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fev

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Tetracanoagem

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Com muito orgulho, o primeiro post da coluna “Gente” de 2016 tem mais de uma pessoa! Vou contar a história de alguns amigos meus que decidiram inovar diante da dificuldade.

Meu primeiro contato com a tetracanoagem foi através do meu amigo Marcelo Carmessano. E ele mesmo conta sua história com o esporte: ” Minha historia neste esporte começou em 2011 em uma de minhas internações na Rede Sarah onde usam a canoagem como forma de reabilitação. A sensação que senti quando entrei naquele caiaque foi indescritível, estar na mesma condição de pessoas sem nenhum tipo de deficiência foi muito bom. EM 2012 conheci o Fernando Fernandes que na ocasião me muito suporte pra adquirir o caiaque mais adequado pra meu nível de lesão e desde então venho participando dos campeonatos Estaduais, Nacionais e internacionais, inclusive me tornei em 2015 bicampeão mineiro de paracanoagem. Em 2015, lutamos bastante para ser criada uma nova categoria para tetraplégicos com o nome sugestivo dado pelo Felipe Pacheco de TETRACANOAGEM e estamos aguardando a concretização dessa categoria este ano ainda. Mas o mais importante de tudo isso foi que nunca desisti e sempre persisti e insisti naquilo que eu queria e a partir desse ano esperamos colher os frutos e elevar a TETRACANOAGEM aos mais altos níveis de competição. “

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Depois, ouvi sobre o esporte por meu amigo Douglas Rodrigues. Esse Frangolino (apelido carinho pelo qual nos chamamos) foi parceirão em 2014, quando passei por alguns problemas e, mesmo de longe, ele ficou do meu lado. O Douglas é de Lontras e teve lesão C5, C6 e C7, num mergulho em águas rasas em 2012. Ele luta muito pra treinar num trecho curto de água que tem em sua cidade. E também participou das provas de 2015. Tão doido pela tetracanoagem e pelo paraciclismo (ocasiões em que nos encontramos pessoalmente), ele teve uma lesão por excesso de treino e nos ensinou, em 2015, como a perseverança nos ajuda a lidar com a dificuldade. Além disso, mostra como o apoio da família e dos amigos é fundamental. Ele conta com a parceria incondicional do seu paizão, e também ajuda do melhor amigo. Só assim ele pode treinar adequadamente e vem se destacando no esporte.

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Agora, o trem ferve mesmo com o Felipe Pacheco! É o remador mais experiente de todos eles. Foi o primeiro de todos a começar na tetracanoagem, e eu deixo que ele mesmo conte sua história:

“Sofri um acidente automobilístico em 09/05/2009, em Campinas aos 25 anos de idade. Nessa época eu  havia me formado em administração de empresas, trabalhava e amava treinar musculação . Eu sofri o acidente no sábado à noite , véspera dos dias da mães . Fiquei na Unicamp e fui transferido para São Paulo na segunda feira 11/05/2009 na o hospital Santa Catarina . Fiquei internado 23 dias na uti e depois fui para o quarto. Fiquei la até 21/08/2009, onde fiz 2 cirurgias .

Quando cheguei em casa , me senti muito mal por não conseguir fazer tudo que  fazia antes. Foi aí que a história do Fernando (Fernandes) me chamou atenção, quando ele diz que a canoagem te trouxe a liberdade e a sensação de igualdade. Fui atrás dele na raia da Usp e ele me ajudou a me adaptar. Na época, em 2011, só tinha eu de Tetraplegico . Com meus vídeos fui chamando a atenção e consegui trazer mais 5 tetras. Antes deles virem competir eu sempre disputava provas com os paraplégicos onde era impossível eu sonhar em vencer . Mas hoje temos nossa categoria. Fui campeão da Copa Brasil de Tetracanoagem, campeão sul-americano e campeão Pan-Americano e do campeonato brasileiro de tetracanoagem. Essas vitórias e resultado de um trabalho intensivo de treinos na raia da USP com o Professor Ricardo Linhares , treinos de recuperação motora e treinamento de fortalecimento, acompanhamento nutricional  e suplementação.”

