10
maio

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Cadeirante correndo em Interlagos? Por que não?

Um belo dia, abro meu Facebook e vejo uma foto de um dos meus amigos virtuais, falando que estava indo treinar em Interlagos. Como louca cadeiruda que sou, não duvidei do meu amigo sobre rodas. Mas pensei: “um dia quero ver isso de perto”.

Cadeirantes em Interlagos – Foto: Divulgação

E esse dia chegou! Mas deixa eu contar como. Conheci esse meu amigo, o Thiago, pessoalmente, na Reatech. Fui dar uma olhada no stand deles e conheci os outros pilotos.

Paulo Polido, que além de piloto é idealizador desse projeto, era piloto de motocross. Aliás, foi o motocross que o deixou cadeirante, pois ele se acidentou durante uma prova. Mas isso não o abalou! Em 2006 foi o 1º piloto deficiente a participar do Rally Internacional dos Sertões e formou a 1ª equipe com pessoas com deficiência a participar das 500 Milhas de Kart da Granja Viana. Quem é próximo brinca que ele tem um motor no lugar no cérebro. Tanto que conseguiu voltar ao motocross recentemente! Sim, ele é cadeirante, mas lutou tanto por esse sonho, que conseguiu!

O Tales Lombardi era piloto de aeronaves, ficou na cadeira após uma falha mecânica no helicóptero que pilotava. Pensa que ele ficou na cadeira pensando que a vida acabou? Agora ele voa baixo nas pistas, pois é campeão de kart adaptado e piloto em Interlagos.

E o Thiago Cenjor, que ficou cadeirante após um assalto. Foi integrante da equipe de kart adaptado, que o Paulo formou em 2006. E anos depois também foi campeão de kart adaptado!

Lá na Reatech, conversei bastante com eles e eles me convidaram pra estar no box da Equipe IGT, na próxima etapa do Campeonato Marcas e Pilotos, que seria em duas semanas, em Interlagos. E eu fui!
Quem olha os carros na pista, não percebe que um deficiente está pilotando um deles. Fui olhar de perto as adaptações feitas no carro. Tem que ter raça pra pilotar um carro não-automático, naquela velocidade toda.

E quem pensa que os meninos foram lá de alegres, sem preparo nenhum, está muito enganado. Pra ter a carteira de piloto, a PGC (Pilotos Graduação de Competição), eles treinaram muito, passaram por exames médicos e tiveram que, inclusive, provar que conseguem sair do carro em 15 segundos, durante os testes.

Os meninos ainda estão começando, afinal, estamos na 4ª etapa de um mega projeto que está apenas no início. Mas a corrida já emociona, pelo barulho dos carros acelerando nos boxes, pelo apoio da torcida, pela adrenalina do ronco dos motores passando a toda velocidade na pista. Aí você pensa que quem está ali é um cadeirante, que podia estar em casa reclamando da vida, sentado na cadeira de rodas lamentando o acidente, sentado no sofá com o controle da TV na mão. Mas ele está ali, correndo de igual pra igual com 40 andantes, ou mais. Provando pra si e pros outros, que quando a gente quer, a gente vai lá e faz!

Duvida? A próxima etapa é dia 26 de maio. A entrada em Interlagos é gratuita, mas o estacionamento é pago. Mas vai lá, senta na arquibancada, assiste a corrida e tente descobrir qual é o carro dos “malacabados” na hora da largada!

Ah, e pros meus amigos cadeirudos que estão querendo por fim à vida de lamentações, o Paulo está procurando gente pra correr de kart na equipe deles. Procure por ele e faça um test! Quem sabe você também não se torna um viciado por esportes a motor?

Texto originalmente publicado no Blog Mãos pelos Pés, no Running News

02
maio

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Reatech 2013

Gente, aconteceu tanta coisa nesses últimos dias, que vocês devem pensar que os abandonei…Mas não é verdade! Olha a Reatech aí!

Primeiro, teve minha alta do Sarah. Sofri! Sofri muito! Chorei litros e baldes de lágrimas…E sinto muita falta do meu querido e amado “Quarteto Fantástico”, professores Fred, Cadu, Rodrigo e Elisa. Aprendi muito com eles e devo muito a cada um deles. E sinto falta do pessoal da Náutica, das enfermeiras, dos médicos, das fisioterapeutas, do Lago Paranoá…

Reatcech 2013 – Arquivo Pessoal

Também sofri muito ao me despedir da minha amiga Carla e da família dela. Eles cuidaram tão bem de mim e ela foi mais que uma amiga. Foi uma irmã! Chorei mais litros e baldes de lágrimas no avião (mas ela só ta sabendo agora dessa parte!)

Mas, mal coloquei minhas rodinhas em solo Ribeirão Pretano, lá fui eu alçar voo novamente. Dessa vez, fui pra São Paulo, direto pra Reatech 2013.

Pra quem não sabe, a Reatech é a Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade. E eu, fui direto pro stand da Mobility Brasil, que ficava bem na entrada da feira, onde eu aprendi muito, conheci e vi muita gente!

Foram quatro dias incríveis que eu tentarei resumir! Confesso que está até difícil escolher a foto pra esse post (queria poder colocar várias – pra quem quiser dar uma olhada em todas as que eu tirei, abri a visualização do meu álbum da Reatech no Facebook), quanto mais escrever um pouco do que rolou, sem ficar dias e dias aqui, escrevendo um pergaminho atrás do outro.

Pude conhecer amigos virtuais que, como qualquer outra pessoa, mata seu leão por dia pra sobreviver. Também pude conhecer pessoalmente amigos cadeirudos que já me ajudaram e ensinaram muito no mundo virtual e passaram pro mundo real.

Conheci pessoalmente, também, personalidades do mundo sobre rodas, que tenho a felicidade e honra de chamar de amigos, como Tabata Contri, Billy Saga, Jairo Marques, Fernando Fernandes, Selma Rodeguero, entre outros. E conheci pessoas importantes que acrescentaram muito no meu dia e na minha vida, como Mara Gabrili (uma simpatia e doçura) e Marcelo Yuka (5 minutos que valeram a pena na minha vida).

Mas eu não fui lá só pra ver gente (apesar de que, isso foi uma das coisas que mais gostei). Eu fui pra conhecer a feira e todas as novidades pra quem anda nas rodinhas.

Primeira coisa muito legal pros amantes de esportes eram as palestras do Comitê Paralímpico. Eu queria ter assistido todas, mas não pude.

Teve sobre canoagem, triathlon, Jogos Paralímpicos e por aí vai.

Tinha um stand bem legal, da Fundação Selma, onde o pessoal podia testar os benefícios da Equoterapia. Tá..não fui, porque morro de medo de cavalo! Mas tirei foto e fiquei um tempão olhando…

Havia o stand da Mobility Brasil, onde o pessoal podia tirar a medida da cadeira de rodas com especialistas, testar vários modelos e até sair com a sua TiLite lindona, na mesma hora. (Mas a minha chega daqui uns dias porque..bom, vou fazer surpresa).

Tinha o stand dos meninos do IGT, com as motos de motocross e o carro adaptado que a equipe de cadeirantes usa pra correr em Interlagos.

E pros amantes do esporte, havia quadras! Confesso que morri de vontade de ir jogar basquete todos os dias. Quase fui sequestrada por um amigo, no domingo. Mas fiquei com vergonha. Quem me leu, lembra que ainda não consigo alcançar a cesta…Havia pista de atletismo e houve futebol para cegos, testes de halterofilismo e canoagem (o Fernando me fez pagar mico, sentar no caiaque e simular uma remada, na frente das pessoas! Pensa num homem que só não foi enforcado porque havia muitas câmeras e testemunhas).

