26
mar

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Eu e o basquete

Bem, prometi e agora tenho que cumprir! No último post prometi que eu falaria sobre o basquete adaptado. Então, here we go!

Primeira dica pras meninas cadeirudas que pretendem experimentar esse esporte: Se você tem frescura com unhas quebradas e é encanada com esmalte descascado, não jogue basquete na cadeira de rodas! Destrói suas unhas! Como eu não ligo pra isso (é só ir lá, lixar o que sobrou – das primeiras vezes eu quebrei TODAS as unhas – e pintar de novo), tenho adorado esse novo esporte!

É um esporte bem rápido, gostoso, estimula o espírito de equipe e treina sua agilidade com a cadeira.

Está certo que, no Sarah, jogamos só pra experimentar, movimentarmo-nos, por isso, a diversão é garantida! Ainda não tive a oportunidade de assistir a uma partida oficial. Creio que deve ser bem mais tenso. Mas, para quem deseja ingressar em um esporte adaptado, acho a opção ótima!

Utilizamos uma cadeira especial, com diferente cambagem nas rodas (as rodas não ficam na vertical, como nas cadeiras que utilizamos no dia-a-dia. Elas são posicionadas em um ângulo menor que 90º. Procurei na internet, e ainda não encontrei o ângulo).

Bom, mas para uma tetra como eu, nem tudo são flores. Eu não tenho força suficiente no braço (ainda) para arremessar a bola e alcançar a cesta. Já melhorei! Depois de jogar 4 vezes , já consigo acertar a redinha da cesta! Já é um avanço!

Tá, agora, vamos às regras do jogo! A cada dois toques na cadeira, o jogador deve quicar, passar ou arremessar a bola. Aí, quando alguém da mais de dois toques a gente grita “faaaaaaalta”. Isso não deve acontecer num jogo oficial! Com certeza não acontece! As dimensões da quadra e a altura da cesta são as mesmas do basquete olímpico. Estão vendo por que não consigo alcançar a cesta? É alto pra caramba!

Na primeira vez que jogamos, o professor deixou a gente se arrebentar. Calma! Ele deixou as disputas por bola serem bem…hum…animadas! Podíamos trombar as cadeiras e isso fez o jogo ficar divertido e rápido (no melhor estilo carrinho de trombada. Eu estava adorando). Porém,a partir da segunda vez que jogamos, foi-nos esclarecido que trombar a cadeira intencionalmente (eu fiz isso pra caramba na primeira vez) também é falta! Você precisa, no mínimo, tentar frear a cadeira. Então, lá vou eu, tem que defender a bola, tentar roubar do adversário, contar quantos toques no aro você deu pra não ser falta, lembrar de frear a cadeira pra não trombar com ninguém, arremessar satisfatoriamente para seus companheiros de equipe e (E!) tentar acertar a cesta! Ufa! Mas eu adoro!

Outra coisa que acontece conosco e eu não sei se acontece nos jogos oficiais é a nossa posição no jogo! Depois que já tinha jogado várias vezes (na verdade, to tentando contar e acho que foram mais de 4 vezes!), um menino debutando no basquete de cadeira, veio perguntar:”Dani, você é boa no ataque ou na defesa?” e eu disse :”na defesa”. Ele começou a dizer que eu tinha que me posicionar não sei onde na quadra, que ele ia jogar na frente…Tinha outro amigo na conversa. Olhamos um pra cara do outro e eu perguntei:”Você já jogou basquete na cadeira?”. Diante da resposta negativa do novo colega, meu amigo soltou: ”irmão, não dá tempo de nos separarmos por posição, não. O jogo é muito rápido.” Realmente, não sei como funciona isso num jogo oficial (quando eu assistir a um, eu conto tudo), mas no nosso, a questão de movimentação é bem rápida! De repente, você está embaixo da cesta de defesa e menos de um minuto depois, debaixo da cesta do ataque.