Então, pedi pra ele me contar como foi convencer os outros meninos a começar e qual foi a sensação da primeira prova só com tetras.

“Quando comecei a treinar , comecei a divulgar nas minhas redes sociais fotos e vídeos dos meus treinos , ai veio o Marcelo Carmessano de Minas Gerais. Junto com ele conseguimos a adaptação dos flutuadores para auxiliar no equilíbrio ai fomos disputar por 2 anos na categoria de paraplégicos junto com o Fernando Fernandes. Foi aí que vimos que seria impossível ganharmos alguma prova por conta da lesão e das dificuldades que temos.

Então, com a nossa persistência e alegria , chamamos a atenção de mais pessoas , como o Douglas Rodrigues ( Santa Catarina ) Michel galo ( piraju) Alan Mazzoleni ( São Bernardo ) Thiago ( Rio de Janeiro ) . Não convenci ninguém , esse esporte é maravilhoso. Quando a pessoa rema uma vez ,ela não quer parar mais!

Agora estamos conquistando nosso espaço , conseguimos nosso espaço nos campeonatos nacionais que já é um grande feito . Sobre a primeira prova de tetras , eu fiquei muito ansioso , tive até febre de ansiedade no dia anterior, meus pais ficaram doentes uma semana antes, minha mãe internada com infecção intestinal e meu pai com dengue. Por alguns instantes achei que iria desistir , foi foda, mas já estava me preparando para essa prova há meses. Então, o corpo estava preparado, só tive que cuidar da mente. Fui na raça, fiz essa prova e ganhei pelos meus pais, que sempre me apoiaram e estiveram do meu lado. E também pela minha família e amigos que estiveram lá na torcida. A sensação de ganhar é maravilhosa, passou um filme na minha cabeça de todos os treinos , dores , sofrimentos . Mas tudo valeu e está valendo a pena , essa categoria vai crescer muito , iremos fazer muito barulho aind . Tem muitas pessoas vindo atrás de mim para começar a treinar e eu estou duplicando tudo q fiz .”

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Outro tetra que experimentou a tetracanoagem foi o Alan Mazzoleni, conhecido entre os deficientes pelo programa de rádio Viva as Diferenças. Ele faz provas de rua, de 5 e 10km, usando a cadeira do dia a dia, e também treina paddleboard. Como foi sua experiência no caiaque? Foi assim:

“Fui m dia experimentar o caiaque do Felipe Pacheco. O mesmo me chamou pra participar de uma apresentação junto com outros tetras no sul-americano de paracanoagem, assim como me juntar a eles para fortalecer a criação da categoria dos tetras no campeonato brasileiro. Para apresentação fiz em único treino numa prancha de stand up sentado num banco adaptado feito pelo Bruno Guazzelli do ”Praia Acessível”.

No dia do evento estava ansioso, o caiaque que remei era emprestado( acabei comprando após o evento) e chegou em cima da hora. Foi só o tempo de encaixar o flutuador do jeito que dava já que a furação não batia (o flutuador serve para dar um pouco mais de equilíbrio), improvisar o apoio da costa, prender o remo nas mãos com uma luva que fixa o remo na mão, e arrumar o regulador da perna dentro da embarcação,  temos que ficar com as pernas retas e como tudo foi rápido não deu pra esticar tudo. Fui pra água, saí remando e as pernas um pouco dobradas foram dando espasmos. Segui tentando me sintonizar entre equilíbrio e remada. Enfrentamos um vento muito forte nesse dia que atrapalhou a todos, na largada já bateu aquela adrenalina e sai remando tentando aprender qual era o melhor jeito, se remar rápido e curto ou se longo e forte. Mesmo com tudo sendo novidade, me surpreendi quando vi que cheguei em terceiro, fiquei muito feliz. Ainda eufórico e já com um gosto de quero mais, fiz uma manobra errada e cai na água, de barriga pra baixo e com o remo preso, me contaram que todos que assistiam se assustaram porque o resgate tava longe, mas como treino muito queda, giro de corpo, resgate e manter a calma aqui com a equipe Supirados e meu instrutor Ricardo Allmada de paddleboard (remada deitada por longa distância ), consegui manter a calma e fiz a manobra até me virar e esperar o resgate chegar. Foi um dia ímpar, cheio de emoções e realizações.”

