19
ago

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Eu Maratonista

Comecei a correr no final de 2008 e minha primeira prova de 5km foi no início de 2009. Como eu sempre conto, quando passei pela primeira vez na linha chegada vi que queria fazer isso pro resto da minha vida!

Todo mundo que começa a amar a corrida, pensa em distâncias maiores. Se você corre 5km quer correr 10. Se corre 10 quer correr 21. Se faz a meia, começa a pensar na senhora das corridas, a maratona! E claro que eu pensava muito nela! Especialmente porque tenho grandes amigos maratonistas e passei anos babando em suas fotos emocionantes, pensando em como seria maravilhoso conquistar esse objetivo.

Claro que, no meio do caminho, corri a Maratona de São Silvestre, mas ela não fez de mim uma maratonista, pois, pra quem não sabe, a maratona tem 42km e a São Silvestre tem 15km!

Com o passar dos anos, e com algumas meias maratonas nas costas, em 2012 decidi que faria minha primeira maratona em 2013! Estava em dúvida se em Floripa ou Buenos Aires, que são percursos gostosos e não  sacrificantes pra quem vai estrear na distância.

Porém, o sonho foi interrompido em outubro de 2012, quando eu sofri o acidente que causou minha lesão medular e mudou para sempre minha vida.

Eu fiquei 1 ano e meio sonhando em voltar pras provas de corrida. Quem passeia pelo blog faz tempo, já conhece toda a história desses últimos 2 anos. A minha primeira meia maratona com uma adaptação de handbike emprestada. Depois o dia que eu ganhei a handbike e fiz uma prova de 10km, mesmo sem saber usá-la e com o freio do lado da minha mão pior. Depois a primeira meia maratona com a hand, o primeiro pódio, e ainda era uma Golden Four. Depois foram várias meias maratonas pelo país e até fora dele, revendo e conhecendo muita gente maravilhosa.

Depois teve o sonho realizado do triathlon, a ajuda de centenas de pessoas na Campanha Vem Com a Dani, pra troca da handbike, teve triathlon internacional (que eu nem contei ainda pra vocês como foi)…e nada de maratona…

No início desse ano eu comecei a namorar um gaúcho bonitão. Eu já sabia da existência da maratona de Porto Alegre, vários amigos cadeirantes viriam pra prova, mas, antes do boy, o Sul nunca me atraiu muito. A ideia de fazer alguma prova aqui não era arrebatadora. Porém, logo no comecinho do namoro, ele falou sobre fazermos a meia, dentro da maratona, juntos. (Pra quem não sabe, quando faço provas de 5km com a cadeira, ele corre do meu lado. Quando faço meias com a hand, ele vai de bike me acompanhando). Olhei pra ele e falei: “Eu quero fazer a maratona. Você faz comigo?” Claro que ele disse que sim.

A primeira coisa que eu fiz foi falar com meu treinador. Como eu já tinha feito treinos de 50 e 56km no rolo, achamos que a maratona não seria problema, mesmo eu não podendo parar pra ir ao banheiro (como faço quando to no rolo) e mesmo enfrentando algumas subidas na prova.

Pra coroar, a maratona de Porto Alegre seria dia 12 de junho, dia dos namorados. Seria minha primeira maratona e ainda com o boy me dando todo o suporte.

Quem me conhece sabe que meu maior pavor é o frio, pois ele me causa dor neuropática. E a promessa para o fim de semana da maratona era quase nível de congelamento pra mim. O que eu fiz? A tal da aclimatação. Viajei antes pra POA, e treinava na orla do Guaíba à noite, com 9 a 11º, pra acostumar com o frio e com um montão de roupas que eu teria que usar no dia.

Pois o dia chegou e, no domingo acordamos de madrugada, com a maior friaca que eu já senti. Coloquei então minha armadura: 3 calças legging (uma prometia ser térmica, mas mentiu pra mim), 2 meias grossas (uma também fazendo promessas e me iludindo), uma blusa fina de manga longa por baixo do meu uniforme (que eu tinha esperança que aparecesse em algum momento), uma jaqueta, um corta vento, duas luvas e um gorro por baixo do capacete (pra coroar minha beleza de mendiga no dia. Imagina como saí Bela e Recatada nas fotos da prova). Nem assim foi fácil enfrentar a largada de 3º e sensação térmica de -1º. Mas, pelo menos não choveu!

Combinei com o boy e com o treinador que eu faria um ritmo bem confortável nos primeiros 21km e, se sobrasse braço, eu daria uma apertadinha na segunda metade. E foi o que eu fiz. Também levei bastante água comigo e gel, pra não correr nenhum risco. Afinal, apesar de ser um pouco mais fácil fazer a maratona na hand do que correndo, eu não podia correr o risco de quebrar por falta de hidratação ou fome.