Agora, uma coisa muito legal que eu fiz foi…dirigir! Sim, peguei num volante pela primeira vez, depois de 5 meses e meio. Gostei tanto e fui tão bem atendida pelo moço (lindo, mas pula essa parte) prestativo, que testei cinco modelos, com adaptações diferentes. Eu pensava que só havia uma jeito de acelerar e frear com as mãos, empurrando e puxando a alavanca. Mas descobri que há outras formas. E eu até preferi! Vamos ver se consigo importar algo pro interior do estado!

Tive o privilégio de conhecer pessoalmente muitos atletas, de várias modalidades do esporte adaptado, como a Jady e o Dado, do ciclismo, o Evandro, que além de pedalar, joga golfe adaptado (será que eu vou testar isso um dia, com ele?), o Alex, da esgrima, o Thiago e o Paulo, meus amigos que pilotam em Interlagos. Aprendi muito com todos eles.

Verdade seja dita, aprendi o tempo todo nessa Reatech. Aprendi a respeitar e admirar todo tipo de deficiência, pois lá a convivência foi pacífica entre todos nós (tinha uns cães guia coisa mais fofa). Aprendi muito com as meninas que estavam comigo no stand da Mobility e que tem muito mais experiência sobre rodas do que eu. Aprendi muito nas conversar com Billy e Serginho do Movimento Superação e levo muita história pra contar.

Comentei com um amigo que, depois do Sarah e da Reatech, é bem complicado voltar pro mundo real, onde as calçadas são esburadas, onde não há banheiro adaptado em qualquer restaurante, onde os degraus são altos e curtos demais, ou a rampa é impossivelmente inclinada. Mas há sempre alguém disposto a empurrar sua cadeira e dar uma mãozinha quando sua mão de tetra falha (no caso, as minhas).

Ainda não contei sobre todos os esportes que aprendi no Sarah. Mas nós temos muitos posts juntos pela frente!

reatech 2013

16
abr

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Vela: um caso de amor

Quando você está apaixonado, você tem vontade de sair gritando pro mundo! O povo já trata de mudar o status do Facebook rapidinho. Será que posso ter dois novos amores? Será que posso colocar lá “em caso de amor com a vela e a canoagem”?

Vela no Lago Paranoá – Foto: Arquivo Pessoal

Meu Deus! Fiquei em dúvida sobre qual escrever primeiro. Aí, optei pela vela! Sem ciúme, canoagem, caiaque gracinha, vocês serão os próximos!

Contando a verdade. Quando li “vela” na minha grade de atividades do Sarah, não me empolguei. Pensei “mas que porcaria eu vou fazer lá?” E tinha 2 horas de atividade marcadas! Ó meu Deus! Respiremos!

Aí vem o querido professor Rodrigo, com aula de teoria! E eu, sentada (óbvio), adorando!

Vários significados novos para as palavras. Orçar, não é fazer orçamento! Caçar não é ficar atrás de um bicho com a intenção de atingi-lo com projétil (muito menos o que uns caras bobos fazem quando vão pra balada). Morder não é aquilo que o cachorro faz. Biruta não é gente doida. Catraca não é de ônibus, nem a da porta da academia. E ainda tem arribar, cambar, bombordo, boreste, retranca, quilha, jaibe, través…Leme, proa e popa, nem vou comentar, porque todo mundo sabe o que é!

E eu pensando:”Como eu vou decorar tudo isso?”. Claro que o professor ajudava, com umas piadinhas que…melhor não comentar! E depois eu pensava: “Pra que eu preciso saber tudo isso, se é só sentar naquele veleiro enorme e ficar curtindo o vento?” Ahãm…doce ilusão. E ainda bem que era ilusão! Porque no veleirinho amarelo, o Escape, é bem melhor! Centenas de vezes melhor!

Bem, entramos com o veleiro na água e eu já entendi o porquê do “Dani, vai de maiô e um shorts”. Entrou água pra tudo que era lado. Quem me conhece sabe bem a cara que eu fiz nessa hora. No melhor estilo “oba” possível.

Mas ainda não estava mega empolgada. Achei que ia ser uma paradeira danada. Até que os ventos começam a soprar, o professor diz “Dani, pega o leme” e começa a usar todas aquelas palavras lindas que eu tinha acabado de aprender e reaprender e eu fui ficando muito louca! Depois, o professor e o marinheiro, responsável por nos acompanhar no bote ao lado, começaram a falar outras palavras lindas e eu fui ficando mega empolgada!

Fizemos treino de sobrevivência, pois é necessário aprender a saber o que fazer caso a embarcação vire e você caia na água. E eu, mesmo de colete salva-vidas, dei umas braçadinhas na água do lago, para poder alcançar a popa e subir novamente (sozinha) na embarcação. E me empolguei mais ainda com tanta adrenalina!

No primeiro dia pareceu muito complicado, mas muito, muito ótimo. E eu saí da água com aquele gostinho de quero-mais, contando os segundos para a próxima aula.

A segunda aula chegou num dia de tempo nublado. Já fiquei toda triste, pensando que não ia ter aula. Até que um dos marinheiros do Sarah disse “Hoje está bom demais pra vela. Olha o vento” e apontou pra água. Eu conseguia ver o vento, mas não para onde ele estava indo ou de onde estava vindo. Aprendi nesse dia. O professor Rodrigo também me ensinou como perceber, pela água, que uma rajada de vento de aproxima. E nesse dia, meus amigos, tivemos várias e fortes rajadas de vento e a aula de vela mais animalmente empolgante da minha vida! A embarcação, que obviamente é na horizontal, chegou a verticalizar. Mesmo com o professor e eu fazendo peso pro lado contrário. Foi o dia que mais aprendi na prática. E fiquei sozinha por uns 5 minutos na vela. O professor voltou com medo que um jaibe fizesse a retranca bater na minha cabeça com muita força (falei grego?).

A Vela Adaptada, no Brasil, teve início em 1999 com o Projeto Água-Viva, desenvolvido a partir de uma parceria entre a Classe de Vela Day Sailer, o Clube Paradesportivo Superação e o Clube Municipal de Iatismo em São Paulo.

Os atletas treinam em vários tipos de barcos: o 2.4mR, oficial das Paraolimpíadas, o Day Sailer, barco de 5 metros sem quilha, que não é oficial. Em 2008 chegou ao país o barco Sonar, que foi usado pela equipe brasileira nas Paraolimpíadas de Pequim, e que será usado para treinamento dos atletas que participarão das Paraolimpíadas de 2012.

Com o apoio do CPB, a Vela paralímpica vem tendo um crescimento exponencial, tendo a equipe da CBVA conseguido a vitória de representar o país nas Paraolimpíadas de Pequim, com os atletas cariocas Luiz Faria, Darke de Matos e Rossano Leitão.

Pessoas com deficiência locomotora ou visual podem competir na modalidade. A Vela paralímpica segue as regras da Federação Internacional de Iatismo (ISAF) com algumas adaptações feitas pela Federação Internacional de Iatismo para Deficientes (IFDS). Três tipos de barco são utilizados nas competições paralímpicas: o barco da classe 2.4mR tripulado por um único atleta; o barco da classe Sonar, com 3 atletas; e o barco SKUD-18 para 2 tripulantes paraplégicos, sendo obrigatoriamente 1 tripulante feminino.