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Tenho muito orgulho de todos esses relatos e essas conquistas desses meninos  são da minha geração e nós somos “xóvens”). Só nos mostram como a perseverança e a vontade nos levam aonde quisermos.

Quer conhecer mais a fundo a tetracanoagem? Acompanhe as conquistas de todos eles nas redes socias!

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10
maio

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Cadeirante correndo em Interlagos? Por que não?

Um belo dia, abro meu Facebook e vejo uma foto de um dos meus amigos virtuais, falando que estava indo treinar em Interlagos. Como louca cadeiruda que sou, não duvidei do meu amigo sobre rodas. Mas pensei: “um dia quero ver isso de perto”.

Cadeirantes em Interlagos – Foto: Divulgação

E esse dia chegou! Mas deixa eu contar como. Conheci esse meu amigo, o Thiago, pessoalmente, na Reatech. Fui dar uma olhada no stand deles e conheci os outros pilotos.

Paulo Polido, que além de piloto é idealizador desse projeto, era piloto de motocross. Aliás, foi o motocross que o deixou cadeirante, pois ele se acidentou durante uma prova. Mas isso não o abalou! Em 2006 foi o 1º piloto deficiente a participar do Rally Internacional dos Sertões e formou a 1ª equipe com pessoas com deficiência a participar das 500 Milhas de Kart da Granja Viana. Quem é próximo brinca que ele tem um motor no lugar no cérebro. Tanto que conseguiu voltar ao motocross recentemente! Sim, ele é cadeirante, mas lutou tanto por esse sonho, que conseguiu!

O Tales Lombardi era piloto de aeronaves, ficou na cadeira após uma falha mecânica no helicóptero que pilotava. Pensa que ele ficou na cadeira pensando que a vida acabou? Agora ele voa baixo nas pistas, pois é campeão de kart adaptado e piloto em Interlagos.

E o Thiago Cenjor, que ficou cadeirante após um assalto. Foi integrante da equipe de kart adaptado, que o Paulo formou em 2006. E anos depois também foi campeão de kart adaptado!

Lá na Reatech, conversei bastante com eles e eles me convidaram pra estar no box da Equipe IGT, na próxima etapa do Campeonato Marcas e Pilotos, que seria em duas semanas, em Interlagos. E eu fui!
Quem olha os carros na pista, não percebe que um deficiente está pilotando um deles. Fui olhar de perto as adaptações feitas no carro. Tem que ter raça pra pilotar um carro não-automático, naquela velocidade toda.

E quem pensa que os meninos foram lá de alegres, sem preparo nenhum, está muito enganado. Pra ter a carteira de piloto, a PGC (Pilotos Graduação de Competição), eles treinaram muito, passaram por exames médicos e tiveram que, inclusive, provar que conseguem sair do carro em 15 segundos, durante os testes.

Os meninos ainda estão começando, afinal, estamos na 4ª etapa de um mega projeto que está apenas no início. Mas a corrida já emociona, pelo barulho dos carros acelerando nos boxes, pelo apoio da torcida, pela adrenalina do ronco dos motores passando a toda velocidade na pista. Aí você pensa que quem está ali é um cadeirante, que podia estar em casa reclamando da vida, sentado na cadeira de rodas lamentando o acidente, sentado no sofá com o controle da TV na mão. Mas ele está ali, correndo de igual pra igual com 40 andantes, ou mais. Provando pra si e pros outros, que quando a gente quer, a gente vai lá e faz!

Duvida? A próxima etapa é dia 26 de maio. A entrada em Interlagos é gratuita, mas o estacionamento é pago. Mas vai lá, senta na arquibancada, assiste a corrida e tente descobrir qual é o carro dos “malacabados” na hora da largada!

Ah, e pros meus amigos cadeirudos que estão querendo por fim à vida de lamentações, o Paulo está procurando gente pra correr de kart na equipe deles. Procure por ele e faça um test! Quem sabe você também não se torna um viciado por esportes a motor?