Largamos ainda no breu e eu me sentia a pata esquimó, porque tinha umas meninas correndo de sainha. Mas, cada um no seu cada qual. Eu não podia sentir dor neuropática, nem ter as pernas pulando de espasmo pra me atrapalhar a vida.

Na verdade, tive que arrumar meu pé esquerdo várias vezes durante a prova. Qualquer tremidinha por um desnível no asfalto, o pé pulava e entrava na roda ou se retorcia e me machucava. Nessa hora, o boy virou expert em arrumamento de pé! Ele ia bem na minha frente, descia da bike dele e me esperava passar. Eu diminuía o ritmo e ele arrumava meu pé em segundos. Assim eu não precisava frear totalmente a handbile e ter aquela dificuldade básica de retomar a mãodalada do zero.

Ele fez o mesmo nas 4 vezes que minha corrente saiu. E, graças ao boy, eu não tinha nem que me preocupar em abrir o gel com uma mão só e a boca. Ele já me entregava os sachês abertos! Com um apoio desses, só a subida mesmo pra me tirar do foco. Certo? Errado! Afinal, como diria Fê Balster, se tudo dá certo pra mim numa prova, é porque tem algo de errado.

Passei os primeiros 21km tranquila e feliz com meu tempo e achei que passaria ainda viva na linha de chegada. Lá pelo km 30 meu pesadelo começou: vontade de fazer xixi. Enquanto estava só doendo, tava ok. Mas, de repente, comecei a ter espasmos. E ainda faltava bastante pra prova acabar. Como desgraça é bobagem, lá pelo 35 começou a me dar dor de barriga. Aí a coisa ficou feia. Pra quem não sabe, lesado medular não tem controle urológico.  E meu medo era fazer na roupa, no meio da prova. Eu me contorcia de dor, já não sabia o que tava pior, o 1 ou o 2! Eu estava com 2h30 de prova. Apesar de estar com o boy pra me ajudar, não tinha banheiro no meio do caminho pra eu parar. Eu só tinha uma escolha: encontrar o banheiro no fim da prova.

Eu não tinha contado pra ninguém sobre meus planos. Como eu nunca tinha feito uma maratona, não tinha nem noção do tempo. Nos meus melhores sonhos, eu queria fazer em 3h. E se algo desse bem errado, eu coloquei meu limite pessoal pra 4h. Quando eu tava no km30, eu contei isso pro boy. Ele é muito bom de conta e começou a calcular até meu pace ideal e  qual a velocidade que eu tinha que manter, pra fechar a  prova em 3h. Nesse momento que eu tava entre pedalar e voar pro banheiro, ele começou a ditar meu ritmo e disse “se continuar assim, vai dar certo”.

Quando faltavam 5km pra fechar, ele disse “vai sobrar tempo”. Fiquei super feliz e aliviada. Mas faltando 3km, tinha subida. Não desanimei e comecei a pedalar mais forte. A verdade é que queria um banheiro hahahaha  Faltando 2km, eu disse pra ele “Pelo amor de deus, encontre um banheiro assim que chegarmos la”.

Os 2km finais foram muito emocionantes. Tinha familiares do pessoal que estava correndo e a galera que fez 21km, torcendo por nós no fim do percurso. Ouvi muitas palmas e gritos de incentivo. Isso torna tudo ainda mais maravilhoso. Quando avistei a rótula das cuias, pensei “é isso! Acabou”.

Passei pela linha de chegada, olhei pra trás…cadê o boy? Como ele era apoio e tava de bike, precisou dar a volta. A primeira coisa que eu pensava era “onde é o banheiro, meu deus?”. Não deu tempo nem de raciocinar. Saí pela área de escape depois da chegada e o boy me encontrou. Avistamos um banheiro químico do outro lado da grade. Falei pra ele “vai ter que ser ali e agora”. Uma senhora que estava entregando as medalhas se propôs a cuidar da hand pra nós, ele me pegou no colo e desceu o pequeno barranco, rumo à minha salvação.

Só lá no banheiro, sozinha, que a ficha caiu e eu chorei. Depois de tantos anos esperando, sonhando, imaginando como seria, eu finalmente cruzei minha primeira linha de chegada, depois de 42. 195m. Se você me perguntar “foi do jeito que você queria?” Claro que não! No meu sonho, eu fiz a prova toda correndo com as pernas, cruzava  a linha de chegada acabada, com os braços pra cima, pulando de felicidade. Na minha realidade, fiz tudo com os braços, e cruzei a linha de chegada freando a hand, pra não atropelar ninguém. Então, por que não seria do jeito que eu sonhei, eu deixaria de fazer? Eu preferi estar ali de cadeira de rodas do que não estar! Essa é minha escolha!