As competições, denominadas de “regatas”, são percursos sinalizados com bóias, feitas de acordo com as condições climáticas, de forma que o atleta teste todo seu conhecimento de velejador. Barcos com juízes credenciados pela ISAF fiscalizam o percurso, podendo o atleta ser penalizado com pontos, caso infrinja alguma regra. Uma competição é composta de várias regatas, ganhando o evento aquele que tiver melhor resultado, após a somatória de todos as suas colocações nas regatas.

A vela é maravilhosa em dias sem vento, pra você curtir a paisagem, conversar (se tem alguém junto) e pensar na vida. Mas dá o maior trabalho pra sair do lugar. Você tem que ficar atrás do vento, cambando e cuidando pra vela não panejar (falei grego de novo, ou hebraico dessa vez?). Legal mesmo é quando tem aquele ventão.

Mas, independente de como seja, amigos e amigas cadeirudos, eu indico! Tentem! Mas vão com quem manja, pra não passar apuros. E pros andantes que tiverem a chance, tentem também! Vale muito a pena!”
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26
mar

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Eu e o basquete

Bem, prometi e agora tenho que cumprir! No último post prometi que eu falaria sobre o basquete adaptado. Então, here we go!

Primeira dica pras meninas cadeirudas que pretendem experimentar esse esporte: Se você tem frescura com unhas quebradas e é encanada com esmalte descascado, não jogue basquete na cadeira de rodas! Destrói suas unhas! Como eu não ligo pra isso (é só ir lá, lixar o que sobrou – das primeiras vezes eu quebrei TODAS as unhas – e pintar de novo), tenho adorado esse novo esporte!

É um esporte bem rápido, gostoso, estimula o espírito de equipe e treina sua agilidade com a cadeira.

Está certo que, no Sarah, jogamos só pra experimentar, movimentarmo-nos, por isso, a diversão é garantida! Ainda não tive a oportunidade de assistir a uma partida oficial. Creio que deve ser bem mais tenso. Mas, para quem deseja ingressar em um esporte adaptado, acho a opção ótima!

Utilizamos uma cadeira especial, com diferente cambagem nas rodas (as rodas não ficam na vertical, como nas cadeiras que utilizamos no dia-a-dia. Elas são posicionadas em um ângulo menor que 90º. Procurei na internet, e ainda não encontrei o ângulo).

Bom, mas para uma tetra como eu, nem tudo são flores. Eu não tenho força suficiente no braço (ainda) para arremessar a bola e alcançar a cesta. Já melhorei! Depois de jogar 4 vezes , já consigo acertar a redinha da cesta! Já é um avanço!

Tá, agora, vamos às regras do jogo! A cada dois toques na cadeira, o jogador deve quicar, passar ou arremessar a bola. Aí, quando alguém da mais de dois toques a gente grita “faaaaaaalta”. Isso não deve acontecer num jogo oficial! Com certeza não acontece! As dimensões da quadra e a altura da cesta são as mesmas do basquete olímpico. Estão vendo por que não consigo alcançar a cesta? É alto pra caramba!

Na primeira vez que jogamos, o professor deixou a gente se arrebentar. Calma! Ele deixou as disputas por bola serem bem…hum…animadas! Podíamos trombar as cadeiras e isso fez o jogo ficar divertido e rápido (no melhor estilo carrinho de trombada. Eu estava adorando). Porém,a partir da segunda vez que jogamos, foi-nos esclarecido que trombar a cadeira intencionalmente (eu fiz isso pra caramba na primeira vez) também é falta! Você precisa, no mínimo, tentar frear a cadeira. Então, lá vou eu, tem que defender a bola, tentar roubar do adversário, contar quantos toques no aro você deu pra não ser falta, lembrar de frear a cadeira pra não trombar com ninguém, arremessar satisfatoriamente para seus companheiros de equipe e (E!) tentar acertar a cesta! Ufa! Mas eu adoro!

Outra coisa que acontece conosco e eu não sei se acontece nos jogos oficiais é a nossa posição no jogo! Depois que já tinha jogado várias vezes (na verdade, to tentando contar e acho que foram mais de 4 vezes!), um menino debutando no basquete de cadeira, veio perguntar:”Dani, você é boa no ataque ou na defesa?” e eu disse :”na defesa”. Ele começou a dizer que eu tinha que me posicionar não sei onde na quadra, que ele ia jogar na frente…Tinha outro amigo na conversa. Olhamos um pra cara do outro e eu perguntei:”Você já jogou basquete na cadeira?”. Diante da resposta negativa do novo colega, meu amigo soltou: ”irmão, não dá tempo de nos separarmos por posição, não. O jogo é muito rápido.” Realmente, não sei como funciona isso num jogo oficial (quando eu assistir a um, eu conto tudo), mas no nosso, a questão de movimentação é bem rápida! De repente, você está embaixo da cesta de defesa e menos de um minuto depois, debaixo da cesta do ataque.

E eu não tenho medo de bolada, nem de me entrincheirar com os meninos na disputa de bola! Vou enfiando a cadeira no meio deles, e borá tentar roubar a bola e ser feliz!

Agora, vamos à história do basquete sobre cadeira. O basquete em cadeira de rodas começou a ser praticado nos Estados Unidos, em 1945.

Os jogadores eram ex-soldados do exército norte-americano feridos durante a 2ª Guerra Mundial. A modalidade é uma das poucas que esteve presente em todas as edições dos Jogos Paralímpicos. As mulheres disputaram a primeira Paralimpíada em Tel Aviv, no ano de 1968. O basquete em cadeira de rodas foi a primeira modalidade paralímpica a ser praticada no Brasil, em 1958. Os principais responsáveis pelos primeiros passos foram Sérgio del Grande e Robson Sampaio. Nos II Jogos Parapan-americanos, em Mar Del Plata, em 2003, a seleção brasileira masculina conquistou uma vaga para Atenas 2004 retornando a uma edição de Jogos Paralímpicos após 16 anos de ausência. Já a seleção feminina participou apenas dos Jogos de Atlanta 1996. No Parapan do Rio de Janeiro, em 2007, o Brasil conquistou o 4º lugar no feminino e o 3º no masculino. (http://www.cpb.org.br/modalidades/basquetebol/)

E, como em qualquer esporte adaptado, também há classificação funcional! Para quem quiser saber mais, inclusive sobre regras e campeonatos, há também o site da Confederação Brasileira de Basquete em Cadeira de Rodas (CBBC), – http://www.cbbc.org.br/

Bem, vim pra Brasília sabendo que há um time de basquete na minha cidade. No início, não foi algo que me apeteceu. Porém, agora confesso que eu até gostaria de ir uns dias pra me divertir e dar umas risadas nos treinos. E se, além da natação não encontrar mais nenhum esporte praticável na minha cidade, posso tentar o basquete . Isso porque minha paixão está nas águas mesmo. Mas isso ficará pros próximos posts. Sim, no plural! São dois esportes. Um post só não dará conta de tanta emoção!

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News

22
mar

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Sou tão tranquila e tão contente

“Hoje 22 de março de 2013 faz 5 meses que sofri o acidente que me levou a ter uma nova vida” Compartilho com vocês

Sabe, tenho andado tão distraída,

Impaciente e indecisa

E ainda estou confusa,

Só que agora é diferente:

Sou tão tranquila e tão contente…

É, isso tem dono! Copiei total do Legião (e eu nem gosto de Legião)!