Texto originalmente publicado no Blog Mãos pelos Pés, no Running News

16
abr

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Vela: um caso de amor

Quando você está apaixonado, você tem vontade de sair gritando pro mundo! O povo já trata de mudar o status do Facebook rapidinho. Será que posso ter dois novos amores? Será que posso colocar lá “em caso de amor com a vela e a canoagem”?

Vela no Lago Paranoá – Foto: Arquivo Pessoal

Meu Deus! Fiquei em dúvida sobre qual escrever primeiro. Aí, optei pela vela! Sem ciúme, canoagem, caiaque gracinha, vocês serão os próximos!

Contando a verdade. Quando li “vela” na minha grade de atividades do Sarah, não me empolguei. Pensei “mas que porcaria eu vou fazer lá?” E tinha 2 horas de atividade marcadas! Ó meu Deus! Respiremos!

Aí vem o querido professor Rodrigo, com aula de teoria! E eu, sentada (óbvio), adorando!

Vários significados novos para as palavras. Orçar, não é fazer orçamento! Caçar não é ficar atrás de um bicho com a intenção de atingi-lo com projétil (muito menos o que uns caras bobos fazem quando vão pra balada). Morder não é aquilo que o cachorro faz. Biruta não é gente doida. Catraca não é de ônibus, nem a da porta da academia. E ainda tem arribar, cambar, bombordo, boreste, retranca, quilha, jaibe, través…Leme, proa e popa, nem vou comentar, porque todo mundo sabe o que é!

E eu pensando:”Como eu vou decorar tudo isso?”. Claro que o professor ajudava, com umas piadinhas que…melhor não comentar! E depois eu pensava: “Pra que eu preciso saber tudo isso, se é só sentar naquele veleiro enorme e ficar curtindo o vento?” Ahãm…doce ilusão. E ainda bem que era ilusão! Porque no veleirinho amarelo, o Escape, é bem melhor! Centenas de vezes melhor!

Bem, entramos com o veleiro na água e eu já entendi o porquê do “Dani, vai de maiô e um shorts”. Entrou água pra tudo que era lado. Quem me conhece sabe bem a cara que eu fiz nessa hora. No melhor estilo “oba” possível.

Mas ainda não estava mega empolgada. Achei que ia ser uma paradeira danada. Até que os ventos começam a soprar, o professor diz “Dani, pega o leme” e começa a usar todas aquelas palavras lindas que eu tinha acabado de aprender e reaprender e eu fui ficando muito louca! Depois, o professor e o marinheiro, responsável por nos acompanhar no bote ao lado, começaram a falar outras palavras lindas e eu fui ficando mega empolgada!

Fizemos treino de sobrevivência, pois é necessário aprender a saber o que fazer caso a embarcação vire e você caia na água. E eu, mesmo de colete salva-vidas, dei umas braçadinhas na água do lago, para poder alcançar a popa e subir novamente (sozinha) na embarcação. E me empolguei mais ainda com tanta adrenalina!

No primeiro dia pareceu muito complicado, mas muito, muito ótimo. E eu saí da água com aquele gostinho de quero-mais, contando os segundos para a próxima aula.

A segunda aula chegou num dia de tempo nublado. Já fiquei toda triste, pensando que não ia ter aula. Até que um dos marinheiros do Sarah disse “Hoje está bom demais pra vela. Olha o vento” e apontou pra água. Eu conseguia ver o vento, mas não para onde ele estava indo ou de onde estava vindo. Aprendi nesse dia. O professor Rodrigo também me ensinou como perceber, pela água, que uma rajada de vento de aproxima. E nesse dia, meus amigos, tivemos várias e fortes rajadas de vento e a aula de vela mais animalmente empolgante da minha vida! A embarcação, que obviamente é na horizontal, chegou a verticalizar. Mesmo com o professor e eu fazendo peso pro lado contrário. Foi o dia que mais aprendi na prática. E fiquei sozinha por uns 5 minutos na vela. O professor voltou com medo que um jaibe fizesse a retranca bater na minha cabeça com muita força (falei grego?).