E eu não tenho medo de bolada, nem de me entrincheirar com os meninos na disputa de bola! Vou enfiando a cadeira no meio deles, e borá tentar roubar a bola e ser feliz!

Agora, vamos à história do basquete sobre cadeira. O basquete em cadeira de rodas começou a ser praticado nos Estados Unidos, em 1945.

Os jogadores eram ex-soldados do exército norte-americano feridos durante a 2ª Guerra Mundial. A modalidade é uma das poucas que esteve presente em todas as edições dos Jogos Paralímpicos. As mulheres disputaram a primeira Paralimpíada em Tel Aviv, no ano de 1968. O basquete em cadeira de rodas foi a primeira modalidade paralímpica a ser praticada no Brasil, em 1958. Os principais responsáveis pelos primeiros passos foram Sérgio del Grande e Robson Sampaio. Nos II Jogos Parapan-americanos, em Mar Del Plata, em 2003, a seleção brasileira masculina conquistou uma vaga para Atenas 2004 retornando a uma edição de Jogos Paralímpicos após 16 anos de ausência. Já a seleção feminina participou apenas dos Jogos de Atlanta 1996. No Parapan do Rio de Janeiro, em 2007, o Brasil conquistou o 4º lugar no feminino e o 3º no masculino. (http://www.cpb.org.br/modalidades/basquetebol/)

E, como em qualquer esporte adaptado, também há classificação funcional! Para quem quiser saber mais, inclusive sobre regras e campeonatos, há também o site da Confederação Brasileira de Basquete em Cadeira de Rodas (CBBC), – http://www.cbbc.org.br/

Bem, vim pra Brasília sabendo que há um time de basquete na minha cidade. No início, não foi algo que me apeteceu. Porém, agora confesso que eu até gostaria de ir uns dias pra me divertir e dar umas risadas nos treinos. E se, além da natação não encontrar mais nenhum esporte praticável na minha cidade, posso tentar o basquete . Isso porque minha paixão está nas águas mesmo. Mas isso ficará pros próximos posts. Sim, no plural! São dois esportes. Um post só não dará conta de tanta emoção!

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News

22
mar

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Sou tão tranquila e tão contente

“Hoje 22 de março de 2013 faz 5 meses que sofri o acidente que me levou a ter uma nova vida” Compartilho com vocês

Sabe, tenho andado tão distraída,

Impaciente e indecisa

E ainda estou confusa,

Só que agora é diferente:

Sou tão tranquila e tão contente…

É, isso tem dono! Copiei total do Legião (e eu nem gosto de Legião)!

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Mas é exatamente isso que senti hoje! Distraí-me tão facilmente, praticando uma pancada de esportes diferentes (achei que porrada ficaria feio, porque “sou mulherzinha”), que acabei não parando pra pensar o quanto mudei nesses últimos meses.

Apesar da alegria ainda fervilhar dentro de mim (e quinta-feira foi o dia do Puro Êxtase, como diria meu querido Frejat, na música do Barão Vermelho), percebi que estou um pouco caladinha nas últimas semanas…Um pouco é culpa do meu notebook que resolveu entrar em coma. Um pouco é culpa da nova rotina e dos novos remédios que castigam meu corpo. Um pouco é culpa minha mesmo, que acabei guardando pra mim tanta coisa que já aconteceu.

Me libertei de amarras indesejáveis que perseguem a maioria dos lesados medulares (só faço quando preciso), deixei minha feminilidade ressurgir das cinzas (mesmo com tão pouco cabelo, já que os remédios mandaram quase tudo pro lixo, pro ralo, sei lá pra onde) e estou um pouco mais reflexiva sobre algumas mudanças em mim e no meu corpo!