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Mas é exatamente isso que senti hoje! Distraí-me tão facilmente, praticando uma pancada de esportes diferentes (achei que porrada ficaria feio, porque “sou mulherzinha”), que acabei não parando pra pensar o quanto mudei nesses últimos meses.

Apesar da alegria ainda fervilhar dentro de mim (e quinta-feira foi o dia do Puro Êxtase, como diria meu querido Frejat, na música do Barão Vermelho), percebi que estou um pouco caladinha nas últimas semanas…Um pouco é culpa do meu notebook que resolveu entrar em coma. Um pouco é culpa da nova rotina e dos novos remédios que castigam meu corpo. Um pouco é culpa minha mesmo, que acabei guardando pra mim tanta coisa que já aconteceu.

Me libertei de amarras indesejáveis que perseguem a maioria dos lesados medulares (só faço quando preciso), deixei minha feminilidade ressurgir das cinzas (mesmo com tão pouco cabelo, já que os remédios mandaram quase tudo pro lixo, pro ralo, sei lá pra onde) e estou um pouco mais reflexiva sobre algumas mudanças em mim e no meu corpo!

Certas coisas não são fáceis de aceitar (como meu panceps de tetraplégica), outras coisas são novidade pra mim. Quer um exemplo? Tive aula de vela essa semana (vou contar tudo em breve! ainda me refaço da emoção tão grande que tomou conta de mim!) e o pessoal do Náutico do Sarah vira pro professor e diz: “Ela leva jeito pra vela. É calma!”..gente, desde quando sou calma? Será que já to tão mudada assim? Não, o professor logo tratou de me zoar. Mas eu já estou um pouco mais controlada (será?).

É mesmo muita novidade em pouco tempo. E mudanças bruscas de rotina de uma hora pra outra, em poucos meses (pra quem nem usava cadeira de rodas e ficava da cama pro sofá, do sofá pra cama, agora não saio de cima dela o dia inteiro).

Mas algumas coisas eu já havia percebido e acabaram consolidando-se nesse período:

– Quem te ama de verdade, te ama andando, correndo, rodando, se arrastando, do jeito que for

– Há amigos que surgem do nada, nos momentos mais inesperados, e que estarão ao seu lado a vida inteira

– Há amigos que só mostram que estão do seu lado de verdade, quando você realmente precisa. E há aqueles que fogem, correm, desaparecem. Obrigada por sumir e deixar espaço livre pra quem vale a pena.

– Há amizades maiores do que qualquer laço de sangue

– Mesmo que laços de sangue te decepcionem, são seu sangue!

– Há momentos na vida que duram segundos, mas que você vai guardar pra sempre na memória e revivê-los como se estivessem ali, ao alcance das mãos. Aproveite-os pra sorrir de novo!

– Seja intenso em tudo que você faz, ou as oportunidades poderão escorrer por entre seus dedos, perder-se e não voltar mais!

– Seja você mesmo e sorria sempre, mesmo quando estiver chorando por dentro! O Sorriso é o melhor remédio pra qualquer mal, pois não permite que este suba pra sua cabeça ou pro seu coração! Aí você adoece de verdade!

– Sempre tente coisas novas! Arrisque e Surpreenda-se!

– Não permita que a raiva, chateação, tristeza, durem mais que algumas horas! Não vale a pena perder tempo com nada disso!

“Sua felicidade só depende de você.”

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News

12
mar

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Esporte Adaptado: Tênis de mesa

Depois de um enorme sumiço, cá estou eu novamente! É, quem pensa que a vida no Sarah é enfadonha está muito enganado! (pelo menos pra mim não está sendo!).

Quem me acompanha sabe que eu tive alta do Sarah Centro (onde ficamos internados) e estou em tratamento agora no Sarah Lago Norte (onde não há internação). Estou contando com a hospitalidade, carinho e generosidade de uma amiga e sua família (vocês vão conhecê-la melhor jaja). Para estar no Sarah Lago Norte 9h, eu acordo 6h (por uma questão de transporte do próprio Sarah) e quando são 21h eu já não paro sentada (visto que não dá pra eu parar em pé há alguns meses…).

Aqui em Brasília estou conhecendo vários esportes. Um deles foi o tênis de mesa. Quando eu era aborrescente, estava na 8ª série (hoje 9º ano) eu jogava ping-pong com os amigos, na hora do recreio. Mas isso faz muitos anos e eu nem me lembrava como segurar na raquete! Um belo dia, um amigo meu cadeirante, o Yugo, me convidou pra assistir o treino dele de tênis de mesa. Achei o máximo ir, porque achava (coitada de mim) que eu ainda sabia jogar. Lá fui eu, ver o treino e quase me escondi atrás de um pilar quando cheguei! Vários andantes e o Yugo cadeirante, treinando de um jeito que eu nunca tinha visto. Quando houve um momento propício, eu e outro amigo andante, pegamos as raquetes e começamos a brincar de bater bola na mesa. Eu tava achando fácil, o Yugo me ensinou onde posicionar a cadeira e estava na maior paciência do mundo, disfarçando, falando que eu estava jogando bem. Fui embora contente.

Na semana seguinte, eu tinha aula de tênis de mesa no Sarah! Achei que eu não teria dificuldade alguma. Até o professor começar a me ensinar direito! Eu pegava várias bolas, mas acertava todos os lugares da sala, menos a mesa do adversário! Até fui melhorando e fiz mais uma ou duas aulas. Até o professor dizer que eu preciso de paciência e concentração (alguém avisa pra ele que eu não tenho essas duas sobrando, mas faltando).
Ele me explicou várias coisas do tênis de mesa, regras, deu dicas…Mas aquilo não é pra mim, definitivamente!

Então, me resta torcer pra quem leva jeito! E quem leva é minha amiga hospitaleira Carla Maia! Carla é treta como eu, mas tem uma lesão mais alta que a minha e tem menos movimento que eu. Mas na mesa de tênis ela vira uma gigante! Eu me sinto uma formiguinha perto dela.

E pensar que o tênis de mesa entrou por acaso na vida dela. O treinador olhou pra ela (ela nunca tinha treinado!) e perguntou se ela gostaria de participar de um campeonato que aconteceria em alguns meses. Ela disse: “Se você conseguir me inscrever, eu começo a treinar”. Ela pensou que ele nunca mais ligaria pra ela! Em uma semana ele ligou e disse: “Pode vir treinar. Você está inscrita”. E ela arrasou! Como sempre, em tudo que ela faz na vida!

Nesse final de semana, Carlinha participaria da Copa Brasil de Tênis de Mesa. Claro que ela se inscreveu para os jogos Paralímpicos, na categoria dela. Mas Carla participará de um campeonato importante na Itália. Então, ela resolveu se inscrever no campeonato Olímpico (sim, com as andantes) “só pra treinar pra Itália”. O “só pra treinar” rendeu a ela a medalha de outro nos Paralímpicos, a medalha de bronze nos Olímpicos (sim, ela ganhou de várias andantes!) e o Troféu Eficiência.

Vendo Carla jogar, aprendi muito! A forma correta de sacar, como devolver uma bola. Claro que ela tem anos de técnica de jogo, mas ela deu um baile em muitas meninas.

Fiquei curiosa pra saber a idade do tênis de mesa como esporte paralímpico. E até que ele é bem velhinho! A modalidade começou em 1995, com a fundação do Comitê Paralímpico Brasileiro.