A Vela Adaptada, no Brasil, teve início em 1999 com o Projeto Água-Viva, desenvolvido a partir de uma parceria entre a Classe de Vela Day Sailer, o Clube Paradesportivo Superação e o Clube Municipal de Iatismo em São Paulo.

Os atletas treinam em vários tipos de barcos: o 2.4mR, oficial das Paraolimpíadas, o Day Sailer, barco de 5 metros sem quilha, que não é oficial. Em 2008 chegou ao país o barco Sonar, que foi usado pela equipe brasileira nas Paraolimpíadas de Pequim, e que será usado para treinamento dos atletas que participarão das Paraolimpíadas de 2012.

Com o apoio do CPB, a Vela paralímpica vem tendo um crescimento exponencial, tendo a equipe da CBVA conseguido a vitória de representar o país nas Paraolimpíadas de Pequim, com os atletas cariocas Luiz Faria, Darke de Matos e Rossano Leitão.

Pessoas com deficiência locomotora ou visual podem competir na modalidade. A Vela paralímpica segue as regras da Federação Internacional de Iatismo (ISAF) com algumas adaptações feitas pela Federação Internacional de Iatismo para Deficientes (IFDS). Três tipos de barco são utilizados nas competições paralímpicas: o barco da classe 2.4mR tripulado por um único atleta; o barco da classe Sonar, com 3 atletas; e o barco SKUD-18 para 2 tripulantes paraplégicos, sendo obrigatoriamente 1 tripulante feminino.

As competições, denominadas de “regatas”, são percursos sinalizados com bóias, feitas de acordo com as condições climáticas, de forma que o atleta teste todo seu conhecimento de velejador. Barcos com juízes credenciados pela ISAF fiscalizam o percurso, podendo o atleta ser penalizado com pontos, caso infrinja alguma regra. Uma competição é composta de várias regatas, ganhando o evento aquele que tiver melhor resultado, após a somatória de todos as suas colocações nas regatas.

A vela é maravilhosa em dias sem vento, pra você curtir a paisagem, conversar (se tem alguém junto) e pensar na vida. Mas dá o maior trabalho pra sair do lugar. Você tem que ficar atrás do vento, cambando e cuidando pra vela não panejar (falei grego de novo, ou hebraico dessa vez?). Legal mesmo é quando tem aquele ventão.

Mas, independente de como seja, amigos e amigas cadeirudos, eu indico! Tentem! Mas vão com quem manja, pra não passar apuros. E pros andantes que tiverem a chance, tentem também! Vale muito a pena!”
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20
fev

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Natação Adaptada

Como todo mundo já percebeu, depois do meu acidente, eu virei peixe (baleia não,por favor!), trocando as ruas e pistas de corrida pela piscina.

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Segundo o site oficial do Comitê Paralímpico Brasileiro, a natação está presente no programa oficial de competições desde a primeira Paraolimpíada, em Roma (1960). Homens e mulheres sempre estiveram nas piscinas em busca de medalhas. O Brasil começou a brilhar em Stoke Mandeville (1984), quando conquistou um ouro, cinco pratas e um bronze. Nos Jogos Paralímpicos de Seul (1988) e nos de Atlanta (1996), os atletas trouxeram um ouro, uma prata e sete bronzes. Em Barcelona (1992), a natação ganhou três bronzes. Os Jogos de Sydney foram marcados pelo excelente desempenho da natação, que trouxe um ouro, seis pratas e quatro bronzes para o Brasil. Em Atenas, foram sete medalhas de ouro, três de prata e uma de bronze. No Parapan do Rio de Janeiro (2007) o Brasil ficou em segundo lugar geral da modalidade, perdendo para o Canadá, mas ficando na frente dos Estados Unidos. Foram 39 medalhas de ouro, 30 de prata e 29 de bronze.

Na natação, competem atletas com diversos tipos de deficiência (física e visual) em provas como dos 50m aos 400m no estilo livre, dos 50m aos 100m nos estilos peito, costas e borboleta. O medley é disputado em provas de 150m e 200m. As provas são divididas na categoria masculino e feminino, seguindo as regras do IPC Swimming, órgão responsável pela natação no Comitê Paralímpico Internacional.

