 2017) e com meu treinador de triathlon, o Rafael Falsarella, sobre as minhas dificuldades, meu nervosismo na largada, como eu fico uma pilha, como a roupa de borracha me atrapalhou, falei tudo que senti, o que pensei, como foi. Ambos começaram a trabalhar comigo. Além disso, eu dividi tudo isso com outros atletas experientes, do triathlon e da natação, a Paty Barros, o Alan Siqueira, o Chico Menez, o Jota Campos. Todos eles me deram vários conselhos e várias dicas. Novamente, peça ajuda de pessoas mais experientes que você, seja em qualquer campo da vida que você tenha um objetivo.

E aí vem a parte psicológica. Eita que essa é difícil. Cheguei a mandar mensagens para duas psicólogas do esporte. Mas em ano olímpico, elas estavam bem atarefadas com seus atletas.  Continuei dividindo algumas situações com outros atletas. E comecei a conversar com o Márcio sobre tudo isso. Como ele é ex-atleta de kart, pratica vários esportes e estava acompanhando meus treinos bem de perto, a ajuda dele foi extremamente importante, pra não dizer essencial, ao lidar com meu nervosismo e inseguranças. Como ele competiu muito tempo, ele entendia o que passava pela minha cabeça, diante de cada conquista ou obstáculo. E ele me ajuda a me perdoar! A enxergar que foi só uma etapa ruim, onde eu aprendi muito, e que eu estava lidando com cada barreira, uma a uma.

“E aí, Dani? Aí treinar foi fácil, né?! Como foi esse? Conte tudo, não esconda nada!”

Não vou esconder! Mas sobre o Panamericano desse ano, eu conto amanhã, no próximo post 😉

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