O tênis de mesa é um dos mais tradicionais esportes paralímpicos, disputado desde os Jogos de Roma tanto no masculino quanto no feminino. Todas as edições dos Jogos Paralímpicos tiveram disputas da modalidade.

No tênis de mesa participam atletas do sexo masculino e feminino com paralisia cerebral, amputados e cadeirantes. As competições são divididas entre atletas andantes e cadeirantes. Os jogos podem ser individuais, em duplas ou por equipes. As partidas consistem em uma melhor de cinco sets, sendo que cada um deles é disputado até que um dos jogadores atinja 11 pontos. Em caso de empate em 10 a 10, vence quem primeiro abrir dois pontos de vantagem. A raquete pode ser amarrada na mão do atleta para facilitar o jogo. A instituição responsável pela modalidade é a Federação Internacional de Tênis de Mesa (ITTF). Em relação ao tênis de mesa convencional existem apenas algumas diferenças nas regras, como na hora do saque para a categoria cadeirante. No Brasil, a modalidade é organizada pela Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM). (http://www.cpb.org.br/modalidades/tenis-de-mesa/).

É meus amigos, Carla e Zé, um dos treinadores dela, queriam aproveitar a oportunidade e a presença do classificador funcional ali, pra saber a minha classificação no tênis de mesa. Mas eu pensei que fosse brincadeira e perdi minha chance! Se bem que eu não levo o menor jeito! Então, creio que vocês não me verão nas mesas, segurando a raquete! Já que é assim, torçam pra Carlinha conseguir a vaga delas nas Paralimpíadas 2016. Assim vocês terão a chance de ver como se joga o tênis de mesa de verdade, com o coração e sorriso no rosto!

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News

20
fev

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Natação Adaptada

Como todo mundo já percebeu, depois do meu acidente, eu virei peixe (baleia não,por favor!), trocando as ruas e pistas de corrida pela piscina.

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Segundo o site oficial do Comitê Paralímpico Brasileiro, a natação está presente no programa oficial de competições desde a primeira Paraolimpíada, em Roma (1960). Homens e mulheres sempre estiveram nas piscinas em busca de medalhas. O Brasil começou a brilhar em Stoke Mandeville (1984), quando conquistou um ouro, cinco pratas e um bronze. Nos Jogos Paralímpicos de Seul (1988) e nos de Atlanta (1996), os atletas trouxeram um ouro, uma prata e sete bronzes. Em Barcelona (1992), a natação ganhou três bronzes. Os Jogos de Sydney foram marcados pelo excelente desempenho da natação, que trouxe um ouro, seis pratas e quatro bronzes para o Brasil. Em Atenas, foram sete medalhas de ouro, três de prata e uma de bronze. No Parapan do Rio de Janeiro (2007) o Brasil ficou em segundo lugar geral da modalidade, perdendo para o Canadá, mas ficando na frente dos Estados Unidos. Foram 39 medalhas de ouro, 30 de prata e 29 de bronze.

Na natação, competem atletas com diversos tipos de deficiência (física e visual) em provas como dos 50m aos 400m no estilo livre, dos 50m aos 100m nos estilos peito, costas e borboleta. O medley é disputado em provas de 150m e 200m. As provas são divididas na categoria masculino e feminino, seguindo as regras do IPC Swimming, órgão responsável pela natação no Comitê Paralímpico Internacional.

As adaptações são feitas nas largadas, viradas e chegadas. Os nadadores cegos recebem um aviso do tapper, por meio de um bastão com ponta de espuma quando estão se aproximando das bordas. A largada também pode ser feita na água, no caso de atletas de classes mais baixas, que não conseguem sair do bloco. As baterias são separadas de acordo com o grau e o tipo de deficiência. No Brasil, a modalidade é administrada pelo Comitê Paralímpico Brasileiro.

O atleta é submetido à equipe de classificação, que procederá a análise de resíduos musculares por meio de testes de força muscular; mobilidade articular e testes motores (realizados dentro da água). Vale a regra de que quanto maior a deficiência, menor o número da classe. As classes sempre começam com a letra S (swimming) e o atleta pode ter classificações diferentes para o nado peito (SB) e o medley (SM).
(http://www.cpb.org.br/modalidades/natacao).

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Minha escolha foi feita pois o investimento inicial no esporte seria baixo. Precisei apenas de uma touca, um maiô e óculos.

Devido a esse baixo investimento, muito atletas também escolheram a natação para começar. E acabam ficando nela, por falta de recursos financeiros. Mas isso também os faz nadar, nadar e não alcançar a borda,ou seja, os tão sonhados troféu, medalha, patrocínio ou reconhecimento no esporte.

Esse é o caso de uma grande amigo meu, o Thiago Sartor, lá de Santa Catarina. Quando decidi começar a nadar e fui liberada pelo médico, esse mocinho lindo me ajudou muito! Me deu várias dicas pra sair dos espaguettis, pra perder o medo de colocar a cabeça na água de novo, me incentivou, me ouviu, me aconselhou. Por isso, quando decidi falar da natação adaptada, não quis contar sobre mim, mas sobre ele! Então, deixa ele começar, né?!

“Sempre gostei de jogar futsal, futebol, não era aquele jogador excepcional, mas sempre fui esforçado e esbanjava força física. Cheguei a jogar três anos no campeonato amador da minha cidade. E foi nessa época que comecei a trabalhar, terminei o ensino médio, comprei uma moto e começava ficar mais ‘livre’. Ao completar 18 anos tinha o que qualquer garoto nessa idade sonha: tinha meu transporte próprio, recebia dois salários mínimos, sem custo de moradia ou comida, pois morava com meus pais. Saía quase 3x por semana, fora quando não ia a bares, sempre de moto. No mês de

Dezembro de 2008, eu saí dia 12, não dormi dia 13. E no domingo (14), não soube dizer não ao um convite para mais uma festa, mesmo cansao e com sono.

Era um torneio de laço, uma festa sempre tradicional aqui no Sul. Bebi, dei risada, beijei, dancei muito. Aproveitei a festa até o ultimo minuto. Aquela noite estava diferente. Eu me lembro de ir ao banheiro, e de olhar para o céu, uma chuva fina caindo no meu rosto. Pensei: “Nossa que sensação boa”. Tudo estava diferente. Aproximadamente 21h30min eu chamei meu amigo para irmos embora. Estava lúcido, mas com certeza alterado com a bebida que ingeri. Fui para pista, senti que ela estava molhada, mas não dei muita bola. Como era uma BR(Nunca tinha dirigido em uma BR), acelerei. Passei por um posto policial, vi as luzes da minha cidade – a última imagem que lembro antes do acidente. Depois disso devo ter dormido, pois só lembro de mato e galhos batendo em meus braços e meu amigo gritando: “Aonde tu está indo?” Foi quando ‘acordei’, soltei o acelerador e senti galhos batendo em meus braços, um estouro e uma forte batida na cabeça.

Depois disso fiquei acordado sem poder me mexer. Achei muito estranho, uma sensação esquisita, pois nunca tinha quebrado nenhuma parte do corpo, apesar de ser sempre ‘meio maluco’. Mal eu sabia que tinha quebrado três vertebras, e com a fratura, uma lesão forte e completa na medula, ocasionando uma perda parcial de movimentos e sensibilidade do peito pra baixo.”