As adaptações são feitas nas largadas, viradas e chegadas. Os nadadores cegos recebem um aviso do tapper, por meio de um bastão com ponta de espuma quando estão se aproximando das bordas. A largada também pode ser feita na água, no caso de atletas de classes mais baixas, que não conseguem sair do bloco. As baterias são separadas de acordo com o grau e o tipo de deficiência. No Brasil, a modalidade é administrada pelo Comitê Paralímpico Brasileiro.

O atleta é submetido à equipe de classificação, que procederá a análise de resíduos musculares por meio de testes de força muscular; mobilidade articular e testes motores (realizados dentro da água). Vale a regra de que quanto maior a deficiência, menor o número da classe. As classes sempre começam com a letra S (swimming) e o atleta pode ter classificações diferentes para o nado peito (SB) e o medley (SM).
(http://www.cpb.org.br/modalidades/natacao).

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Minha escolha foi feita pois o investimento inicial no esporte seria baixo. Precisei apenas de uma touca, um maiô e óculos.

Devido a esse baixo investimento, muito atletas também escolheram a natação para começar. E acabam ficando nela, por falta de recursos financeiros. Mas isso também os faz nadar, nadar e não alcançar a borda,ou seja, os tão sonhados troféu, medalha, patrocínio ou reconhecimento no esporte.

Esse é o caso de uma grande amigo meu, o Thiago Sartor, lá de Santa Catarina. Quando decidi começar a nadar e fui liberada pelo médico, esse mocinho lindo me ajudou muito! Me deu várias dicas pra sair dos espaguettis, pra perder o medo de colocar a cabeça na água de novo, me incentivou, me ouviu, me aconselhou. Por isso, quando decidi falar da natação adaptada, não quis contar sobre mim, mas sobre ele! Então, deixa ele começar, né?!

“Sempre gostei de jogar futsal, futebol, não era aquele jogador excepcional, mas sempre fui esforçado e esbanjava força física. Cheguei a jogar três anos no campeonato amador da minha cidade. E foi nessa época que comecei a trabalhar, terminei o ensino médio, comprei uma moto e começava ficar mais ‘livre’. Ao completar 18 anos tinha o que qualquer garoto nessa idade sonha: tinha meu transporte próprio, recebia dois salários mínimos, sem custo de moradia ou comida, pois morava com meus pais. Saía quase 3x por semana, fora quando não ia a bares, sempre de moto. No mês de

Dezembro de 2008, eu saí dia 12, não dormi dia 13. E no domingo (14), não soube dizer não ao um convite para mais uma festa, mesmo cansao e com sono.

Era um torneio de laço, uma festa sempre tradicional aqui no Sul. Bebi, dei risada, beijei, dancei muito. Aproveitei a festa até o ultimo minuto. Aquela noite estava diferente. Eu me lembro de ir ao banheiro, e de olhar para o céu, uma chuva fina caindo no meu rosto. Pensei: “Nossa que sensação boa”. Tudo estava diferente. Aproximadamente 21h30min eu chamei meu amigo para irmos embora. Estava lúcido, mas com certeza alterado com a bebida que ingeri. Fui para pista, senti que ela estava molhada, mas não dei muita bola. Como era uma BR(Nunca tinha dirigido em uma BR), acelerei. Passei por um posto policial, vi as luzes da minha cidade – a última imagem que lembro antes do acidente. Depois disso devo ter dormido, pois só lembro de mato e galhos batendo em meus braços e meu amigo gritando: “Aonde tu está indo?” Foi quando ‘acordei’, soltei o acelerador e senti galhos batendo em meus braços, um estouro e uma forte batida na cabeça.

Depois disso fiquei acordado sem poder me mexer. Achei muito estranho, uma sensação esquisita, pois nunca tinha quebrado nenhuma parte do corpo, apesar de ser sempre ‘meio maluco’. Mal eu sabia que tinha quebrado três vertebras, e com a fratura, uma lesão forte e completa na medula, ocasionando uma perda parcial de movimentos e sensibilidade do peito pra baixo.”