Certas coisas não são fáceis de aceitar (como meu panceps de tetraplégica), outras coisas são novidade pra mim. Quer um exemplo? Tive aula de vela essa semana (vou contar tudo em breve! ainda me refaço da emoção tão grande que tomou conta de mim!) e o pessoal do Náutico do Sarah vira pro professor e diz: “Ela leva jeito pra vela. É calma!”..gente, desde quando sou calma? Será que já to tão mudada assim? Não, o professor logo tratou de me zoar. Mas eu já estou um pouco mais controlada (será?).

É mesmo muita novidade em pouco tempo. E mudanças bruscas de rotina de uma hora pra outra, em poucos meses (pra quem nem usava cadeira de rodas e ficava da cama pro sofá, do sofá pra cama, agora não saio de cima dela o dia inteiro).

Mas algumas coisas eu já havia percebido e acabaram consolidando-se nesse período:

– Quem te ama de verdade, te ama andando, correndo, rodando, se arrastando, do jeito que for

– Há amigos que surgem do nada, nos momentos mais inesperados, e que estarão ao seu lado a vida inteira

– Há amigos que só mostram que estão do seu lado de verdade, quando você realmente precisa. E há aqueles que fogem, correm, desaparecem. Obrigada por sumir e deixar espaço livre pra quem vale a pena.

– Há amizades maiores do que qualquer laço de sangue

– Mesmo que laços de sangue te decepcionem, são seu sangue!

– Há momentos na vida que duram segundos, mas que você vai guardar pra sempre na memória e revivê-los como se estivessem ali, ao alcance das mãos. Aproveite-os pra sorrir de novo!

– Seja intenso em tudo que você faz, ou as oportunidades poderão escorrer por entre seus dedos, perder-se e não voltar mais!

– Seja você mesmo e sorria sempre, mesmo quando estiver chorando por dentro! O Sorriso é o melhor remédio pra qualquer mal, pois não permite que este suba pra sua cabeça ou pro seu coração! Aí você adoece de verdade!

– Sempre tente coisas novas! Arrisque e Surpreenda-se!

– Não permita que a raiva, chateação, tristeza, durem mais que algumas horas! Não vale a pena perder tempo com nada disso!

“Sua felicidade só depende de você.”

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News

12
mar

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Esporte Adaptado: Tênis de mesa

Depois de um enorme sumiço, cá estou eu novamente! É, quem pensa que a vida no Sarah é enfadonha está muito enganado! (pelo menos pra mim não está sendo!).

Quem me acompanha sabe que eu tive alta do Sarah Centro (onde ficamos internados) e estou em tratamento agora no Sarah Lago Norte (onde não há internação). Estou contando com a hospitalidade, carinho e generosidade de uma amiga e sua família (vocês vão conhecê-la melhor jaja). Para estar no Sarah Lago Norte 9h, eu acordo 6h (por uma questão de transporte do próprio Sarah) e quando são 21h eu já não paro sentada (visto que não dá pra eu parar em pé há alguns meses…).

Aqui em Brasília estou conhecendo vários esportes. Um deles foi o tênis de mesa. Quando eu era aborrescente, estava na 8ª série (hoje 9º ano) eu jogava ping-pong com os amigos, na hora do recreio. Mas isso faz muitos anos e eu nem me lembrava como segurar na raquete! Um belo dia, um amigo meu cadeirante, o Yugo, me convidou pra assistir o treino dele de tênis de mesa. Achei o máximo ir, porque achava (coitada de mim) que eu ainda sabia jogar. Lá fui eu, ver o treino e quase me escondi atrás de um pilar quando cheguei! Vários andantes e o Yugo cadeirante, treinando de um jeito que eu nunca tinha visto. Quando houve um momento propício, eu e outro amigo andante, pegamos as raquetes e começamos a brincar de bater bola na mesa. Eu tava achando fácil, o Yugo me ensinou onde posicionar a cadeira e estava na maior paciência do mundo, disfarçando, falando que eu estava jogando bem. Fui embora contente.