Tá achando ruim? Olha só o que os médicos fizeram: “Fiz a primeira cirurgia, errada por sinal, com um médico muito despreparado da minha cidade (Lages-SC). Depois de quatro meses tive que ir a Florianópolis tirar todo o material e fazer outra, só que bem feita. Hoje tenho 10 parafusos em minha coluna, que dão sustentação a ela.”

E foi assim que Thiago entrou pro time dos cadeirudos e cadeirudas, apesar de a ficha dele demorar um pouquinho pra cair.

Então, adivinha pra onde o Thiago veio? Exato! Aqui onde me encontro no momento: Hospital Sarah Kubitschek. No início, Thiago achou que viria pra cá a fim de voltar a andar. Mas teve que aprender, como muitos que chegam aqui, que o objetivo do hospital não é operar milagres!

Porém, logo tudo mudou! Mas deixa o Thiago contar com as palavras dele:

“Na época de internação, conheci pessoas que mudaram minha vida, desde pacientes, mostrando que meu problema era pequeno perto do deles, até profissionais, como o Guigo (Guilherme Lopes) e o Fred (Frederico Ribeiro). Esses são dois profissionais de Educação Física, que me mostraram que eu poderia competir, poderia voltar a praticar esportes, só que, claro, com que me restou de movimentos: os BRAÇOS. No hospital conheci a canoagem, basquete e a natação. Escolhi o esporte mais difícil para um lesado medular com pouco equilíbrio, a natação. Em duas semanas treinando, e reaprendendo a nadar, o Guigo já me levou pra nadar no lago Paranoá, nunca bebi tanta água na minha vida. Na segunda vez, ele me fez nadar 600m de costas até uma ilha próximo ao hospital do lago norte. Uma sensação indescritível. Ali comecei a ver que só bastava ter força de vontade.”

Mas por que ele diz que escolheu o esporte mais difícil para um lesado medular?

“Voltei pra casa reabilitado. Já se passaram quatro anos do meu acidente. Hoje eu treino natação três vezes por semana. Conquistei mais de 40 medalhas, entre estaduais, regionais e sul-brasileiros na natação. Não sou um atleta de ponta por falta de incentivo, sempre conto com meu “paitrocínio” e também porque pra eu ser campeão brasileiro eu tenho que ser mundial e paralimpico, e estou na categoria do melhor paratleteta de todos os tempos, Daniel Dias. Por causa disso, de não ter muitas oportunidades, eu não consegui viver disso”

É, Thiago é um cara que mora numa região extremamente fria do país. Mas ele acorda cedo, as vezes com neblina e névoa. Vai pra uma piscina sem aquecimento, treinar antes de trabalhar! Isso é que é força de vontade! Mas, bater os índices do Daniel Dias é muito difícil! Então, apesar de tanto treino, esforço e disciplina, Thiago ficou no anonimato.

Perguntei se ele não gostaria de praticar outro esporte. A resposta foi óbvia: “Claro, Dani!”. Mas, então, o que falta? Foi o que disse, a natação é uma faca de dois gumes: é o esporte mais barato! Thiago gostaria de participar do basquete ou de corrida adaptada. Mas, pra isso, ele precisa de cadeiras específicas! E pensa que cadeira de rodas custa barato? Custa não!

E cadeiras pra praticar esporte chegam a custar o preço de uma moto.

E meu amigo continua aí, lutando, no anonimato, treinando firme e disciplinadamente. Aguardando o dia que ele possa ter uma chance, seja na natação, seja ganhando outra cadeira (Será que alguém quer ajudá-lo?) e partindo pra outro esporte! Mas pensa que ele fica triste por isso?

“Como não consigo viver de esporte, arrumei um emprego, sou Desenvolvedor de Software na maior empresa da Região no ramo. Vou me formar em Sistema de informação no fim do ano. Vou a boates, saio com meus amigos. Enfim, sou um cara realizado e cheio de vontade de viver. E agora, muito mais do que antes. Eu acredito em destino, e não imagino a minha vida sem as pessoas que me cercam hoje.”

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News

02
fev

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Novas tentativas

Para quem está acompanhando minha vida aqui no “Mãos pelos Pés” ou no Face, sabe que eu estou em Brasília!

Terça-feira, dia 29, cheguei à capital e fui direto pro Hospital Sarah Kubitschek, para fazer minha entrevista e tentar minha primeira internação. Mas, após a entrevista, eu fiz exames e tenho que aguardar uma semana, até a próxima terça, para que os resultados sejam divulgados e eu possa ter uma resposta – interno ou não….Aja coração!

Passar uma semana, todinha, numa cidade desconhecida, com meus pais ansiosos, poderia ser bem difícil. Mas tenho bons amigos que estão tornando tudo mais fácil e até gostoso!

Pra que me lê, sabe que estou nadando há algumas semanas, com ajuda do meu querido professor Jones Miller. Ontem, fui nadar também. Isso me ajudou muuuito a passar bem o dia. Eu ia até escrever sobre a natação adaptada essa semana. Porém, algo aconteceu e minha prioridade para a escrita mudou!

Hoje estava chovendo e eu não sabia o que fazer. Estava um dia chato, meus pais quiseram conhecer um shopping e eu cheguei a sentir sono na volta do passeio. Foi quando meu amigo Guigo Lopes me manda uma mensagem que dizia “O tempo melhorou. Rola até uma handbike”.

Uhuu! Lá fomos nós, pro Parque da Cidade Sarah Kubitschek, para tentar algo novo! Gente, um parto pra subir naquilo! Sorte que minha perninha direita ajuda um pouco e o Gui já tem experiência de sobra na área.

Depois do sufoco pra eu me posicionar (não suei porque lesado medular não transpira), lá fomos nós. Eu, no maior medo! Gui, pedalando uma bike comum, do meu lado o tempo todo, dando instruções, incentivando, diminuindo as marchas pra mim, pois eu só tinha força nos dedos pra deixar a bike mais pesada.

A primeira sensação? Ah, pensei que fosse mais difícil. Eu pensei que eu nem fosse sair do lugar! Mas, nem senti a primeira subida… Na verdade, pensei que estava bem fácil e o Gui disse que eu estava indo super bem. Depois, teve uma descidinha e uma mega subida. Aí eu morri e tive que parar 1 minuto pra descansar. Logo após, teve uma mega descida, quando fiquei desesperada e apertava os freios sem parar (meio freio! Com a mão esquerda eu só tinha força pra apertar com dois dedos, pois o indicador ainda está só de enfeite e o mindinho não estava a fim de trabalhar, e o dedão estava apoiando meu “guidão”).

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Em alguns trechos de subida leve, consegui atingir 9km/h (não se empolguem! Na subida forte, a velocidade caiu na mesma proporção em que a subida “subiu”). Na descida, o Gui gritava “força Dani” e eu pedalava forte, mas depois comecei a brecar desesperada pois já tinha atingido 20km/h. Eu me perguntava se os vários pedestres, caminhantes, corredores, tinham amor à vida. Mas eles tinham, saíam da minha frente e eu não atropelei ninguém.

Fizemos 4km e eu saí de lá me sentindo outra pessoa! Na verdade, 8horas depois eu ainda estava extasiada com a sensação! Como diz minha amiga Simone, quem é do esporte é do esporte e pronto! E eu sentia falta da endorfina e da dor muscular!

Minha mãe até brincou, dizendo que a dor que eu sentia nas pernas, por causa da corrida, vou começar a sentir nos braços. E aja braço pra essa handbike! Meu Deus!