No dia dos namorados, teve pódio da minha primeira maratona, teve a realização de um sonho, teve o meu amor me apoiando o tempo todo e fechamos a prova em 2h53.

Um mês e meio depois, estava eu, indo pra largada da minha segunda maratona, a Asics City Marathon. Essa?Assunto pra outro post! Qual a próxima maratona? Não sei…ainda não escolhi. Aceito sugestões. Mas só pro ano que vem. Já foi emoção demais pra um ano só, né!

maratona de POA

12
ago

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Sobre Laís, a tocha e voltar a andar

Confesso que deixei passar uns bons dias, porque  achei melhor deixar o assunto esfriar. Aí, pensei em nem falar nada e deixar pra lá. Mas, ainda continuo ouvindo e lendo várias coisas sobre isso. Assim, decidi não me calar.

Durante a passagem da tocha olímpica pelo nosso país, alguns poucos atletas tiveram a honra de carregá-la. Entre esses está nossa querida Laís Souza, atleta olímpica que ficou tetraplégica em um treinamento.

Ao carregar a tocha, Laís optou pelo uso de um equipamento, uma cadeira de rodas que a deixava em pé.

Lais

 

 

Quando eu vi a foto, pensei :”Ela foi genial! Assim, quem a ajudaria a segurar a tocha, não precisaria ficar curvado, com perigo de cair no chão ou ter uma baita dor nas costas”.

Muitos brasileiros ficaram extremamente felizes e emocionados ao ver Laís de pé, mesmo que com ajuda da tecnologia.

No entanto, essa pareceu não ser a opinião de todos! Em alguns artigos escritos, e em algumas postagens nas redes, Laís foi acusada de “negar a classe”, rejeitando sua condição de cadeirante, não querendo fica sentada.

Eu respeito todas as opiniões, mas deixo claro aqui, que não concordo!

Eu não conversei com a Laís pra saber porque ela tomou essa decisão. Conversei apenas com Will, o cuidador dela, e deixei uma mensagem pra ela, apenas dando força e falando pra ela deixar pra la.

Ora, convenhamos, desde quando as pessoas não podem tomar suas próprias decisões? Desde quando Laís, eu ou você temos que pedir opiniões alheias ou justificar todas as nossas escolhas?

Algo que me intrigou profundamente foi o fato de que muitos cadeirantes estavam acusando Laís de desvalorizar a identidade do cadeirante e de não aceitar sua nova condição.

Porém, toda essa fomentação começou por parte de um jornalista (que gosto muito e respeito) que também é cadeirante, MAS (e mas com letras garrafais) não tem lesão medular! Pois é! Já expliquei aqui no blog que cadeirante não é tudo igual! O fato de a pessoa estar numa cadeira de rodas não indica que ela tenha a mesma patologia que seu amigo que também é cadeirante, ou o vizinho da sua prima ou até sua avó.  O fato de sermos cadeirantes não nos torna todos iguais!

Quem nasce cadeirante tem a “sorte” de crescer assim e não ter que se acostumar com uma mudança repentina de vida e universo. Eles já aprendem, desde pequenos, a tocar a cadeira (e isso os faz mais corajosos nas manobras) e desenvolver, desde cedo, habilidades que os ajudarão na vida sobre rodas.

Quem não nasce cadeirante tem sua vida tomada por uma nova realidade e tem que reaprender a viver.

Além disso, na grande maioria dos casos, quem nasce cadeirante não tem mais 800mil demandas que um lesado medular tem!

Acredito que, assim como eu, e milhares de pessoas ao redor do mundo, o maior sonho de Laís seja voltar a andar. Porém, voltar a andar não nos cura da lesão medular! Não!

Se algum dia eu voltar a andar, ainda terei que viver com meu maior pesadelo: a dor neuropática. Ela é causada pela lesão medular e, voltar a andar, não vai fazer eu me livrar dela! Ainda terei que tomar remédios, fazer tratamentos, levar injeções, viver encapotada, na esperança de passar algum dia sem dor. E ainda passarei dias na cama (como ontem), porque a dor não passa e não me deixa fazer mais nada.

Se algum dia eu voltar a andar, ainda sofrerei com os espasmos. Ainda terei que tomar mil remédios, na esperança de controlá-los e não ter uma contração muscular involuntária a cada 13 segundos (sim, eu tenho isso!).

Se algum dia eu voltar a andar, ainda terei problemas de bexiga e intestino, já que a lesão medular nos deixa com bexiga neurogênica e intestino sem controle. Então, eu ainda terei que tomar remédios pra isso e ainda irei de 2 a 6 vezes ao banheiro durante a noite, enquanto você está dormindo.