Na semana seguinte, eu tinha aula de tênis de mesa no Sarah! Achei que eu não teria dificuldade alguma. Até o professor começar a me ensinar direito! Eu pegava várias bolas, mas acertava todos os lugares da sala, menos a mesa do adversário! Até fui melhorando e fiz mais uma ou duas aulas. Até o professor dizer que eu preciso de paciência e concentração (alguém avisa pra ele que eu não tenho essas duas sobrando, mas faltando).
Ele me explicou várias coisas do tênis de mesa, regras, deu dicas…Mas aquilo não é pra mim, definitivamente!

Então, me resta torcer pra quem leva jeito! E quem leva é minha amiga hospitaleira Carla Maia! Carla é treta como eu, mas tem uma lesão mais alta que a minha e tem menos movimento que eu. Mas na mesa de tênis ela vira uma gigante! Eu me sinto uma formiguinha perto dela.

E pensar que o tênis de mesa entrou por acaso na vida dela. O treinador olhou pra ela (ela nunca tinha treinado!) e perguntou se ela gostaria de participar de um campeonato que aconteceria em alguns meses. Ela disse: “Se você conseguir me inscrever, eu começo a treinar”. Ela pensou que ele nunca mais ligaria pra ela! Em uma semana ele ligou e disse: “Pode vir treinar. Você está inscrita”. E ela arrasou! Como sempre, em tudo que ela faz na vida!

Nesse final de semana, Carlinha participaria da Copa Brasil de Tênis de Mesa. Claro que ela se inscreveu para os jogos Paralímpicos, na categoria dela. Mas Carla participará de um campeonato importante na Itália. Então, ela resolveu se inscrever no campeonato Olímpico (sim, com as andantes) “só pra treinar pra Itália”. O “só pra treinar” rendeu a ela a medalha de outro nos Paralímpicos, a medalha de bronze nos Olímpicos (sim, ela ganhou de várias andantes!) e o Troféu Eficiência.

Vendo Carla jogar, aprendi muito! A forma correta de sacar, como devolver uma bola. Claro que ela tem anos de técnica de jogo, mas ela deu um baile em muitas meninas.

Fiquei curiosa pra saber a idade do tênis de mesa como esporte paralímpico. E até que ele é bem velhinho! A modalidade começou em 1995, com a fundação do Comitê Paralímpico Brasileiro.

O tênis de mesa é um dos mais tradicionais esportes paralímpicos, disputado desde os Jogos de Roma tanto no masculino quanto no feminino. Todas as edições dos Jogos Paralímpicos tiveram disputas da modalidade.

No tênis de mesa participam atletas do sexo masculino e feminino com paralisia cerebral, amputados e cadeirantes. As competições são divididas entre atletas andantes e cadeirantes. Os jogos podem ser individuais, em duplas ou por equipes. As partidas consistem em uma melhor de cinco sets, sendo que cada um deles é disputado até que um dos jogadores atinja 11 pontos. Em caso de empate em 10 a 10, vence quem primeiro abrir dois pontos de vantagem. A raquete pode ser amarrada na mão do atleta para facilitar o jogo. A instituição responsável pela modalidade é a Federação Internacional de Tênis de Mesa (ITTF). Em relação ao tênis de mesa convencional existem apenas algumas diferenças nas regras, como na hora do saque para a categoria cadeirante. No Brasil, a modalidade é organizada pela Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM). (http://www.cpb.org.br/modalidades/tenis-de-mesa/).

É meus amigos, Carla e Zé, um dos treinadores dela, queriam aproveitar a oportunidade e a presença do classificador funcional ali, pra saber a minha classificação no tênis de mesa. Mas eu pensei que fosse brincadeira e perdi minha chance! Se bem que eu não levo o menor jeito! Então, creio que vocês não me verão nas mesas, segurando a raquete! Já que é assim, torçam pra Carlinha conseguir a vaga delas nas Paralimpíadas 2016. Assim vocês terão a chance de ver como se joga o tênis de mesa de verdade, com o coração e sorriso no rosto!

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News