Enquanto pedalávamos, o Guigo me explicou que a handbike que eu estava usando é própria para passeio. A hand para competição é mais leve, e um pouco menor. Como ele me chamou atenção para essa diferença, fui pesquisar no nosso amigo Google.

Descobri muita coisa legal, mas acho que ainda falta pesquisar mais. Para quem não conhece, a bike dos cadeirudos possui três rodas, dispositivos configurados com um sistema de pedalar que é operado usando as mãos e os braços em vez de pernas e pés. Os pedais estão localizados em frente do ciclista, mais ou menos, ocupando a posição do guidão de uma bicicleta normal.

Do ponto de vista prático, uma bicicleta de mão é um excelente meio de transporte para quem é incapaz de operar uma bicicleta normal.

Geralmente, elas funcionam bem para lesões de baixo e alto nível e a maioria tem pedaleiras ajustáveis, ângulo do assunto (ainda bem, senão teria sido ainda mais difícil minha primeira sentada!), vem com uma grande variedade de engrenagens de roda, pneus e configurações, dependendo do uso pretendido. A bike exige uma quantidade justa de parte superior do corpo e a força do braço para gerir de forma eficaz (bota força nisso!), tornando-se uma excelente forma de exercício, bem como proporcionar ao indivíduo a capacidade de desfrutar de um grau de mobilidade. Por esta razão, uma bicicleta de mão muitas vezes é uma ótima alternativa para pessoas que têm pouco ou nenhum uso de suas pernas. Dá pra divertir bastante, aproveitar a paisagem, a natureza, dá até pra paquerar os gatinhos e gatinhas que passam correndo ou pedalando (porque hoje, na handbike, só tinha eu no parque!)

No entanto, o custo ainda é elevado para os padrões brasileiros. O valor médio é de R$3.000,00 (claro que as profissionais custam muito mais caro que isso! Esse valor é de uma simples). Assim, nem todos os cadeirudos tem a possibilidade de experimentar a modalidade. Muito menos de ter uma! Eu mesma, só experimentei porque Guigo me emprestou!

Mas, quando você está ali, experimenta a sensação nova, nem te passa pela cabeça “poutz, se eu cair, a roda vai entortar e eu não terei grana pra mandar arrumar”. Imagina! Quando você está ali, tentando algo novo, vendo que você consegue, sendo incentivado, sentindo a endorfina correndo pelo corpo, sorrindo e sentindo o vento bater no rosto enquanto seu braço arde, só dá pra pensar em uma coisa: com certeza eu quero fazer isso de novo!

A primeira pedalada de Handbike

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News

28
jan

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Por que o Sarah?

Muitas pessoas me perguntam por que a ideia fixa de ir para um hospital tão longe, velho conhecido dos lesados medulares: o Sarah!

Para quem não conhece, o hospital Sarah Kubitschek, cuja matriz fica em Brasília, e é dividido lá em duas unidades, é o maior centro de reabilitação para lesão medular no país e referência na América Latina. Temos outras unidades espalhadas pelo país, como em Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

Todas as unidades são destinadas ao atendimento de vítimas de politraumatismos e problemas locomotores, objetivando sua reabilitação; é mantido pelo Governo Federal, embora sua gestão faça-se pela Associação das Pioneiras Sociais. O nome é em homenagem à Sarah Kubitschek, primeira dama do país na época da fundação de Brasília.

Pies para qué los quiero si tengo alas pa’ volar? (Pés, pra quê os quero, se tenho asas para voar?) Frida Kahlo.

Justamente por isso eu quero ir pro Sarah, porque quero voar! Não voar literalmente, como fez meu amigo Fernando Fernandes. Diferente dele, eu morro de medo de altura!

Mas, eu quero ter um pouco de liberdade, de mobilidade, de independência!

Como ainda não consegui minha vaga no Sarah, eu sou muito dependente das pessoas. Ainda não aprendi a me transferir (sair da cadeira e ir pra cama, pro carro, pro sofá, sozinha), não consigo trocar de roupa sozinha. Então, preciso da ajuda da família pra me trazer água, comida, me ajudar a sair de casa pra passear, a sair da cama e ir pro sofá assistir TV, entre outras coisas.

Além de ensinar essas coisas “básicas” para a alegria de qualquer cadeirante, o Sarah de Brasília conta com uma unidade conhecida como Sarah Lago Norte.

Como o site oficial do Sarah o define “O Sarah Lago Norte é um importante centro de apoio a pesquisas avançadas na área de reabilitação e a intensificação dos programas de tratamento de pacientes, visando reintegrá-los ao meio de origem.” (http://www.sarah.br)

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Mas, para cadeirudos como eu, é ali que a diversão começa: é onde somos apresentados aos esportes adaptados.

Um pouquinho das instalações foi mostrado no programa da Regina Casé, numa matéria linda sobre nós, cadeirantes. Lá, ela entrevistou a presidente (ou presidenta?) Dilma e me fez ficar com mais e mais vontade de ir pra lá!

Quais são minhas expectativas pra essa semana que começa hoje?

Bem, amanhã eu embarco pra Brasília e tentarei a minha vaga lá! Farei exames por uma semana, na esperança de ser aceita pra internação, começando no Sarah Centro, pra reaprender a ser independente, e depois, espero ser “enviada de mala e cuia” para o Sarah Lago Norte e me divertir muito, aprendendo a perder o medo, como o que eu tinha, de enfiar a cabeça na água!

Ah, isso eu ainda não contei! Vamos lá! Quando eu fui liberada pelo médico para entrar na água, eu morria de medo de me afogar. Isso porque minha coluna tinha zero de firmeza, e eu tinha medo de afundar como pedra. Então, eu preferia ficar segura, com a cabeça pra fora da água. Até que eu comecei na escola de natação e meu professor, pacientemente me ajudou a perder esse medo e, finalmente, enfiar a cabeça na água.

Também tenho outros receios, relacionados à cicatrização da minha cirurgia e os esportes. Espero perder todos os medos lá e encher o blog de novidades sobre tudo que eu experimentar por lá!

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News

18
jan

15

Danielle Nobile lança blog

Meu nome é Danielle Nobile, tenho 27 anos, sou professora e era corredora há 5 anos.

Já participei de mais de 60 provas de corrida de rua, incluindo duas meia-maratonas Internacional do Rio, Maratona de São Paulo (10km e 25km), duas meia-maratonas de Ribeirão Preto e corri duas vezes 75km Revezamento Bertioga-Maresias, entre outras tantas provas que curti, sofri, chorei, sorri, fiz amigos, subi no pódio, colecionei medalhas e emoções…

Você já teve sua vida mudada em 2 segundos? Eu tive!

Foi no dia 22 de outubro de 2012. Era pra ser um dia normal. Saí cedo pra trabalhar e ia treinar à noite. Mas, nesse dia, minha vida mudou! Capotei o carro 8 vezes e,apesar sair “do liquidificador” (é essa a impressão que eu tive) sem nenhum corte no corpo, eu quebrei uma vértebra na coluna e “fui parar” na cadeira de rodas.

Para muitos, isso é motivo de desespero! Para alguns de meus amigos foi (e ainda é) e para família… Bom, a minha ainda está se acostumando com essa ideia.