Tá achando ruim? Olha só o que os médicos fizeram: “Fiz a primeira cirurgia, errada por sinal, com um médico muito despreparado da minha cidade (Lages-SC). Depois de quatro meses tive que ir a Florianópolis tirar todo o material e fazer outra, só que bem feita. Hoje tenho 10 parafusos em minha coluna, que dão sustentação a ela.”

E foi assim que Thiago entrou pro time dos cadeirudos e cadeirudas, apesar de a ficha dele demorar um pouquinho pra cair.

Então, adivinha pra onde o Thiago veio? Exato! Aqui onde me encontro no momento: Hospital Sarah Kubitschek. No início, Thiago achou que viria pra cá a fim de voltar a andar. Mas teve que aprender, como muitos que chegam aqui, que o objetivo do hospital não é operar milagres!

Porém, logo tudo mudou! Mas deixa o Thiago contar com as palavras dele:

“Na época de internação, conheci pessoas que mudaram minha vida, desde pacientes, mostrando que meu problema era pequeno perto do deles, até profissionais, como o Guigo (Guilherme Lopes) e o Fred (Frederico Ribeiro). Esses são dois profissionais de Educação Física, que me mostraram que eu poderia competir, poderia voltar a praticar esportes, só que, claro, com que me restou de movimentos: os BRAÇOS. No hospital conheci a canoagem, basquete e a natação. Escolhi o esporte mais difícil para um lesado medular com pouco equilíbrio, a natação. Em duas semanas treinando, e reaprendendo a nadar, o Guigo já me levou pra nadar no lago Paranoá, nunca bebi tanta água na minha vida. Na segunda vez, ele me fez nadar 600m de costas até uma ilha próximo ao hospital do lago norte. Uma sensação indescritível. Ali comecei a ver que só bastava ter força de vontade.”

Mas por que ele diz que escolheu o esporte mais difícil para um lesado medular?

“Voltei pra casa reabilitado. Já se passaram quatro anos do meu acidente. Hoje eu treino natação três vezes por semana. Conquistei mais de 40 medalhas, entre estaduais, regionais e sul-brasileiros na natação. Não sou um atleta de ponta por falta de incentivo, sempre conto com meu “paitrocínio” e também porque pra eu ser campeão brasileiro eu tenho que ser mundial e paralimpico, e estou na categoria do melhor paratleteta de todos os tempos, Daniel Dias. Por causa disso, de não ter muitas oportunidades, eu não consegui viver disso”

É, Thiago é um cara que mora numa região extremamente fria do país. Mas ele acorda cedo, as vezes com neblina e névoa. Vai pra uma piscina sem aquecimento, treinar antes de trabalhar! Isso é que é força de vontade! Mas, bater os índices do Daniel Dias é muito difícil! Então, apesar de tanto treino, esforço e disciplina, Thiago ficou no anonimato.

Perguntei se ele não gostaria de praticar outro esporte. A resposta foi óbvia: “Claro, Dani!”. Mas, então, o que falta? Foi o que disse, a natação é uma faca de dois gumes: é o esporte mais barato! Thiago gostaria de participar do basquete ou de corrida adaptada. Mas, pra isso, ele precisa de cadeiras específicas! E pensa que cadeira de rodas custa barato? Custa não!

E cadeiras pra praticar esporte chegam a custar o preço de uma moto.

E meu amigo continua aí, lutando, no anonimato, treinando firme e disciplinadamente. Aguardando o dia que ele possa ter uma chance, seja na natação, seja ganhando outra cadeira (Será que alguém quer ajudá-lo?) e partindo pra outro esporte! Mas pensa que ele fica triste por isso?

“Como não consigo viver de esporte, arrumei um emprego, sou Desenvolvedor de Software na maior empresa da Região no ramo. Vou me formar em Sistema de informação no fim do ano. Vou a boates, saio com meus amigos. Enfim, sou um cara realizado e cheio de vontade de viver. E agora, muito mais do que antes. Eu acredito em destino, e não imagino a minha vida sem as pessoas que me cercam hoje.”

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News