Se algum dia eu voltar a andar, ainda terei problemas de temperatura com calor. Como tenho lesão alta (C7 – tetraplegia incompleta), eu tive meu sensor de temperatura corporal alterado. Eu não transpiro mais! Então, meu corpo esquenta, esquenta e eu fervo! Pareço uma panela  de pressão, prestes a explodir. Corro o risco de desmaiar. Se você assistiu “Como eu era antes de você”  e prestou atenção na cena em que Clark enche Will de cobertas e, quando o cuidador chega, ele está quase desmaiado, tiram os edredons de cima dele, colocam ventilador pra ele resfriar…então, é exatamente isso!

Se algum dia eu voltar a andar, ainda terei problemas de temperatura com frio. Pois é, a coisa é feia pros dois lados. Da cintura pra baixo, eu gelo muito fácil! Chego a usar polainas em casa durante o verão! E, as vezes, eu nem sinto o frio, mas estou uma pedra de gelo! E meu corpo não aquece rápido igual ao de uma pessoa “normal” (sem lesão medular). Não é só sair do vento que ta tudo bem. Não! Uma vez gelada, eu continuo gelada por horas. E esse frio me causa….dor neuropática! Então, mesmo que eu volte a andar, se a lesão medular não for curada, eu ainda terei que usar meia calça no verão, sair com 300 meias, usar polaina no verão e só pegar avião de calça e botas (mesmo que lá fora esteja 40graus).

Se algum dia eu voltar a andar, minhas mãos comprometidas ainda estarão comprometidas. Eu ainda não consegui a coordenação motora fina de volta. A caneta vai continuar caindo da mão, eu ainda não conseguirei abrir embalagens sem usar a boca ou pedir ajuda, eu ainda não conseguirei segurar uma jarra pesada de suco pra me servir no almoço, nem vou conseguir costurar o botão da minha calça que caiu.

Quem nasceu cadeirante não tem nada disso! Quem ficou cadeirante, tem tudo isso e muito mais.

To falando que é melhor ser cadeirante assim ou assado? Melhor desse ou daquele jeito? Não! To falando que é diferente! O melhor é que ninguém fosse cadeirante! O melhor é que ninguém tivesse que passar por nada disso, nem questionar nada, nem ser questionador, nem implorar por uma rampa pra atravessar a rua, nem ter que mudar a opinião das pessoas sobre a deficiência! O melhor é que não precisássemos lutar pra conquistar nosso lugar no mundo e não tivéssemos que provar pra ninguém que somos tão capazes quanto, ou mais capazes do que quem não tem deficiência.

Porém, as diferenças existem e, se eu voltar a andar, não estarei “curada” da lesão medular. Se Laís voltar  a andar ela não estará “curada”.

Eu sei disso. Laís sabe disso. Sabrina sabe disso. Douglas sabe disso. Felipe sabe. Marcelo sabe. Greyce sabe. Carla sabe. Fabiula sabe…

Agora você também sabe.

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11
ago

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Paõzinho de frango com batata doce

Pãozinho, bolinho, até salgado maromba… as denominações são muitas, mas o resultado é o mesmo: uma delícia low carb e fácil de fazer! A verdade é que é tão fácil que dá até vergonha de passar a receita hahaha

paozinho frango com batata doce

Vamos lá?

Ingredientes:

Batata doce

Frango

Temperos

Só isso? Só isso! Juro! Eu acrescentei cenoura, pois tinha 3 toquinhos daqueles que sobram quando fazemos macarrão de vegetais. Quis aproveitar esses pedacinhos e ainda acrescentar vitaminas ao meu pãozinho.

Cozinhei 2 batatas doces na pressão, pra ser mais rápido. Fiz com casca e tudo, pois é mais fácil e rápido descascar depois de cozida. Depois de cozidas, reserve.

Cozinhei na pressão 500gr de peito de frango, com 3 dentes de alho, sal, alecrim e pimenta. Depois de cozido, desfie o frango (aquele truque de chacoalhar bravamente a panela de pressão – sem água, tá?! – super rola nesse momento) e reserve.

Descasque as batatas doces e amasse, como se fosse fazer um purê. Tempere com sal, pimenta, alho em flocos, lemon  and herbs.

Em uma vasilha, misture as batatas amassadas, o frango desfiado. Nesse momento coloquei as cenouras raladas. Faça bolinhas em forma de pãozinho. Leve ao forno por cerca de 30min, pra criar uma casquinha crocante.

Minha receita rendeu 30 bolinhos pequenos. Eu assei metade e congelei o restante.

Use a criatividade para substituir a cenoura por abobrinha ou outro ingrediente. Você também pode rechear os bolinhos com queijo, bacon. Varie de acordo com sua dieta e aproveite!