Para mim? Bem, na virada de 2011 pra 2012 eu pedi: “Ano novo, vida nova”. E foi exatamente isso que eu ganhei! Uma vida nova, novinha em folha! Para começar de novo! Quando o carro parou de girar e voar, eu renasci! Ganhei uma vida nova, mais calma, mais consciente, mais dolorosa (quem pensa que não sinto dor todo santo dia, está muito enganado!), mais reflexiva…

E essa vida nova é um constante aprendizado. No campo da família, no campo das amizades, no campo do amor, nocampo emocional, no campo físico (pois eu aprendo com meu corpo todos os dias) e no campo dos esportes!

Eu fiquei 5 anos treinando pra fazer minha primeira maratona. Mas, tive que aprender que dá pra correr uma maratona sem andar, porque o esforço que eu estou fazendo todo dia, proporcionalmente, é um treinamento pra uma maratona…e essa é a mais especial da minha vida!

Comecei com a fisioterapia, mas sempre com a cabeça ligada no esporte! Todos que iam me visitar pediam: “Não desista!”. “Desistir? Eu não vou desistir enquanto eu não voltar a correr!” – Essa era a resposta de sempre.

E dentro de mim eu pensava: “Não vou conseguir viver sem endorfina, meu Deus! O que eu vou fazer?” Vamos ver o que eu já sei fazer :Correr? Preciso de pernas. Pedalar? Preciso de pernas (ao menos eu pensava assim). Nadar? Sim!!!!!!!! Essa era a solução! Comecei a torrar a paciência do médico para me liberar para natação. Logo que fui liberada, já caí na piscina. Primeiro com a ajuda do meu pai. Agora, também, com a ajuda de professores desse esporte.

Muitos me perguntam como eu consegui me acostumar com essa ideia, com a nova vida e a nova realidade, tão cedo.

Alguns levam meses, até anos, para aceitar a nova perspectiva (sim, porque sentada na cadeira, eu vejo o mundo por um novo ângulo!). Eu simplesmente não sei! Eu apenas enxerguei uma possibilidade de viver, não sobreviver! Sobreviver, apenas, é muito chato! Eu quero viver intensamente, cada dia, passear, trabalhar, realizar, ajudar, viajar, nadar, andar de handbike, completar a São Silvestre de novo (correndo com os pés ou com a cadeira, prometi para 2013 e vou cumprir!) fazer tudo que eu aprendi que posso.

Também não deixei a vaidade de lado, não deixo me arrumar, cuidar do cabelo e dar unhas e cuidar da pele (eu mesma faço tudo em casa)! Um dia desses, eu estava me arrumando, e uma pessoa próxima a mim disse: “Acho ridículo você se maquiar pra sentar numa cadeira de rodas.” Ridículo é eu sair de casa de ridícula!hahaha Eu me arrumo sim, passo maquiagem todos os dias, desde que eu estava no hospital (graças às amigas que me supriram), mesmo que for pra ficar em casa! Não é por que sou cadeirante que vou ficar feia, descuidada ou obesa!

Sabe, eu tenho dois meses e pouquinho de lesão! Sou atleta (ainda sou, no coração!) e não dou conta de ficar parada chorando, sofrendo! Eu nunca fui assim! Tem alguns momentos que eu choro, ou por estar com dor, ou por estar sozinha, ou por sentir vontade de correr…mas não pela minha situação! As pessoas não sabem que sentimos dor. Pensam: “ah, ela não mexe a perna!”, mas não sabem que junto vem um monte de outras coisas, como espasmos, cãibra, dor nas costas (a minha parece uma gelatina ainda, sem firmeza), dos nas mãos, nos braços, problemas na bexiga, e por aí vai… Mas nada disso vai me parar também! Nem vai me fazer deixar de sorrir!

Quando o médico foi se apresentar a mim, na UTI, eu disse à ele: “Doutor, soube que você e sua equipe são os melhores. E eu sou bem teimosa. Então acho que vai dar muito certo isso!” E sou teimosa mesmo! Não serei como aqueles cadeirantes que fica chorando o dia inteiro, se lamentando da vida! Eu nunca vivi essa fase! Isso nunca passou pela minha cabeça! Eu simplesmente sou otimista! Eu tenho o plano A e o plano B. O plano A, claro, é voltar a andar e correr. O plano B é ser nadadora e encher mais um porta-medalhas (dessa vez, não com medalhas de corridas, mas de natação adaptada!)

Eu descobri que há uma gama de possibilidades de esporte e vida, para cadeirantes! O que não dá é ficar deitado na cama o dia inteiro, vendo a vida passar, sendo sedentário e esperando um milagre cair do céu! Você tem que “rodar” atrás de algo que você goste! Se você não sabe do que gosta, vá lá, tente e veja se gostou ou não… Se não gostou, tente outra coisa!rs

Eu ainda sou muito dependente das pessoas (especialmente dos meus pais, que cuidam de mim diariamente) para tudo, pra me colocar na piscina, no chuveiro, pra me trocar, me trazer comida ou me levar aos lugares. Isso porque tenho pouco tempo de lesão e ainda não fiz reabilitação. Dentro de algumas semanas, espero conseguir uma vaga no Hospital Sarah Kubitschek, e lá aprenderei a me virar sozinha e ser mais independente! Sim, pois descobri que a falta de pernas (ou, no meu caso, a presença delas, mas só de enfeite) não é empecilho para levar uma vida feliz e normal.

Graças a internet descobri um milhão de amigos cadeirantes, que saem, passeiam, trabalham, levam uma vida normal.

Muitos são completamente independentes. Outros precisam de auxílio para algumas coisas. Mas não é porque tem um acessório a mais que são mais ou menos felizes. Na verdade, acho que alguns são mais felizes que alguns andantes (normal é uma palavra muito pequena pra colocar aqui). Há pessoas que andam, mas tem doenças psicológicas, como depressão e síndrome do pânico, e ficam presas dentro de si mesmas, do medo, da angústia. Isso é muito pior que uma limitação física! É nosso cérebro que nos move, não nosso corpo!

Na minha vida nova, como um bebê de dois meses e meio que sou, eu não paro de aprender. E espero que nenhum de vocês pare! 2013 é um ano de esperança e expectativa para mim! Esperança de ir pro Sarah! Esperança de voltar a andar!

E se eu não voltar, esperança de aprender a viver (nunca sobreviver,) da melhor maneira possível! E Deus colocou na minha vida pessoas maravilhosas que estão em ensinando a fazer isso!! Eu também aprendi a sorrir (mais? será possível?) até pras dificuldades! Afinal, lágrimas, depressão e mal-humor não curam doença e não resolvem problema, só pioram a situação!!!

Meu lema e meu conselho pra 2013? Já disse uma vez, mas não canso de repetir: Vamos viver! Vamos sorrir! Quem fica parado é poste: então, levante essa cabeça e dê a volta por cima!

Com esse lema em mente, recebi o convite do Harry pra escrever e compartilhar minhas emoções e sensações. Confesso que tive um turbilhão disso tudo de uma só vez! Senti-me honrada, mas com medo, receosa… nossa, um monte de coisa junto!

Meu objetivo aqui é compartilhar minhas novas experiências no mundo dos esportes adaptados, tanto enquanto pesquiso, quanto enquanto pratico. Assim, quem não conhece, poderá conhecer. Mas, meu objetivo principal é incentivar os “cadeirudos” e “cadeirudas” que estão lá, desanimadinhos, na cama ou no sofá, a se mexer um pouquinho e experimentar coisas novas!

 

Texto originalmente postado no blog Mãos pelos pés, no Running News

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